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O fracasso das negociações de Cancun neste
ano provavelmente selaram a tampa do caixão
sobre qualquer compromisso sério dos EUA em
fazer com que a OMC funcionasse, enquanto o
regime Bush ocupar a Casa Branca. À frente
do fiasco de Cancun, Zoellick estava
determinado em fazer com que os EUA fossem
em frente com acordos bilaterais e regionais
de "livre comércio" altamente predatórios
para as pequenas economias e enormemente
vantajosos para as multinacionais americanas
para quem Zoellick realmente trabalha.
Por
Toni Solo*
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O
ministro brasileiro Celso Amorim (e.) e Zoellick falam sobre a Alca em Miami |
É preciso uma
ficção bizarra para entender outra. O
romance de Flannery O'Connor "Sangue Sábio",
de 1952, está cheio de dicas para entender
seu parente não tão distante "Livre
Comércio". Hazel Motes, a protagonista de
O'Connor com pretensões a niilista, prega
uma "Igreja sem Cristo", com todo o fervor
zeloso da devoção de Zoellick ao "Livre
Comércio" sem livre comércio. Esgueirando-se
pelo romance encontramos o verdadeiro duplo
de Zoellick, Asa Hawkes, o pastor que finge
ser cego para enganar as pessoas, fazendo
com que repartam seu dinheiro com ele na
crença de que ele se cegou a si mesmo por
sua fé.
Como Hawkes,
Zoellick é um soberbo e escolado enganador
pela fé. Pregando o livre comércio, ele
traça uma longa história de interesses
comerciais privados em multinacionais
predatórias como a Vivendi, Enron, Goldman
Sachs, Alliance Capital e SAID Holdings, os
especialistas sul-africanos em segurança de
patentes e copyright com base nas Bermudas.
Sua perspectiva se mescla de forma coerente
com a confusão deliberada feita pelo regime
de Bush dos desejos de seus amigos
plutocratas desejosos de domínio com os
interesses do povo dos Estados Unidos.
Não se importe
com o evangelismo, sinta o Clausewitz
Os
pronunciamentos de Zoellick merecem atenção.
Como outros fanáticos mercenários que
rodeiam George W. Bush, seu evangelismo é de
uma franqueza arrogante. Membro do Gabinete
de Bush com patente de Embaixador, ele
assumiu como 13º Delegado Comercial dos EUA
em 7 de fevereiro de 2001, confirmado por
unanimidade pelo Senado. Na verdade, como o
principal conselheiro de política comercial
de Bush e negociador comercial chefe, ele
põe as grandes empresas na frente e o povo
dos Estados Unidos atrás.
No início dos
anos 90, Zoellick trabalhou como
subsecretário econômico para George Bush
pai, e chefiou as negociações para o
Departamento de Estado no Tratado de Livre
Comércio da América do Norte (NAFTA).
Durante o ano acadêmico de 1997-1998, ele
era o professor da cadeira Olin de Segurança
Nacional na Academia Naval dos EUA. Esse
interesse em segurança é natural para um
homem que vê negociações comerciais
agressivas como a continuação da guerra por
outros meios.
O dogma
invariável do credo de Zoellick é o destino
manifesto dos EUA de dominar o comércio
mundial. Uma visão multilateral incorporando
a proeminência dos EUA parecia possível no
início dos anos 90 durante a Rodada Uruguai
de negociações comerciais quando os países
pobres em desenvolvimento eram menos capazes
de defender seus interesses. A reunião de
Doha em 2001 demonstrou as limitações
daquela visão do ponto de vista dos EUA.
O fracasso das
negociações de Cancun neste ano
provavelmente selaram a tampa do caixão
sobre qualquer compromisso sério dos EUA em
fazer com que a Organização Mundial do
Comércio funcionasse, enquanto o regime Bush
ocupar a Casa Branca. À frente do fiasco de
Cancun, Zoellick estava determinado em fazer
com que os Estados Unidos fossem em frente
com acordos bilaterais e regionais de livre
comércio independentemente, se a negociações
da OMC fracassassem. Dizendo "nós não
paramos. Nós estamos seguindo com os países
que querem seguir" (1)
Zoellick se comprometeu a negociar acordos
preferenciais de comércio para os EUA em
bases bilaterais ou regionais.
A estratégia
dos EUA após Cancun
A aprovação do
Congresso para uma Agência de Promoção do
Comércio (TPA) tornou aquela estratégia
possível. Mas a TPA só foi garantida às
custas de concessões aos interesses
comerciais domésticos, como aço e
agricultura, criando contradições inerentes
aos acordos de livre comércio. Apesar disso,
por meio de outras leis como a Lei de
Parceria Comercial da Bacia do Caribe, a Lei
de Preferências Comerciais Andina e a Lei
para o Crescimento e Oportunidade Africana
(AGOA), Bush espera amarrar os EUA a acordos
de comércio exterior que beneficiem sua base
de poder empresarial.
