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Brasil, quinta-feira, 3 de julho de 2008

26 de ABRIL de 2004

DIREITOS REPRODUTIVOS

Milhares protestam em Washington contra política antiaborto de Bush
 

Centenas de milhares de manifestantes reuniram-se no National Mall no domingo (25) para apoiar o direito ao aborto e se opor às políticas do governo Bush sobre as questões de saúde reprodutiva das mulheres.


A imensa avenida do National Mall ficou tomada pela marcha rosa
 
 

Uma gigantesca manifestação pelo direito de aborto tomou conta ontem do centro da capital americana, transformando-se num protesto contra o presidente George W. Bush, e abrindo espaço para que opositores democratas pedissem votos para seu adversário na campanha presidencial, o senador John Kerry — favorável ao direito de aborto, embora católico.

Bush tenta agradar o eleitorado conservador com leis retrógradas que limitam os históricos direitos reprodutivos conquistados pelas mulheres norte-americanas, e democratas querem transformar a questão num tema central da campanha para as eleições de novembro.

Batizado de Marcha pela Vida das Mulheres, o protesto reuniu no Mall, diante do Capitólio (Congresso), centenas de milhares de pessoas (na maioria mulheres) que questionaram a decisão de Bush de impedir o financiamento de programas de planejamento familiar que admitam o aborto, nos EUA e em outros países.

Segundo organizadores, a marcha reuniu um milhão de pessoas, o que a tornaria o maior protesto já ocorrido em Washington. Em 1992, uma manifestação contra o aborto atraiu cerca de 500 mil pessoas. Um protesto contra a Guerra do Vietnã com 600 mil pessoas, em 1969, é considerada a maior manifestação já ocorrida em Washington.

Cerca de 1.400 grupos de 57 países e americanos vindos de várias partes dos EUA participaram da manifestação de ontem. Com camisetas nas cores rosa e roxa, mulheres ergueram cartazes com frases como “EUA, fora do meu útero”, “Vasectomia para os republicanos” e “Corra, Bush, corra — as feministas estão chegando”. Desafiando grupos anti-aborto apoiados pelo governo — e que incluem movimentos radicais de perseguição a médicos que dão assistência a mulheres que querem fazer o aborto — estudantes de medicina carregaram cartazes em que anunciavam pertencerem à nova geração de provedores de aborto.
 

Maggie Bartles de Bradenton, Flórida, e Cami Campbell de San Diego, ambas com 11 anos de idade, estavam à frente de uma multidão. As duas usavam camisetas rosas com os dizeres "estudantes apóiam a escolha". "Você deveria poder escolher o que fazer com seu corpo", disse Campbell. "Acho que deveríamos tirar Bush daqui", acrescentou Bartles.

Quando a marcha seguia em direção à Casa Branca, deparou-se com centenas de manifestantes anti-aborto, que cantavam hinos e exibiam fotos de fetos e cartazes com frase como “Aborto mata bebês” e “Kerry=Assassino de bebês”.

Hillary discursa e pede votos para John Kerry

 
Filha de John Kerry (e.) conversa com a senadora Hillary Clinton durante a marcha; abaixo, as atrizes Whoopi Goldberg (d.) e Christine Lahti (e.)
Whoopi Goldberg (R) shares a laugh with Christine Lahti (L) as they join hundreds of thousands of women in Washington, DC.  marching in support of abortion rights and opposition to the Bush administration's policies on family planning(AFP/Stephen Jaffe)

Embora o protesto não fosse partidário — contando inclusive com adesão do movimento Republicanos pela Escolha — os discursos tiveram como maior alvo o presidente Bush. A senadora Hillary Clinton aproveitou para pedir votos para Kerry.

— "Não tivemos que fazer passeatas durante 12 anos porque tivemos um governo que respeitava os direitos das mulheres. A única maneira de evitar novas e repetidas marchas é elegendo John Kerry presidente.", disse a mulher do ex-presidente Bill Clinton.

