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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

9 de MARÇO de 2004

1º Encontro sobre Questões de Partido
Informe de Walter Sorrentino ao 1º Encontro Nacional sobre questões de Partido

Promovemos este Encontro Nacional sobre questões de Partido para aprovar, coletivamente, e encaminhar a luta pela consolidação de uma linha política de estruturação para o partido nesta nova etapa estratégica de sua acumulação de forças. Esse é o objetivo político essencial do documento apresentado e é a conseqüência da linha aprovada na 9a. Conferência, da qual emana nosso Encontro. Além disso, vamos aprovar nosso 5o PEP e realizar um Ativo Nacional de Organização, destinado a traçar um programa de trabalho imediato para 2004, em correlação com um programa mais avançado de atualização de concepções e práticas de Partido até o 11o Congresso.

Registre-se o simbolismo de, em ano eleitoral, debater questões de Partido, o que diz tudo acerca de nosso caráter e da seriedade de nossas pretensões estratégicas.

O documento apresentado tem por objetivo essencial explanar uma renovada linha política de estruturação.

Com as vitórias alcançadas desde 2002, uma constatação central foi apresentada ao CC na reunião que convocou o Encontro: faz-se necessário, à luz da 9a. Conferência, colocar o esforço pela estruturação do PCdoB em novo patamar para elevar seu protagonismo político. Estamos em alto mar, e nossa embarcação, nosso maquinário, é frágil ainda. Precisamos nos fortalecer em estrutura e, também, precisamos elevar a luta contra as pressões tendentes a rebaixar o papel estratégico do Partido. Não é, portanto, um esforço trivial ou rotineiro – a não cumprir com as novas exigências que se apresentam, podemos não ter pernas para cumprir nosso papel estratégico, ou nos descaracterizarmos como corrente demarcada de caráter classista, socialista.

A conclusão imperativa a que se chegou nessa sessão do CC é que o atual esforço de estruturação que vem sendo feito desde 1999 é necessário mais que nunca, mas insuficiente. Sem isso, o crescimento se dará como “areia solta”, como dizem os chineses. Talvez nós brasileiros devêssemos dizer: como dunas. É preciso compreender, em primeiro lugar, que ainda não vencemos a batalha de idéias dentro do Partido, por uma sólida concepção de estruturação. Não se produziu ainda um discurso unívoco e consolidado, em torno disso. Isso é problema do CC: intensificar e ganhar essa batalha, superar o descompasso ideológico e organizativo que, no fundo, é de concepção. Debater Partido é reafirmar o sentido estratégico de sua luta e, portanto, seu caráter determinado. Em segundo lugar, precisamos soldar mais essa concepção de estruturação partidária de alto a baixo, sobretudo nos escalões intermediários do Partido, lutar contra o rebaixamento estratégico de seu papel, enfrentar as pressões que sofremos, como condição para sermos de fato um Partido grande. Em terceiro lugar, simultaneamente, é preciso desenvolver essa concepção, desenvolver o pensamento de Partido, para pô-lo em consonância com o nosso tempo, nossa gente e com o projeto político do Partido. Como se sabe, propusemos o eixo de um PC de massas.

Essa linha se tornou necessária porque vivemos uma nova situação. Três razões mais marcantes a exigem:

Primeiro, a do crescimento havido e suas características: decorrem da política do Partido, mas tem caráter extensivo e espontâneo ainda. Caracteriza-se pela extensão e interiorização, com forte base social popular, não propriamente centrada nas capitais e grandes cidades, nem nos trabalhadores ou na intelectualidade avançada. Ademais, os impulsos de crescimento seguirão atuando – a onda que proveio da vitória de 2002 e de como nos situamos com a 9a Conferência, nos produziu uma extensão de 71% nas fileiras. Agora, com a nova esfera de compromissos e responsabilidades assumidas com um nevrálgico Ministério político, outra expansão se dará em nossa relação com a sociedade brasileira. Por fim, a esperada vitória eleitoral em outubro 2004 poderá confirmar esse ciclo de expansão, e nos conduzir, conforme esperamos, a 100 mil militantes até o 11o Congresso. 

