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1º Encontro sobre Questões de Partido
Pérolas Vermelhas
Jô Moraes*
Uma feliz coincidência faz com que realizemos o 1º Encontro
Nacional sobre Questões de Partido às vésperas do Dia
Internacional da Mulher. Uma coincidência que tem
significado histórico. De todos os movimentos progressistas
que a humanidade fez na construção de seu futuro, foi o
movimento operário, sobretudo sua corrente marxista, o que
mais contribuição deu à luta pela emancipação da mulher.
Os marxistas, com sua análise histórica
dos processos de transformação social contribuíram
decisivamente para desnaturalizar a condição de subordinação
das mulheres. E criaram uma perspectiva nova ao demonstrarem
que as relações humanas, particularmente as relações entre
homens e mulheres, não são imutáveis e sim construções que
podem ser transformadas.
Esta contribuição foi marcada por
acontecimentos simbólicos. O de maior reconhecimento público
foi a proposta de Clara Zetkin aprovada no 2o. Congresso
Internacional de Mulheres Socialistas, realizado na
Dinamarca, em 1910. A militante alemã sugeriu que fosse
instituído o Dia Internacional da Mulher no dia 8 de março,
data provável da morte das 129 operárias queimadas vivas, em
Nova Iorque, em 1857.
É digno de registro, também, a condenação
enérgica que Marx fez à ala direita da Ia. Internacional
Socialista que queria limitar o trabalho feminino em
consideração à família. Limitar a atuação da mulher ao
espaço doméstico sempre foi e, continua sendo, até os dias
atuais, uma forma de reduzir a ação transformadora da metade
do gênero humano. A partir dessa compreensão Lênin, após a
revolução de 1917 define que, “fazer a mulher participar do
trabalho produtivo social, libertando-a da escravidão
doméstica, libertando-a do jugo bruto e humilhante, eterno e
exclusivo, da cozinha e do quarto dos filhos, eis a tarefa
principal”.
As experiências socialistas assinalaram
avanços concretos para as mulheres. As lacunas que se
fizeram presente, tanto no pensamento teórico marxista, como
na prática concreta dos países socialistas, em relação à
compreensão da dimensão particular da luta das mulheres são
parte da crise que temos que enfrentar e devem ser
compreendidas nos limites do conhecimento humano de cada
época.
O Partido Comunista do Brasil, desde o
início dos anos 80, quando do processo de redemocratização
que possibilitou ampliar a ação de massas, tem buscado
enfrentar, o desafio de compreender e responder a essas
demandas. Essa preocupação refletia a percepção de que, o
último quarto do século passado foi marcado pelo novo
sujeito histórico – a parcela feminina dos habitantes da
terra – que não podia ser desconhecido.
É vasta a produção das comunistas que se dedicaram a
contribuir, tanto em relação às lacunas teóricas, como em
relação às políticas concretas que incorporem as mulheres
brasileiras à luta por um novo projeto para o país. Nesse
encontro estão presentes companheiras que participaram
intensamente desse processo, como Ana Rocha, primeira
responsável nacional pelo trabalho de mulheres, Liège Rocha,
Gilse Cosenza e Kátia Souto, presidentes da União Brasileira
de Mulheres em diferentes momentos.
Merece registro a contribuição das
comunistas brasileiras na já conhecida polêmica que procura
opor o feminismo ao marxismo e na reafirmação da alternativa
socialista. As contribuições formuladas precisam ser mais
conhecidas do coletivo partidário para que tomem consciência
do seu real alcance.
Há quase 20 anos, a corrente feminista
emancipacionista procura se implantar em nosso país. As
primeiras entidades datam de 1983/1984 impulsionadas que
foram pelos ventos democratizantes do país, pelo
protagonismo que as mulheres assumiram e por dirigentes,
como João Amazonas que compreenderam a importância
estratégica de organizar as mulheres na luta pela sua
emancipação e a de todo o povo.
Essa construção alcançou importantes
êxitos, reconhecidos pelas diferentes correntes do feminismo
no país. Foi, no entanto, permeada de inúmeras dificuldades,
sobretudo a de tornar essas entidades referências para a
massa de mulheres, ávida de alternativas para superar seu
sofrimento cotidiano. A busca de bandeiras concretas que
mobilizem as mulheres, em especial as trabalhadoras, após
certo esgotamento da luta pela igualdade formal de direitos
ainda é um desafio a perseguir. Assim como, o retorno às
ruas como prática cotidiana para enfrentar a tendência de
institucionalização do feminismo. Reforçar organicamente a
corrente emancipacionista, incorporando-a à coordenação dos
movimentos sociais e outras articulações comuns é parte da
luta geral para construir a mudança no Brasil.
