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Brasil, quinta-feira, 3 de julho de 2008

8 de março de 2004

Dia Internacional da Mulher
Feminismo: uma questão de educação popular

Maria Helena De Eugenio (*)

Acredito que o feminismo está atrelado às condições de acesso ao conhecimento, à modernidade e, portanto, à educação popular em termos regionais e globais. Sempre temos oportunidade de ver a defesa de uma profunda mudança da realidade vivida, especialmente por nós, mulheres. Uma mudança que ponha um fim na opressão, na exclusão, na dominação e na discriminação.

Desafortunadamente, há uma distância imensurável entre as nossas palavras e os atos a elas atrelados. E essa falta de proximidade não nos permite a verdadeira participação na luta, mas por outro lado exige nossa presença em todos os níveis da demanda pela mudança para uma vida melhor e mais humana. É necessário integrar alguns pontos essenciais dos fragmentos da luta social, como a questão de gênero e de classe, saúde, identidade, cultura popular, meio-ambiente, entre outras, para que todos nós, homens e mulheres pensemos um novo mundo a partir do ponto de vista da união, da compreensão, do comunismo.

É preciso vencer as barreiras das fronteiras políticas e ideológicas que se mostram intransponíveis, do preconceito, da intolerância e da falta de amor para que nos posicionemos como parte incluída, pulsante e vívida da humanidade, que se encontra dilacerada pela dominação cultural.

Nestes tempos de pós-globalização a opressão sofrida pelas mulheres se agravou tanto do ponto de vista econômico quanto pessoal. Há uma profunda inversão de valores e nos vemos transformadas em mercadorias para otimizar as vendas de cervejas, chinelos de borracha ou de um prazer instantâneo.

A desordem mundial trouxe consigo a feminização da pobreza, embora tenha promovido o acesso da mulher a alguns setores do trabalho, da vida estudantil e acadêmica antes exclusivamente masculinos. A partir da metade do Século 20, registra-se o acesso da mulher até à vida política e partidária, mas a situação feminina não ficou melhor por isso, já que é regida pela acumulação capitalista, agressiva e inflexível.

Com o empobrecimento produzido pelo capitalismo surge um novo fenômeno social, a resistência feminina. Com isso quero abranger as lutas travadas pelas mulheres em todos os cantos do globo, especialmente nos países pobres e em desenvolvimento. As mulheres lutam pela vida, saúde e integridade de seus filhos, tanto contra ditaduras quanto contra o poderoso tráfico de drogas, entre outros métodos criminosos estabelecidos. Refiro-me às lutas das mulheres nos bairros populares, nos refeitórios que servem "o sopão", nas ocupações de terra e moradias. Falo também daquelas mulheres que enfrentam o fechamento dos postos de ocupação dos trabalhadores - seus maridos e filhos.

Nos diversos encontros de mulheres dos quais participei, verifica-se a necessidade da educação popular como processo de afirmação da identidade feminina e da consciência coletiva e essa demanda não surgiu das discussões da questão de gênero, ou de cotas etc, mas da dor, da esperança, da comoção de ver seus filhos desprotegidos e desorientados, da instância maior que é a sobrevivência.

A mulher quer antes de tudo — como a leoa — defender a sua prole, alimentando-a, ajudando-a a crescer, saudável e livre. Disso advém o confronto com a dominação machista que gera a dificuldade de participação real da mulher em todos os âmbitos da vida humana. O machismo é aliado da exclusão, da exploração e da dominação.

Essa luta é integral e portanto tem uma dimensão cultural. A mulher mudou a sua forma de visão e entendimento do mundo, dos relacionamentos em todos os âmbitos. Ela quer exceder as possibilidades que o neoliberalismo lhe permite — em suma, uma jornada dupla com direito a salários menores dos que os dos homens que exercem as mesmas funções. Quer poder exercer valores que lhe são preciosos, mas negados, como o humanismo, a solidariedade, a cooperação, o sacrifício.

A educação popular nos ajuda a perceber quem somos e como nos colocamos no planeta, permite a nossa identificação, o nosso reconhecimento enquanto mulher, mãe, trabalhadora, amante. Aflora a nossa sensibilidade e o nosso esforço de uma forma revolucionária. Acredito que o feminismo consciente, liberta e engrandece a humanidade, criando um novo homem e uma nova mulher, daí sua perspectiva revolucionária.

Essa revolução virá sem dúvida das dores do parto, das noites de insônia, do calor do fogo na cozinha, da sensibilidade ainda contida das nossas mulheres, da coragem e da rebelião para enfrentar a vida e a morte. Virá das memórias das nossas avós e será, portanto, mais inteira e humana. Não será uma revolução feita apenas pelas mulheres, é óbvio, mas muito menos sem elas.

(*) Licenciada plena em letras anglo-portuguesas com especialização em tradução. Membro da União Brasileira de Mulheres (UBM), secretária da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB

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