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1º Encontro sobre Questões de Partido
Informe de Walter Sorrentino ao 1º
Encontro Nacional sobre questões de Partido
Promovemos
este Encontro Nacional sobre questões de Partido para
aprovar, coletivamente, e encaminhar a luta pela
consolidação de uma linha política de estruturação para o
partido nesta nova etapa estratégica de sua acumulação de
forças. Esse é o objetivo político essencial do
documento apresentado e é a conseqüência da linha aprovada
na 9a. Conferência, da qual emana nosso Encontro.
Além disso, vamos aprovar nosso 5o PEP e realizar
um Ativo Nacional de Organização, destinado a traçar um
programa de trabalho imediato para 2004, em correlação com
um programa mais avançado de atualização de concepções e
práticas de Partido até o 11o Congresso.
Registre-se
o simbolismo de, em ano eleitoral, debater questões de
Partido, o que diz tudo acerca de nosso caráter e da
seriedade de nossas pretensões estratégicas.
O documento
apresentado tem por objetivo essencial explanar uma renovada
linha política de estruturação.
Com as
vitórias alcançadas desde 2002, uma constatação central foi
apresentada ao CC na reunião que convocou o Encontro: faz-se
necessário, à luz da 9a. Conferência, colocar
o esforço pela estruturação do PCdoB em novo patamar para
elevar seu protagonismo político. Estamos em alto mar, e
nossa embarcação, nosso maquinário, é frágil ainda.
Precisamos nos fortalecer em estrutura e, também, precisamos
elevar a luta contra as pressões tendentes a rebaixar o
papel estratégico do Partido. Não é, portanto, um
esforço trivial ou rotineiro – a não cumprir com as novas
exigências que se apresentam, podemos não ter pernas para
cumprir nosso papel estratégico, ou nos descaracterizarmos
como corrente demarcada de caráter classista, socialista.
A conclusão
imperativa a que se chegou nessa sessão do CC é que o atual
esforço de estruturação que vem sendo feito desde 1999 é
necessário mais que nunca, mas insuficiente. Sem isso, o
crescimento se dará como “areia solta”, como dizem os
chineses. Talvez nós brasileiros devêssemos dizer: como
dunas. É preciso compreender, em primeiro lugar,
que ainda não vencemos a batalha de idéias dentro do
Partido, por uma sólida concepção de estruturação. Não se
produziu ainda um discurso unívoco e consolidado, em torno
disso. Isso é problema do CC: intensificar e ganhar essa
batalha, superar o descompasso ideológico e organizativo
que, no fundo, é de concepção. Debater Partido é reafirmar o
sentido estratégico de sua luta e, portanto, seu caráter
determinado. Em segundo lugar, precisamos soldar mais
essa concepção de estruturação partidária de alto a baixo,
sobretudo nos escalões intermediários do Partido, lutar
contra o rebaixamento estratégico de seu papel, enfrentar as
pressões que sofremos, como condição para sermos de fato um
Partido grande. Em terceiro lugar, simultaneamente, é
preciso desenvolver essa concepção, desenvolver o pensamento
de Partido, para pô-lo em consonância com o nosso tempo,
nossa gente e com o projeto político do Partido. Como se
sabe, propusemos o eixo de um PC de massas.
Essa linha
se tornou necessária porque vivemos uma nova situação. Três
razões mais marcantes a exigem:
Primeiro,
a do crescimento havido e suas características: decorrem da
política do Partido, mas tem caráter extensivo e espontâneo
ainda. Caracteriza-se pela extensão e interiorização, com
forte base social popular, não propriamente centrada nas
capitais e grandes cidades, nem nos trabalhadores ou na
intelectualidade avançada. Ademais, os impulsos de
crescimento seguirão atuando – a onda que proveio da vitória
de 2002 e de como nos situamos com a 9a
Conferência, nos produziu uma extensão de 71% nas fileiras.
Agora, com a nova esfera de compromissos e responsabilidades
assumidas com um nevrálgico Ministério político, outra
expansão se dará em nossa relação com a sociedade
brasileira. Por fim, a esperada vitória eleitoral em outubro
2004 poderá confirmar esse ciclo de expansão, e nos
conduzir, conforme esperamos, a 100 mil militantes até o
11o Congresso.