As maiores barreiras, no entanto, se
situam na dificuldade que o coletivo partidário tem de
compreender que a luta pela emancipação da mulher, pela sua
incorporação no processo político brasileiro tem um sentido
estratégico, como tal, é tarefa de todo o partido.
Enfrentam-se dificuldades tanto de natureza teórica, como no
cotidiano da vida militante. Presenciou-se, em tempos não
tão distantes, resistências até em assumir a expressão
feminismo. A exacerbação do debate, nas diferentes frentes
da ação de massas, quer sindicais, quer juvenis, em torno da
idéia de cotas que garante uma presença mínima de mulheres,
em que pesem possíveis equívocos na condução, demonstra a
incompreensão política sobre o problema e o atraso na
compreensão do significado da bandeira.
Essas resistências têm conseqüências na
construção do trabalho partidário junto às massas. Dos 20
Estados que responderam ao balanço do IV PEP, apenas 13
contavam com organização da corrente emancipacionista.
No momento em que se discute a elevação da estruturação
partidária para cumprir o seu protagonismo político e de
massas é bom passar em revista a incorporação das mulheres
nas fileiras do partido e a necessária absorção nas
instâncias de direção.
No Congresso de 1997, as mulheres foram
35,5% dos que participaram na base. Em 2001, essa
participação se ampliou para 37,9%. Enquanto isso, as
dirigentes estaduais que, em 1997 eram 22,8%, e, em 2003
passaram a ser 21,1%. No Comitê Central, apesar de avanços,
houve certa estagnação no último período. Em 1992 eram
17,3%, em 1997 cresceram para 19,6% e, em 2001, estagnaram
em 19,4%.
Nesse processo contraditório, muitos
êxitos precisam ser destacados. Três dos principais Estados
da federação têm mulheres à frente de sua direção: Rio de
Janeiro, Minas Gerais e Pará. As três principais capitais da
região sudeste também têm direção feminina: São Paulo, a
maior cidade da América Latina, a cidade do Rio de Janeiro e
a cidade de Belo Horizonte. A bancada feminina do PC do B,
na Câmara Federal é, proporcionalmente, a mais expressiva,
entre todos os partidos com representação parlamentar
chegando a 30% dos eleitos, em 2002. E a bancada estadual
acompanha essa performance alcançando o percentual de 38,4%,
uma demonstração do reconhecimento da sociedade no
protagonismo das mulheres.
Não se deve subestimar as dificuldades
objetivas que impactam o exercício da militância das
mulheres, dificuldades essas que precisam ter respostas
concretas das direções partidárias. Quanto mais se exacerbou
o modelo neoliberal, cuja herança perversa ainda é parte do
sofrimento do povo, mais se ampliaram essas dificuldades,
assumindo contornos dramáticos na parcela mais pobre da
população feminina. As mulheres têm uma sobrecarga de
trabalho que inviabiliza, muitas vezes, sua ação militante,
independente de sua vontade. Os cuidados com os filhos
menores, os afazeres domésticos, a responsabilidade com os
doentes da casa, a pouca preparação para o exercício da ação
pública são fatores que dificultam sua contribuição.
Junte-se a isso as características psicológicas que a
sociedade capitalista lhes legou: o sentimento de culpa
frente o não cumprimento de suas “funções específicas”, a
insegurança pessoal, a baixa auto-estima.
Ser militante, ser comunista num tempo em que a ruptura com
a sociedade da exploração parece tão distante é um grande
desafio. Ser militante, comunista e mulher que ainda tem de
enfrentar as algemas da opressão de gênero é tentar alcançar
o vôo das águias.
É por isso, que o Partido precisa
compreender que as mulheres vermelhas, as comunistas são as
pérolas da humanidade – resistentes e belas na construção de
sua rebeldia. Nesse dia, e, em todos os demais 364 devem ser
buscadas como o elo indispensável da corrente humana que
suplantará a barbárie e conduzirá a humanidade do “reino da
necessidade para o reino da liberdade”.
*Deputada estadual em MG pelo PCdoB e
membro do Comitê Central do Partido.
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