Maria Helena De Eugenio (*)
Acredito que o feminismo
está atrelado às condições de acesso
ao conhecimento, à modernidade e,
portanto, à educação popular em termos
regionais e globais. Sempre temos
oportunidade de ver a defesa de uma
profunda mudança da realidade vivida,
especialmente por nós, mulheres. Uma
mudança que ponha um fim na opressão, na
exclusão, na dominação e na
discriminação.
Desafortunadamente, há
uma distância imensurável entre as
nossas palavras e os atos a elas
atrelados. E essa falta de proximidade
não nos permite a verdadeira
participação na luta, mas por outro lado
exige nossa presença em todos os níveis
da demanda pela mudança para uma vida
melhor e mais humana. É necessário
integrar alguns pontos essenciais dos
fragmentos da luta social, como a questão
de gênero e de classe, saúde,
identidade, cultura popular,
meio-ambiente, entre outras, para que
todos nós, homens e mulheres pensemos um
novo mundo a partir do ponto de vista da
união, da compreensão, do comunismo.
É preciso vencer as
barreiras das fronteiras políticas e
ideológicas que se mostram
intransponíveis, do preconceito, da
intolerância e da falta de amor para que
nos posicionemos como parte incluída,
pulsante e vívida da humanidade, que se
encontra dilacerada pela dominação
cultural.
Nestes tempos de
pós-globalização a opressão sofrida
pelas mulheres se agravou tanto do ponto
de vista econômico quanto pessoal. Há
uma profunda inversão de valores e nos
vemos transformadas em mercadorias para
otimizar as vendas de cervejas, chinelos
de borracha ou de um prazer instantâneo.
A desordem mundial
trouxe consigo a feminização da pobreza,
embora tenha promovido o acesso da mulher
a alguns setores do trabalho, da vida
estudantil e acadêmica antes
exclusivamente masculinos. A partir da
metade do Século 20, registra-se o acesso
da mulher até à vida política e
partidária, mas a situação feminina
não ficou melhor por isso, já que é
regida pela acumulação capitalista,
agressiva e inflexível.
Com o empobrecimento
produzido pelo capitalismo surge um novo
fenômeno social, a resistência feminina.
Com isso quero abranger as lutas travadas
pelas mulheres em todos os cantos do
globo, especialmente nos países pobres e
em desenvolvimento. As mulheres lutam pela
vida, saúde e integridade de seus filhos,
tanto contra ditaduras quanto contra o
poderoso tráfico de drogas, entre outros
métodos criminosos estabelecidos.
Refiro-me às lutas das mulheres nos
bairros populares, nos refeitórios que
servem "o sopão", nas
ocupações de terra e moradias. Falo
também daquelas mulheres que enfrentam o
fechamento dos postos de ocupação dos
trabalhadores - seus maridos e filhos.
Nos diversos encontros
de mulheres dos quais participei,
verifica-se a necessidade da educação
popular como processo de afirmação da
identidade feminina e da consciência
coletiva e essa demanda não surgiu das
discussões da questão de gênero, ou de
cotas etc, mas da dor, da esperança, da
comoção de ver seus filhos desprotegidos
e desorientados, da instância maior que
é a sobrevivência.
A mulher quer antes de
tudo — como a leoa — defender a sua prole,
alimentando-a, ajudando-a a crescer,
saudável e livre. Disso advém o
confronto com a dominação machista que
gera a dificuldade de participação real
da mulher em todos os âmbitos da vida
humana. O machismo é aliado da exclusão,
da exploração e da dominação.
Essa luta é integral e
portanto tem uma dimensão cultural. A
mulher mudou a sua forma de visão e
entendimento do mundo, dos relacionamentos
em todos os âmbitos. Ela quer exceder as
possibilidades que o neoliberalismo lhe
permite — em suma, uma jornada dupla com
direito a salários menores dos que os dos
homens que exercem as mesmas funções.
Quer poder exercer valores que lhe são
preciosos, mas negados, como o humanismo,
a solidariedade, a cooperação, o
sacrifício.
A educação popular nos
ajuda a perceber quem somos e como nos
colocamos no planeta, permite a nossa
identificação, o nosso reconhecimento
enquanto mulher, mãe, trabalhadora,
amante. Aflora a nossa sensibilidade e o
nosso esforço de uma forma
revolucionária. Acredito que o feminismo
consciente, liberta e engrandece a
humanidade, criando um novo homem e uma
nova mulher, daí sua perspectiva
revolucionária.
Essa revolução virá
sem dúvida das dores do parto, das noites
de insônia, do calor do fogo na cozinha,
da sensibilidade ainda contida das nossas
mulheres, da coragem e da rebelião para
enfrentar a vida e a morte. Virá das
memórias das nossas avós e será,
portanto, mais inteira e humana. Não
será uma revolução feita apenas pelas
mulheres, é óbvio, mas muito menos sem
elas.
(*)
Licenciada plena em letras
anglo-portuguesas com especialização em
tradução. Membro da União Brasileira de
Mulheres (UBM), secretária da Secretaria
de Relações Internacionais do PCdoB
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