
Por
Bernardo Joffily,
de Brasília
O
PCdoB inicia hoje (5/3), em Brasília, o
seu 1º Encontro Nacional sobre Questões
de Partido. Durante três dias, perto
de 300 quadros comunistas se debruçarão
sobre os palpitantes problemas de como
construir um partido comunista de massas
nas condições do Brasil
de 2004.
É
uma reunião de reflexão
e trabalho. Estão inscritos 176
delegados eleitos por todas as 27 direções
estaduais, mais os 65 membros do Comitê
Central, membros das comissões
auxiliares nacionais e convidados. Os
participantes trazem de seus locais de
atuação os frutos do debate
do Documento Base que preparou o Encontro.
O outro critério de participação
é estarem em dia com a contribuição
financeira ao PCdoB.
O
processo de preparação do
Encontro gerou certa expectativa no coletivo
partidário — derivada
basicamente da nova realidade que o Brasil
e o Partido atravessam no governo Luiz
Inácio Lula da Silva. É
uma realidade inédita para o PCdoB.
Pela primeira vez em 82 anos de existência,
ele participa do governo da União,
travando, dentro e fora dele, a luta pela
superação do atual modelo
neoliberal e a construção
de um novo modelo, nacional-desenvolvimentista
e com valorização do trabalho.
Os
urgentes problemas do crescimento
Estas
novas circunstâncias redundaram
num rápido crescimento partidário:
durante o ano passado, o número
de militantes comunistas passou de 34
mil para mais de 60 mil em todo o país.
Ao mesmo tempo, exige respostas prementes
para as questões que dela derivam.
Walter Sorrentino, secretário
nacional de Organização,
elenca três questões de construção
partidária que batem hoje às
portas do PCdoB.
É
preciso responder aos problemas do crescimento.
O Partido coloca-se o desafio de ampliar
ousadamente suas fileiras sem abdicar
dos traços distintivos da organização
comunista, que valoriza as organizações
de base, a atividade permanente, a disciplina
e a unidade de ação.
É
preciso responder a uma certa "pressão
rebaixadora", que este crescimento
acarreta natural e inevitavelmente, devido
ao afluxo de novos militantes, sem experiência
anterior de militância comunista
e em muitos casos com outras vivências,
em outras legendas partidárias.
É
preciso, em decorrência disto, estudar,
debater, atualizar a questão partidária,
enquanto domínio específico
do pensamento marxista e da experiência
do movimento comunista.
Em
debate, o pensamento de partido
Na
avaliação de Sorrentino,
este domínio nem sempre tem tido
a atenção que merece. Via
de regra, as questões de partido
ou são tratadas na esfera prática
ou, na extremidade oposta, no nível
ideológico e dos princípios.
"O pensamento de partido é
subdesenvolvido", resume, apontando
a necessidade de todo um trabalho de elaboração
teórica e política que faça
a mediação entre as suas
pontas.
O
documento saído da 9ª Conferência
do PCdoB iniciou um esforço neste
sentido, mas em um momento — junho passado
— em que a nova realidade ainda começava
a se esboçar. Agora ela está
mais configurada, e o Brasil do governo
Lula expõe suas potencialidades
de construção de um forte
partido comunista de massas. Mas a condição
para que a construção se
efetive com solidez é ampará-la
em uma linha política renovada
de estruturação partidária.
É
desta temática, vasta, complexa
e relativamente pouco percorrida, que
se ocupa o 1º Encontro Nacional de Questões
de Partido.
Partido
de massas, para disputar hegemonia
O
conceito de partido comunista de massas
já foi razoavelmente debatido no
PCdoB. Ele não conflita com o de
partido de vanguarda, característica
que é a razão de ser do
partido comunista, e sim com o de partido
de quadros, com efetivos reduzidos, justificável
nas condições da resistência
clandestina à ditadura, mas não
nas da democratização e
da legalidade, nem muito menos nas do
governo Lula.
Mais
recente é o referenciamento na
categoria leninista da construção
da hegemonia política e ideológica.
Apontada na 9ª Conferência, ela
ajuda a entender porque a construção
de partido, a estruturação
partidária, é talvez o mais
poderoso antídoto de que dispõe
o PCdoB para fenômenos como o taticismo
e a acumulação de forças
como um fim em si mesmo. Não se
combate eficazmente estes efeitos colaterais
negativos - de uma situação
em linhas gerais extremamente positiva
e promissora - com exorcismos ou enclausurando-se
numa leitura dogmática dos princípios.
Combate-se, sim, concebendo e construindo,
aqui e agora, um partido que seja comunista
pela sua base de classe e filiação
teórica, e de massas pelas suas
dimensões e influência, estruturado
em organizações de base
dotadas de vida própria, enraizado
sobretudo entre os trabalhadores, nem
como na juventude e na intelectualidade.
Domingo,
na seqüência do 1º Encontro, terão
lugar também em Brasília
dois ativos — um de organização
e outro de finanças — para tirar
conseqüências das conclusões
daquela reunião tendo em vista
estas duas áreas específicas
e cruciais.
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