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por Myrian Luiz Alves*
Para Luzia Reis, a Baianinha
Na dia 4 de março, matéria do jornalista
capixaba Leonêncio Nossa, em O Estado de
S.Paulo, trouxe a revelação de Sebastião
Curió de que Dinalva Oliveira Teixeira, a
Dina, teria morrido no dia 24 de julho de
1974.
Em 1993, relatório da Marinha apontava que
Dina "teria sido morta em Xambioá", em julho
daquele ano, mas não indicava o dia, e o
Exército, do qual fazia parte o então agente
Marco Antonio Luchini, o Curió, nada dizia
sobre a mais conhecida guerrilheira do
Araguaia. Para a população do Araguaia,
porém, Dina não morreu.
Para os pesquisadores da Guerrilha, fatos
como esse impressionam pela frieza e pela
maneira como a História do País é tratada:
informações sérias são reveladas e pouco se
faz pela reconstrução desta luta tão bela e
cruel pela redemocratização do Brasil.
Dina, geóloga nascida em Castro Alves (BA),
vivia com seu marido Antonio Monteiro
Teixeira, também geólogo da Universidade
Federal da Bahia, no Rio de Janeiro. Os dois
integravam a Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência e Tecnologia - SBPC. Na
militância comunista, faziam trabalhos
sociais nas favelas cariocas. Juntos, foram
para a região de Abóbora, sul do Pará.
A lenda que mantém Dina viva na memória da
população de toda a região onde se
desenvolveu a Guerrilha, aponta que a
vice-líder do Destacamento C teria sido a
primeira moça a mergulhar de biquíni nas
águas do rio Araguaia.
As mulheres lembram que isso aconteceu logo
depois que Dina chegou por lá.
Meses depois, era em sua porta que as
pessoas batiam, mesmo de madrugada, para que
ela fosse fazer partos ou prestar socorro
aos necessitados. João Carlos Hass, Dina,
Luzia Garlippe (Tuca), Paulo Rodrigues,
Paulo Roberto (Amauri) e tantos outros
ficaram na memória justamente por essa
qualidade: o auxílio médico e certeiro à
população local.
Hoje, ao circular no Araguaia, é comum
encontrar pessoas que contam que Dina fez
isso, Juca fez aquilo, como Tuca as tratou,
que Amauri ficava na cabeceira das
parturientes, esperando com paciência o
momento de retirar os bebês. Acarinhava,
conversava, acalmava as futuras mães e
recebia os novos moradores com carinho de um
pai fraterno. Antes, Amauri era bancário em
Belo Horizonte.
A pesquisa sobre a Guerrilha aponta que
talvez tenha sido o doutor João Carlos o
responsável por esse espírito humanista. E
isso teria sido adquirido por todos os
camaradas que ali iriam participar dos
combates. Ao mesmo tempo, ao conhecer a
população do sul do Pará, do Maranhão e
norte do Tocantins, pode-se concluir que ali
houve uma permuta, já que o carinho
transmitido por aquela gente traz a sensação
de que o povo brasileiro é bom.
É tão bom que não esquece aqueles amigos e
nos faz sentir vontade de conhecê-los, ou
feio sentimento de inveja, por não ter tido
a sorte deste convívio.
Há algumas semanas, como biógrafa de Líbero
Giancarlo Castiglia, o italiano Joca, vi
lágrimas nos olhos de Eduardo, seu
ex-vizinho na Faveira. "Sinto saudade deles,
era gostoso chegar na casa do Joca e de dona
Maria (Elza Monerat) e tomar aquele café
diferente (eles não colocavam o açúcar
direto na água, como é costume na região) e
depois um ajudava o outro, nas coisas de
casa, na minha roça, e eles trabalhavam o
tempo todo, sempre arrumavam algo para
fazer. Sinto falta daquela amizade."
Otacílio, o Baiano, o primeiro
prisioneiro da região, liga todos os anos
para o diretório carioca do PCdoB para
cumprimentar dona Maria em seu aniversário.
Para ele, nem importa se vai conseguir falar
com ela, o que vale é o recado, o gesto.
Para ouvir as histórias de Lúcia Maria, a
médica Sônia, na região de São Domingos, é
preciso ser forte, é quase impossível conter
o choro. E não é apenas pelo fato do que
tenha ocorrido, da forma bárbara como se deu
seu combate e sua morte, mas por causa da
saudade por ela deixada. Como diz o filho de
dona Margarida, que deveria ter nascido por
suas mãos: "homens que foram o sonho, quando
o sonho fugia dos homens", em poema dedicado
à Sônia e seus companheiros.
Ao conversar com militares que atuaram nessa
região, a beleza de Jana Barroso (Cristina)
sempre é destacada. "Foi a mulher mais
bonita que já vi", dizem. Na tese de
Romualdo Pessoa isso é lembrado: "quando a
polícia chegou, pensei que o pai da Cristina
tinha mandado eles aqui para levar ela de
volta", lembra um amigo do destacamento. Ou
ainda, "era a flor da subversão na
boniteza", como registra um morador. Tuca,
presa em 1974 na Bacaba, ainda recomendou
aos filhos do ex-sargento Santa Cruz que não
pusessem sementinhas no bico do papagaio e
depois colocassem em suas bocas novamente,
pois isso poderia dar doença. Tuca,
ex-enfermeira-chefe do departamento de
doenças tropicais do Hospital das Clínicas
de São Paulo, loira alta e bonita, andava
sempre acompanhada da japonesinha Chica
(Sueli Yomiko), assistente da Comissão
Médica da Guerrilha, como lembram as
mulheres da Palestina. Telma Regina, a Lia,
pequena em sua estatura, carinhosa com seus
amigos e grande guerrilheira que, todos
sabem, foi presa, mas somente seus captores
podem contar o que se passou depois.