Segundo, pelas defasagens que se expandem e transmutam. Hoje, os nós centrais dessas defasagens específicas da estruturação podem ser apresentadas em 4 pontos: Um) superar a subestimação do papel central do proletariado para o projeto político partidário, conforme concluído no Encontro Sindical Nacional realizada em 2001, o que implica a necessidade de maior direcionamento da construção partidária entre os trabalhadores, sobretudo das grandes empresas do país, superando a tendência espontânea de crescimento; dois) superar a falta de sólidas e estáveis organizações de bases partidárias, conforme o documento Nenhum Comunista sem Organização de Base, de 1999, e, conseqüentemente, ultrapassar a dificuldade crônica em incorporar os novos contingentes efetivamente à vida partidária; três) superar o gargalo da sustentação econômica e material da atividade partidária, conforme concluído expressamente desde o 9o Congresso, que reclama pôr em bases políticas seu enfrentamento; quatro) assegurar o caráter partidário e sua vida interna sadia, combatendo manifestamente os fenômenos negativos expressos em espontaneísmo na sua construção, divisões ou disputas internas, comitês pouco atuantes, burocratismo pragmático e carreirismo.  

Terceiro, porque independentemente dessas exigências, se faz necessário atualizar concepção e prática de partido, respondendo às exigências originais de nossa experiência brasileira, e tirar todas as conseqüências da atualização e crítica à modelagem soviética. Esse esforço o perseguimos desde o 8o Congresso e se fará agora em meio a uma situação mais favorável, de expansão e retomada do movimento. Malgrado manter-se, no plano estratégico, uma situação de defensiva para a luta e militância revolucionária, a hora de renovar chegou!

O documento apresentado sistematiza o que foi elaborado nos últimos 5 anos, particularmente na 9a. Conferência por sua atualidade, e tratamos de levar isso à militância. Nele se propõe um enfoque voltado ao militante partidário. Visamos dar à concepção de estruturação partidária o caráter de princípios internos permanentes da construção partidária, fazer campanhas em torno deles, como modo de afirmar o papel estratégico do Partido e, assim, formar a militância.

Quanto ao caráter do trabalho de estruturação, tratamos o tema sem fundamentalismos, assim como tratamos a política sem doutrinarismos. Aliás, a luta por essa linha política de estruturação equipara-se à luta travada entre nós contra as concepções estreitas, sectárias ou doutrinárias em política: todos sabem o quanto ela foi prolongada e permanente, e o quanto foi responsável pelos êxitos do PCdoB, principalmente desde 1978. Novo patamar de estruturação é necessário para não diluir nem subestimar a luta estratégica. Ou seja, tratamos o tema estruturação de forma não idealizada, e tratamos o tema Partido não apenas como tema ideológico, mas, sobretudo político e prático: um partido mais forte e estruturado para cumprir o projeto político do Partido, nas condições reais e concretas daqui e agora, para construir a hegemonia das idéias e da política do Partido no movimento em curso. Com a política no comando sim, mas um processo que não se basta com a pauta política cotidiana – exige pôr em plano igualmente elevado na pauta partidária o tema estruturação que abarca a esfera política, ideológica e organizativa. É isso que precisa do envolvimento direto do CC e de todas as instâncias dirigentes do PcdoB e, em particular, precisa impregnar a atuação de todos os quadros partidários.

A linha proposta provém da 9a Conferência. O que nela se apresentou de essencial neste tema foi: Um, a de pôr como objeto da acumulação de forças a construção da hegemonia política e ideológica do Partido, recuperando essa rica categoria leninista em nossas formulações. A hegemonia é a essência da estratégia. Isso surge como antídoto ao pragmatismo e imediatismo na construção partidária. Dois, disso decorrente, é a de definir com maior acuidade o projeto político próprio do Partido, referência para a acumulação de forças, visibilidade e independência. Três, a do aprofundamento dos laços com os movimentos sociais, repondo a compreensão da relação espontaneidade-consciência no movimento transformador, em diálogo crítico com o espontaneísmo e confronto com a estratégia política dos movimentos. É antídoto ao burocratismo e modo de equilibrar a tendência crescente de institucionalização da luta política no país. Quatro, a de assimilar uma concepção organizativa de um PC de massas, essencial para o partido incorporar em suas fileiras novos e extensos contingentes militantes, sem abdicar do leninismo e do centralismo democrático.