Segundo,
pelas defasagens que se expandem e transmutam. Hoje, os nós
centrais dessas defasagens específicas da estruturação podem
ser apresentadas em 4 pontos: Um) superar a subestimação do
papel central do proletariado para o projeto político
partidário, conforme concluído no Encontro Sindical
Nacional realizada em 2001, o que implica a necessidade
de maior direcionamento da construção partidária entre os
trabalhadores, sobretudo das grandes empresas do país,
superando a tendência espontânea de crescimento; dois)
superar a falta de sólidas e estáveis organizações de bases
partidárias, conforme o documento Nenhum Comunista sem
Organização de Base, de 1999, e, conseqüentemente,
ultrapassar a dificuldade crônica em incorporar os novos
contingentes efetivamente à vida partidária; três) superar o
gargalo da sustentação econômica e material da atividade
partidária, conforme concluído expressamente desde o 9o
Congresso, que reclama pôr em bases políticas seu
enfrentamento; quatro) assegurar o caráter partidário e sua
vida interna sadia, combatendo manifestamente os fenômenos
negativos expressos em espontaneísmo na sua construção,
divisões ou disputas internas, comitês pouco atuantes,
burocratismo pragmático e carreirismo.
Terceiro,
porque independentemente dessas exigências, se faz
necessário atualizar concepção e prática de partido,
respondendo às exigências originais de nossa experiência
brasileira, e tirar todas as conseqüências da atualização e
crítica à modelagem soviética. Esse esforço o perseguimos
desde o 8o Congresso e se fará agora em meio a
uma situação mais favorável, de expansão e retomada do
movimento. Malgrado manter-se, no plano estratégico, uma
situação de defensiva para a luta e militância
revolucionária, a hora de renovar chegou!.
O documento
apresentado sistematiza o que foi elaborado nos últimos 5
anos, particularmente na 9a. Conferência por sua
atualidade, e tratamos de levar isso à militância. Nele se
propõe um enfoque voltado ao militante partidário. Visamos
dar à concepção de estruturação partidária o caráter de
princípios internos permanentes da construção partidária,
fazer campanhas em torno deles, como modo de afirmar o papel
estratégico do Partido e, assim, formar a militância.
Quanto ao
caráter do trabalho de estruturação, tratamos o tema sem
fundamentalismos, assim como tratamos a política sem
doutrinarismos. Aliás, a luta por essa linha política de
estruturação equipara-se à luta travada entre nós contra as
concepções estreitas, sectárias ou doutrinárias em política:
todos sabem o quanto ela foi prolongada e permanente, e o
quanto foi responsável pelos êxitos do PCdoB, principalmente
desde 1978. Novo patamar de estruturação é necessário para
não diluir nem subestimar a luta estratégica. Ou seja,
tratamos o tema estruturação de forma não idealizada, e
tratamos o tema Partido não apenas como tema ideológico,
mas, sobretudo político e prático: um partido mais forte e
estruturado para cumprir o projeto político do Partido, nas
condições reais e concretas daqui e agora, para construir a
hegemonia das idéias e da política do Partido no movimento
em curso. Com a política no comando sim, mas um processo que
não se basta com a pauta política cotidiana – exige pôr em
plano igualmente elevado na pauta partidária o tema
estruturação que abarca a esfera política, ideológica e
organizativa. É isso que precisa do envolvimento direto do
CC e de todas as instâncias dirigentes do PcdoB e, em
particular, precisa impregnar a atuação de todos os quadros
partidários.
A linha
proposta provém da 9a Conferência. O que nela se
apresentou de essencial neste tema foi: Um, a de pôr como
objeto da acumulação de forças a construção da hegemonia
política e ideológica do Partido, recuperando essa rica
categoria leninista em nossas formulações. A hegemonia é a
essência da estratégia. Isso surge como antídoto ao
pragmatismo e imediatismo na construção partidária. Dois,
disso decorrente, é a de definir com maior acuidade o
projeto político próprio do Partido, referência para a
acumulação de forças, visibilidade e independência. Três, a
do aprofundamento dos laços com os movimentos sociais,
repondo a compreensão da relação espontaneidade-consciência
no movimento transformador, em diálogo crítico com o
espontaneísmo e confronto com a estratégia política dos
movimentos. É antídoto ao burocratismo e modo de equilibrar
a tendência crescente de institucionalização da luta
política no país. Quatro, a de assimilar uma concepção
organizativa de um PC de massas, essencial para o
partido incorporar em suas fileiras novos e extensos
contingentes militantes, sem abdicar do leninismo e do
centralismo democrático.