Hillary foi um dos muitos oradores que consideraram o protesto apenas o começo de uma mobilização política que vai se ampliar ao longo do ano. Segundo ela, aquela era uma marcha “não apenas pela vida das mulheres, mas para levar energia à eleição de novembro”.
— "Qualquer mulher que vier marchar hoje e não registrar seu voto estará perdendo o seu tempo e o nosso.", disse Hillary.

A marcha aconteceu após derrotas de grupos pró-aborto. No início do mês, Bush aprovou uma lei que dá ao feto status jurídico, de modo que, no caso de assassinato de uma mulher grávida, o criminoso poderia ser acusado de duplo homicídio. Os grupos anti-aborto consideraram a medida um passo para criminalizar o aborto. No final do ano passado, Bush aprovou uma lei que proíbe o aborto em fase tardia de gravidez. Além disso, nenhum financiamento norte-americano pode ser atualmente usado por qualquer agência de planejamento familiar que sugira aborto aos pacientes. Durante a última manifestação anual de grupos anti-aborto, em janeiro, o presidente afirmou que eles lutavam por “uma causa nobre”.

Uniram-se à passeata Madeleine Albright, secretária de Estado no governo Clinton, e estrelas de Hollywood como Susan Sarandon, Ashley Judd, Kathleen Turner, Cybill Shepherd e Whoopi Goldberg (foto), ela própria uma das organizadoras do evento. Exibindo um cabide (símbolo de abortos ilegais), Whoopi disse à multidão:

— "Estamos a um voto de voltar a isto!"

O aborto foi legalizado nos EUA em 1973, com uma histórica sentença da Suprema Corte.

Nem Bush nem Kerry estavam em Washington. Karen Hughes, assessora de Bush, foi ontem à TV CNN para elogiar as ações do presidente para as mulheres e dizer que ele emprega mais mulheres em funções elevadas do governo do que qualquer outro presidente. Karen afirmou ainda que os ativistas pró-aborto estão agindo contra uma tendência de valorização da vida fortalecida no país com os atentados do 11 de Setembro.

— Acho que depois do 11 de Setembro os americanos estão valorizando mais a vida e precisamos de políticas para valorizar a dignidade e a riqueza de cada vida — disse ela. — O presidente Bush tem trabalhado para dizer “vamos trabalhar para valorizar a vida, reduzir o número de abortos e incentivar adoções”. E eu acho que estas são políticas que os americanos podem apoiar, particularmente num momento em que enfrentamos um inimigo e, realmente, a questão fundamental entre nós e a rede terrorista contra a qual lutamos é que valorizamos cada vida.

Kerry desafia o Vaticano

O candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, John Kerry, comungou durante uma missa no sábado, na igreja católica que freqüenta habitualmente, a Igreja de São Paulo, em Boston, apesar da oposição manifestada pelo Vaticano. Na sexta-feira, o cardeal nigeriano Francis Arinze — várias vezes apontado como possível sucessor do Papa João Paulo II — disse que políticos católicos que defendem o aborto “não estão aptos à comunhão”.

As posições de Kerry — favorável ao aborto e a pesquisas biológicas de ponta, como aquelas realizadas com células-tronco de embriões, condenadas pelo Vaticano — têm preocupado bispos católicos americanos e ameaçado um possível apoio ao candidato. Embora não tenha ido à passeata de ontem em Washington, Kerry reuniu-se com as organizadoras do movimento. Na reunião, o senador ratificou sua posição a favor do direito ao aborto.

O porta-voz da Arquidiocese de Boston, Christopher Coyne, disse que o distrito “não nega a comunhão a ninguém”. Ele contou que havia contatado os responsáveis pela igreja para garantir que não haveria qualquer problema com a comunhão de Kerry. Dezenas de jornalistas acompanharam a missa.

A Igreja de São Paulo de Boston, que Kerry freqüenta, é muito mais progressista do que o Vaticano. Recebe habitualmente casais homossexuais e divorciados — o próprio Kerry separou-se de sua primeira mulher e é casado pela segunda vez.

Clique aqui para ver fotos da manifestação
(galeria do site Yahoo.com)

 

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