Com base em nossa experiência real, se problematizaram na Resolução da 9a Conferência uma série de questões sobre perfil e caráter de militância, perfil e caráter das organizações partidárias, vida dos comitês e aspectos cruciais de política para quadros. Tudo isso para repor a centralidade da questão Partido, um dos fatores estratégicos definidores da atual luta de classes. Tudo resumido, perseguimos estrategicamente a construção da hegemonia, e o PC de massas, forte e influente, é o instrumento essencial dessa construção; por isso uma justa política e o mergulho no movimento social.

O documento apresenta seis grandes tópicos, o último dos quais estabelece um decálogo sobre a estruturação do Partido. Devemos hoje responder se essa linha vai ao encontro das necessidades e do grau de maturação do Partido, se ela auxilia a consolidar uma visão e apontar para uma luta prolongada que alcance a média do Partido.

No debate do tema surgem questões relevantes.

Há muito interesse pelo tema, mas certa subestimação, tradicional entre nós. O pensamento de Partido ficou confinado, sempre se reduzindo aos problemas imediatos e concretos – esterilizando o debate meramente na esfera organizativa – ou cai numa abstração muito generalizante, isenta de interesse imediato. Isto não mais se justifica: pensamento de Partido precisa evoluir com base no nosso pensamento político, tornar-se tão dialético quanto, ser objeto de estudo teórico, histórico e prático. Nada justifica que seja tratado como tema técnico ou burocrático, a não ser uma visão deformada e dogmática de que tal pensamento esteja dado de uma vez pra sempre, de modo a-histórico e a-político e, portanto, se reduza meramente à esfera da organização.

Outra questão a motivar justos debates foi a do foco e extensão do documento. Quanto á extensão, nada indica que uma linha política de estruturação do partido fosse simples, capaz de ser resumida em poucas fórmulas. Ela é complexa, talvez a mais complexa das questões com que nos deparamos, porque o tema Partido e sua estruturação invoca a estratégia – a força do Partido é definidora das condições de êxito da estratégia socialista. E também porque a atuação do Partido na atualidade já se fez multifacética e complexa, reclama soluções elevadas. Assumimos, então, de fato, um enfoque multilateral na abordagem do tema, sem perder de vista a noção de totalidade, síntese de múltiplas determinações que concorrem para fazer desenvolver a concepção e prática de Partido.

Não obstante, consideramos pertinente o debate quanto ao foco, no sentido de síntese: dado o escopo do documento, o foco é seu título, que por isso mesmo assumiu o caráter proposto. Entretanto, justifica-se por outro prisma a questão do foco. Qual ou quais são as condições definidoras do êxito da linha proposta? Qual ou quais são os resultados que definem seu êxito? Como hierarquizar e concretizar a luta pela sua realização imediata? Repare-se que se invoca aí distintos níveis de determinação. Pode-se indicar ao debate que, quanto aos resultados, o êxito será representado por superar as defasagens mais agudas já citadas: bases, trabalhadores, finanças, caráter da vida interna. Quanto ao modo de abordar a luta imediata pela sua realização, o 5o PEP realiza um esforço muito demarcado de condições de tempo, lugar e projetos. É nele que se materializa a concretude, a abordagem concreta dessa linha nas condições concretas dos próximos dois anos. Finalmente, quanto às condições definidoras do êxito da linha, pode-se sugerir para polemizar que os elos centrais que definem seu êxito, são 3 variáveis decisivas: maior direcionamento aos trabalhadores, fazer funcionar o partido pelas bases, e formar uma nova geração de quadros.

Ainda quanto ao debate do documento pelo país afora, surge a necessidade de uma maior fundamentação da noção de PC de massas, voltado para a construção da hegemonia avançada. Isso já vem sendo alvo do esforço da escola do partido. Precisamos recuperar as ricas formulações leninistas e gramscianas, apropriadas de modo histórico-crítico, e desenvolver nossa experiência original, respondendo aos temas e tempos presentes, dentro das características econômicas, sociais, políticas, culturais do Brasil e dos brasileiros. Falamos de um PC de massas, não de um Partido de massas, porque seguimos acentuando a ênfase no elemento consciente, de vanguarda. Sabendo que tal opção envolve custos e riscos que não devemos menosprezar, e que devemos contrabalançar conscientemente em nosso labor partidário.

