Por
Bernardo Joffily,
de Brasília
O
PCdoB concluiu ontem em Brasília
a parte mais importante de seu Encontro
Nacional sobre Questões de Partido.
Perto de 300 quadros, vindos de todo o
país, aprovaram por unanimidade
o documento base — que propõe a
construção de um partido
comunista de massas adaptado às
condições do Brasil de hoje
— enriquecido por várias emendas
propostas no debate que ocorreu nos Estados
e naquele que teve lugar no auditório
Nereu ramos da Câmara dos Deputados.
Ao
fazer o balanço das mais de 80
intervenções sobre o tema
partido, o secretário de Organização
do Comitê Central, Walter Sorrentino,
avaliou que "pegamos um veio importante"
e "várias pepitas foram garimpadas",
deixando-o convencido de que a política
de construção de um partido
comunista de massas é "um
painel vasto", mas de que é
possível identificar nele algumas
"pilastras".
A
luta pela hegemonia
"Primeiro
— observa Sorrentino — queremos ser um
partido da hegemonia. Isto está
absolutamente na fundação
do edifício."
O conceito de hegemonia foi objeto de
várias das intervenções
do Encontro.Para Sorrentino, ele "deve
ser recuperado, em Lênin, em Gramsci.
O conceito de hegemonia não é
a justifica envergonhada do reformismo,
como querem alguns. Segundo Gramsci, é
a maior contribuição de
Lênin. Ele deixa claro o sentido
do esforço político que
o proletariado deve fazer. É isto
exatamente que, no nosso pensamento, faz
a ligação entre a direção
tática e a direção
estratégica. Convido-os a estudar,
a recuperar a empregar este conceito",
conclamou.
"Claro
que utilizamos este conceito dentro de
um ambiente determinado, que é
ainda de defensiva estratégica.
Nós não estamos às
vésperas da revolução",
ponderou o secretário de organização
do PCdoB.
"Um
partido leninista brasileiro"
A
segunda pilastra, segundo Sorrentino,
não foi tão ressaltada no
processo preparatório mas sobressaiu
na reunião em Brasília.
"É que precisamos de um partido
leninista brasileiro. Quanto mais matura
o nosso pensamento, mais deve maturar
a resposta sobre o tipo de partido de
que precisamos. O perfil do Partido condiciona
fortemente sua estruturação.
E tem que ser um perfil brasileiro. Vamos
ousar e assumir."
Sorrentino
citou a respeito um quadro do PCdoB/RS,
não presente no Encontro, José
Loguércio: "Sim, vamos ser
leninistas. Lênin forjou o bolchevismo,
enquanto pensamento marxista adaptado
à Rússia de um século
atrás. Vamos fazer como ele, e
forjar o perfil necessário ao nosso
país e ao nosso tempo."
Um
partido comunista de massas
O
terceiro pilar, para Sorrentino, deriva
dos outros dois: é preciso um partido
comunista de massas, grande. "Estou
de acordo, desde que não se faça
reducionismo. Desde que não se
esqueça de que, por baixo desta
formulação, existe um conjunto
de reflexões, e de riscos também.
E que esta consigna em si não define
nada, o que define é a política",
afirma.
Segundo
a apreciação de Sorrentino,
"estamos no limiar de uma opção
estratégica, de largo alcance.
Dizer que fazemos esta opção
estratégica não nos assegura
vitória nenhuma. Mas mostra ousadia.
Agora, ao fazer isto, estamos dando uma
resposta também aos riscos que
vivemos (como a pressão no sentido
do rebaixamento do Partido, bastante debatida
ao longo do Encontro). Sim, estamos tentando
evitá-los; esta resposta é
justamente uma tentativa de evitá-los",
concluiu.
Sorrentino
referiu-se também a quatro questões
pontuais derivadas dos debates do Encontro:
"Primeira:
partido grande. Nós não
estamos falando ainda de um partido verdadeiramente
grande. Devíamos estudar sobre
isto as experiências da África
do Sul, da Índia, assim como a
da Indonésia nos anos 60."
"Segunda:
do ponto de vista político, vamos
ter que prestar mais atenção
a esta relação entre
movimentos
sociais e política institucional.
Não há antagonismo. A nossa
política precisa fazer a síntese,
a superação dialética
entre estas duas coisas. Contradição
há, mas não é antagônica.
Se não, daqui a pouco vamos ter
que pedir desculpas por participar de
eleições."
"Terceira:
acho que do ponto de vista da estruturação
organizativa, todos convergiram para três
questões: organizações
de base, raízes entre os trabalhadores
e a questão dos quadros."
"Quarta:
desenvolvimentos são necessários
para impulsionar esta linha. Mais especificamente
quanto à luta de idéias.
Acho que saímos daqui com o mandato de
desenvolver estas questões."
A
pauta de ontem incluiu também uma
homenagem à luta pela emancipação
feminina, referenciada no Dia Internacional
da Mulher, que transcorre amanhã.
Jô Moraes, vice-presidente do PCdoB,
encarregada de expor o tema, advertiu
com severidade para o reduzido número
de companheiras no Comitê Central
e nas direções intermediárias,
em contraste com a presença feminina
crescente e significativa (35%) nas bases
do PCdoB.
O
Encontro Nacional se encerra hoje, com
a aprovação dos objetivos,
metas e projetos do 5º Plano de Estruturação
Partidária (PEP). Com duração
bienal, o 5º PEP vai até o 11º
Congresso do PCdoB, previsto para 2005.
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