Ah, a Rosinha (Maria Célia Corrêa), tão
delicada quanto corajosa. Uma moradra, sua
amiga, conta a Romualdo o último diálogo:
"Rosinha, se eu pudesse, te enterrava no
chão de minha casa, deixava só sua boquinha
para fora para te dar comida, só para esse
povo (militares) não te matar". E ela
respondia: "Não fique triste, estamos aqui
para isso mesmo, é para lutar e morrer
também".
A baiana Diná (Dinaelza Coqueiro) deixou
fama de braba, valente, daquele tipo de
mulher que mesmo no infortúnio da covardia
não levava desaforo, pois, se fosse preciso,
xingava mesmo. Presa, foi esse o seu
comportamento, o de uma guerreira contra a
crueldade impetrada contra o povo que os
havia recebido com simplicidade e amizade.
A história de Dinaelza se confunde com a de
Áurea Elisa Valadão. Ela, dizem, ganhou
fúria de leoa, como registra o jornal O
Estado do Maranhão, em fevereiro de 2002.
Professora das crianças de Caiano e Xambioá,
Áurea foi vista por muita gente quando presa
em 1974. Amaro Lins e sua companheira Neuza
registraram esse fato logo que ele saiu da
prisão. Amaro atestava que Áurea chegou a
datilografar seu depoimento.
Os registros militares de 1972 afirmam
que os guerrilheiros "construíram e mantém
uma escola para as crianças". A escola era
da estudante do Instituto de Física do Rio,
Áurea, famosa na região por sua facilidade
em lecionar matemática.
Maria Lúcia Petit deixou, ainda no início da
Guerrilha, sua doçura de flor. É a única
militante do Araguaia identificada. O
encontro de seu corpo, em 1991, provava que
era possível encontrar os companheiros.
Cinco anos depois de Elza ter afirmado que o
corpo era de Maria Lúcia, a Unicamp a
identificou. A morte da ex-dirigente da UNE,
Helenira Rezende, a Fátima, foi denunciada
pelas romarias ao local onde teria sido
enterrada. Alegre, Helenira acreditava numa
sociedade socialista. Saiu das torturas do
Dops paulista para a liberdade das matas do
Araguaia. Lutou olhando nos olhos de seus
algozes.
Essa guerrilha traz a iniciativa de, pela
primeira vez na história, reunir num mesmo
local tantas mulheres de vários estados.
Entre as que já estavam, mas não chegaram a
participar dos combates, as que tentaram
chegar e as que sobreviveram após a prisão,
existem seis. Apresenta ainda o fato de que
88 pessoas ao todo, no início de abril de
1972, enfrentaram mais de oito mil
componentes das três Forças Armadas ao longo
de três anos. A última a ser morta, segundo
os militares, foi Walquíria Afonso Costa, de
maneira covarde, como aconteceu com vários
companheiros, porque já estava presa.
Val, mineira e pedagoga, tocava acordeon,
instrumento que ela carregou para o
Araguaia, quando para lá seguiu com seu
companheiro Idalísio Soares Aranha, bom
tocador de violão. Nos fins de 1974, essa
professora obrigava homens brutos a
persegui-la na mata. E foi ela, uma mulher,
a última resistente dessa longa história.
Viva, em Salvador, Baianinha revela que
seu sonho, após a prisão, era reencontrar
seus companheiros. Recorda o carinho de Dina
tratando de feridas na perna de Antonio, que
já não era mais seu marido. Cuidava dele com
o carinho de uma mãe. Quando a comida era
feita por Dina, lembra Luzia, todos ficavam
felizes, o clima era de festa.
Graças às pessoas como Luzia Reis, e durante
esses 30 anos, às memórias de Elza, é
possível recontar essa história também por
outros ângulos. Como diz Luzia, "fui uma
combatente em meu país". E agora, estamos
todos aqui, vivendo, pela primeira, um outro
ineditismo histórico: ter representantes da
classe trabalhadora e de tantas lutas
dirigindo o Brasil.
Nesse mês de março, fica aqui para Luzia
essa homenagem. Sua foto, presa, eternizou o
olhar de todas as que ali tombaram por dias
melhores. Cabe a todos nós provar que a
coragem de Dina e suas camaradas não foi em
vão. E uma das experiências mais incríveis
na vida de uma pesquisadora dessa história é
poder ter a honra de conhecê-las, vivas ou
eternamente lutadoras em sua morte,
companheiras, amigas, sensíveis,
inteligentes, cozinhando, fazendo um parto
ou empunhando um fuzil. Se hoje o Araguaia
não as esquece, nossa obrigação é levá-las
para todo o Brasil. O Brasil, nossos filhos
e netos é que agradecem.
*Myrian Luiz Alves é jornalista /
pesquisadora da Guerrilha do Araguaia
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