Criticou-se por vezes no debate o fato de que o documento não explicita o projeto político a cuja consecução se volta. Não nos parece pertinente a crítica. O projeto do Partido, nas condições dadas da luta atual e da sua maturação, foi formulado na 9a. Conferência e tem por base o Programa do Partido. Um pensamento tático rico está dado, como forma de abordagem de seu projeto estratégico, que por sua vez está em desenvolvimento. É nesses termos que o Partido vem crescendo e precisa se estruturar em novo e mais elevado patamar. A linha proposta de estruturação deixa claro o caráter da política do partido, que é de antagonismo sistêmico, voltado para a construção de um novo poder político, mas sempre nos marcos concretos da situação concreta, da correlação de forças real. Isto é já bem conhecido e precisa ser levado à nova geração militante. Quanto ao documento ele assume a centralidade, a partir do título, de uma linha verdadeiramente de ação política de massas, em correlação com a luta política institucional, como fator do maior protagonismo do PCdoB, que é o essencial que se quer alcançar com a maior estruturação partidária.

Com os debates nos parece que se confirma a exigência de dois desenvolvimentos ulteriores para impulsionar e enriquecer essa linha.

Um é quanto ao trabalho ideológico. A questão tem duas dimensões interligadas. Uma, a de como enfrentar a luta de idéias, ou seja, como criar e articular uma corrente de pensamento socialista, patriótica e internacionalista, em nosso país. Isto é decisivo para tudo! Outra é como enriquecer o repertório de formas, meios e conteúdos de formação de nossa militância, que cresce aos milhares, no caráter classista e transformador que é marca distintiva de nosso Partido, um partido diferente não só quanto ao caráter de seu projeto político, mas também quanto à sua vida interna, sua militância, seus valores. Adalberto vai tratar do tema em especial.

O outro aspecto a desenvolver é no terreno da organização – será preciso um salto para corresponder à política de estruturação definida. Precisaremos descompartimentalizar política e organização no trabalho de direção, superar a limitação de nossas práticas organizativas. A essência é atualizar concepção e prática de Partido, desenvolvendo nosso pensamento nesse terreno, e desdobrando-as em políticas de organização mais adaptadas à realidade e à nossa experiência. Nosso pensamento de Partido, já o disse, ficou condicionado na nossa trajetória (clandestinidade, molde, cisões, cartorialismo, movimentismo). Hoje, precisamos responder à crise orgânica que afeta a perspectiva de ser militante de partidos políticos de esquerda em geral, revolucionários em particular, superando a modelagem organizativa que vem da 3a Internacional. Dizem respeito ao papel de militância, das bases, dos quadros, da institucionalidade, e até do planejamento. Para isso, estamos tratando de um programa de trabalho no Ativo.

Ambas as questões indicam nossa compreensão de que mesmo o PC de massas, para a hegemonia, envolve como fator aglutinador a ideologia, e ela só se forma por um prolongado processo, que não comporta, na situação atual da luta de classes do Brasil e do mundo, queimar etapas. Vamos nos lançar afinal a esse processo, ou vamos procrastiná-lo? Vamos formar uma geração de quadros e militantes de fato comunistas, estruturados em bases verdadeiramente enraizadas, principalmente junto aos trabalhadores, ou vamos improvisar nos próximos anos? O documento e este Encontro dirão nossa resposta a essas questões, nos marcos de um Partido de 100 mil membros.

Finalizamos o informe dizendo que na luta pela aplicação dessa linha proposta serão fundamentais duas questões. Uma é que se trata de uma luta de concepções, de idéias: precisamos ganhar o Partido para elas. Nisso o papel do CC é decisivo. A outra, é despregar uma ampla capacidade realizadora, sobretudo das direções, como modo de induzir e acelerar a implementação da linha aprovada. Nisso, desenvolver a aplicação do 5o PEP é o central.

Estamos em arranque, no momento mais privilegiado dos 82 anos de nossa existência, quanto às possibilidades de crescimento e maturação. Vamos aproveitá-lo intensivamente.

Saudações comunistas.

* Walter sorrentino é médico e Secretário Nacional de Organização do Comitê Central

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