Com base em
nossa experiência real, se problematizaram na Resolução da 9a
Conferência uma série de questões sobre perfil e caráter de
militância, perfil e caráter das organizações partidárias,
vida dos comitês e aspectos cruciais de política para
quadros. Tudo isso para repor a centralidade da questão
Partido, um dos fatores estratégicos definidores da
atual luta de classes. Tudo resumido, perseguimos
estrategicamente a construção da hegemonia, e o PC de
massas, forte e influente, é o instrumento essencial dessa
construção; por isso uma justa política e o mergulho no
movimento social.
O documento
apresenta seis grandes tópicos, o último dos quais
estabelece um decálogo sobre a estruturação do Partido.
Devemos hoje responder se essa linha vai ao encontro das
necessidades e do grau de maturação do Partido, se ela
auxilia a consolidar uma visão e apontar para uma luta
prolongada que alcance a média do Partido.
No debate
do tema surgem questões relevantes.
Há muito
interesse pelo tema, mas certa subestimação, tradicional
entre nós. O pensamento de Partido ficou confinado, sempre
se reduzindo aos problemas imediatos e concretos –
esterilizando o debate meramente na esfera organizativa – ou
cai numa abstração muito generalizante, isenta de interesse
imediato. Isto não mais se justifica: pensamento de Partido
precisa evoluir com base no nosso pensamento político,
tornar-se tão dialético quanto, ser objeto de estudo
teórico, histórico e prático. Nada justifica que seja
tratado como tema técnico ou burocrático, a não ser uma
visão deformada e dogmática de que tal pensamento esteja
dado de uma vez pra sempre, de modo a-histórico e a-político
e, portanto, se reduza meramente à esfera da organização.
Outra
questão a motivar justos debates foi a do foco e extensão do
documento. Quanto á extensão, nada indica que uma linha
política de estruturação do partido fosse simples, capaz de
ser resumida em poucas fórmulas. Ela é complexa, talvez a
mais complexa das questões com que nos deparamos, porque o
tema Partido e sua estruturação invoca a estratégia – a
força do Partido é definidora das condições de êxito da
estratégia socialista. E também porque a atuação do Partido
na atualidade já se fez multifacética e complexa, reclama
soluções elevadas. Assumimos, então, de fato, um enfoque
multilateral na abordagem do tema, sem perder de vista a
noção de totalidade, síntese de múltiplas
determinações que concorrem para fazer desenvolver a
concepção e prática de Partido.
Não
obstante, consideramos pertinente o debate quanto ao foco,
no sentido de síntese: dado o escopo do documento, o foco é
seu título, que por isso mesmo assumiu o caráter proposto.
Entretanto, justifica-se por outro prisma a questão do foco.
Qual ou quais são as condições definidoras do êxito da linha
proposta? Qual ou quais são os resultados que definem seu
êxito? Como hierarquizar e concretizar a luta pela sua
realização imediata? Repare-se que se invoca aí distintos
níveis de determinação. Pode-se indicar ao debate que,
quanto aos resultados, o êxito será representado por superar
as defasagens mais agudas já citadas: bases, trabalhadores,
finanças, caráter da vida interna. Quanto ao modo de abordar
a luta imediata pela sua realização, o 5o PEP
realiza um esforço muito demarcado de condições de tempo,
lugar e projetos. É nele que se materializa a concretude, a
abordagem concreta dessa linha nas condições concretas dos
próximos dois anos. Finalmente, quanto às condições
definidoras do êxito da linha, pode-se sugerir para
polemizar que os elos centrais que definem seu êxito, são 3
variáveis decisivas: maior
direcionamento aos trabalhadores, fazer funcionar o partido
pelas bases, e formar uma nova geração de quadros.
Ainda
quanto ao debate do documento pelo país afora, surge a
necessidade de uma maior fundamentação da noção de PC de
massas, voltado para a construção da hegemonia avançada.
Isso já vem sendo alvo do esforço da escola do partido.
Precisamos recuperar as ricas formulações leninistas e
gramscianas, apropriadas de modo histórico-crítico, e
desenvolver nossa experiência original, respondendo aos
temas e tempos presentes, dentro das características
econômicas, sociais, políticas, culturais do Brasil e dos
brasileiros. Falamos de um PC de massas, não de um Partido
de massas, porque seguimos acentuando a ênfase no elemento
consciente, de vanguarda. Sabendo que tal opção envolve
custos e riscos que não devemos menosprezar, e que devemos
contrabalançar conscientemente em nosso labor partidário.
Criticou-se
por vezes no debate o fato de que o documento não explicita
o projeto político a cuja consecução se volta. Não nos
parece pertinente a crítica. O projeto do Partido, nas
condições dadas da luta atual e da sua maturação, foi
formulado na 9a. Conferência e tem por base o
Programa do Partido. Um pensamento tático rico está dado,
como forma de abordagem de seu projeto estratégico, que por
sua vez está em desenvolvimento. É nesses termos que o
Partido vem crescendo e precisa se estruturar em novo e mais
elevado patamar. A linha proposta de estruturação deixa
claro o caráter da política do partido, que é de antagonismo
sistêmico, voltado para a construção de um novo poder
político, mas sempre nos marcos concretos da situação
concreta, da correlação de forças real. Isto é já bem
conhecido e precisa ser levado à nova geração militante.
Quanto ao documento ele assume a centralidade, a partir do
título, de uma linha verdadeiramente de ação política de
massas, em correlação com a luta política institucional,
como fator do maior protagonismo do PCdoB, que é o essencial
que se quer alcançar com a maior estruturação partidária.
Com os
debates nos parece que se confirma a exigência de dois
desenvolvimentos ulteriores para impulsionar e enriquecer
essa linha.
Um é quanto
ao trabalho ideológico. A questão tem duas dimensões
interligadas. Uma, a de como enfrentar a luta de idéias, ou
seja, como criar e articular uma corrente de pensamento
socialista, patriótica e internacionalista, em nosso país.
Isto é decisivo para tudo! Outra é como enriquecer o
repertório de formas, meios e conteúdos de formação de nossa
militância, que cresce aos milhares, no caráter classista e
transformador que é marca distintiva de nosso Partido, um
partido diferente não só quanto ao caráter de seu projeto
político, mas também quanto à sua vida interna, sua
militância, seus valores. Adalberto vai tratar do tema em
especial.
O outro
aspecto a desenvolver é no terreno da organização – será
preciso um salto para corresponder à política de
estruturação definida. Precisaremos descompartimentalizar
política e organização no trabalho de direção, superar a
limitação de nossas práticas organizativas. A essência é
atualizar concepção e prática de Partido, desenvolvendo
nosso pensamento nesse terreno, e desdobrando-as em
políticas de organização mais adaptadas à realidade e à
nossa experiência. Nosso pensamento de Partido, já o disse,
ficou condicionado na nossa trajetória (clandestinidade,
molde, cisões, cartorialismo, movimentismo). Hoje,
precisamos responder à crise orgânica que afeta a
perspectiva de ser militante de partidos políticos de
esquerda em geral, revolucionários em particular, superando
a modelagem organizativa que vem da 3a
Internacional. Dizem respeito ao papel de militância, das
bases, dos quadros, da institucionalidade, e até do
planejamento. Para isso, estamos tratando de um programa de
trabalho no Ativo.
Ambas as
questões indicam nossa compreensão de que mesmo o PC de
massas, para a hegemonia, envolve como fator aglutinador a
ideologia, e ela só se forma por um prolongado processo, que
não comporta, na situação atual da luta de classes do Brasil
e do mundo, queimar etapas. Vamos nos lançar afinal a esse
processo, ou vamos procrastiná-lo? Vamos formar uma geração
de quadros e militantes de fato comunistas, estruturados em
bases verdadeiramente enraizadas, principalmente junto aos
trabalhadores, ou vamos improvisar nos próximos anos? O
documento e este Encontro dirão nossa resposta a essas
questões, nos marcos de um Partido de 100 mil membros.
Finalizamos
o informe dizendo que na luta pela aplicação dessa linha
proposta serão fundamentais duas questões. Uma é que se
trata de uma luta de concepções, de idéias: precisamos
ganhar o Partido para elas. Nisso o papel do CC é decisivo.
A outra, é despregar uma ampla capacidade realizadora,
sobretudo das direções, como modo de induzir e acelerar a
implementação da linha aprovada. Nisso, desenvolver a
aplicação do 5o PEP é o central.
Estamos em
arranque, no momento mais privilegiado dos 82 anos de nossa
existência, quanto às possibilidades de crescimento e
maturação. Vamos aproveitá-lo intensivamente.
Saudações
comunistas.
* Walter sorrentino é médico e
Secretário Nacional de Organização do Comitê Central |