Acordos
bilaterais implicam que as complicações mais
amplas que as negociações multilaterais
envolvem através da OMC podem ser tanto
contornadas e esquecidas como priorizadas,
conforme as necessidades. Por exemplo,
preocupações ambientais podem ser totalmente
deixadas de lado, enquanto que
telecomunicações e serviços financeiros
podem ser trazidos para o centro do palco.
Acordos bilaterais também possibilitarão a
integração de questões políticas e de
segurança permitindo que os EUA intimidem
países mais fracos para que sigam suas
necessidades de política externa em proveito
de um comércio potencialmente benéfico.
Durante um
discurso amplamente noticiado em maio deste
ano para o Instituto de Economia
Internacional, Zoellick disse, "os EUA
buscam cooperação - ou algo melhor - em
política externa e segurança... Dado que os
EUA têm interesses internacionais além do
comércio, por que não procurar levar as
pessoas a apoiarem nossas políticas gerais?
Negociar um acordo de livre comércio com os
EUA não é algo a que se tenha direito - é um
privilégio". Essa grosseira mostra de
intimidação e suborno não é nada de novo. A
administração Reagan usou a ajuda agrícola
da PL 480 e outras concessões para subornar
e induzir Honduras a servir como base
militar para a agressão terrorista ilegal
contra a Nicarágua durante os anos 80.
Zoellick tenta
dar um verniz benevolente à estratégia,
aludindo ao não tão altruísta plano Marshall
na Europa do pós-guerra. "As políticas
comerciais dos EUA estão ligadas aos nossos
objetivos econômicos, políticos e de
segurança mais amplos. Essa integração
intelectual pode confundir alguns estudiosos
do comércio, mas segue os passos da
reconstrução após 1945" (2).
Mas o fundamento consistente da mensagem de
"livre comércio" dos EUA é "faça o que nós
queremos — ou então...".
Impondo o
catecismo do "Livre Comércio"
Muitos
elementos desses acordos são nocivos aos
países alvo. Estado-Investidor e provisões
de expropriação permitem que firmas dos EUA
processem um governo por dinheiro que eles
poderiam ter ganho potencialmente se não
fosse pela lei local. A companhia energética
Harken tentou isso recentemente nos EUA
contra a Costa Rica na ordem de 57 bilhões
de dólares mesmo sem tal estrutura de
comércio bilateral. Por enquanto, eles
tiveram que voltar atrás e negociar um
acordo diretamente com o governo da Costa
Rica. Se a Costa Rica assinar o Tratado de
Livre Comércio Centro-Americano, o país
certamente irá perder tais casos no futuro.
Cláusulas
sobre controle de capitais tornam um país
impotente para regular transações cambiais
especulativas em grande escala. Outras
cláusulas forçam os países a tratar
companhias internacionais gigantes
exatamente nos mesmos termos das pequenas
locais. Planejamento nacional econômico e
social é reduzido por meio de cláusulas
restringindo critérios de desempenho tais
como códigos de emprego não-discriminatórios
ou proteção ambiental, saúde dos
trabalhadores e medidas de segurança (3).
Quando o
evangelismo amedrontador fracassa, Zoellick
pode chamar seus colegas do governo dos EUA
para extrair medidas apropriadas dos sempre
atenciosos FMI e Banco Mundial a fim de
ajudar conversos relutantes a ver a luz e
falar nas línguas do "livre comércio". Com
Bush, o "livre comércio" foi levado ao mundo
inteiro por Zoellick e seus apóstolos. Em
2000 a Jordânia se tornou o primeiro país
árabe a assinar um acordo com os EUA.
Acordos semelhantes foram feitos com
Cingapura e o Chile. Um acordo com o
Marrocos está para sair. O Bahrein é o
próximo da lista. O Iraque ocupado é outro
candidato óbvio.
Quando as
coisas precisam ser explicadas, Zoellick é
bem claro. Com a China, ele demanda "manter
os mercados dos EUA abertos, nós precisamos
de uma via de mão dupla para expandir as
exportações dos EUA para a China e operar de
modo justo, transparente". Seus comentários
sobre patentes e copyright são especialmente
interessantes, "Vocês precisam de alguns
processos e sumir com algumas pessoas... Se
for apenas uma multa ou um custo para o
negócio, então vocês não serão capazes de
impedir a pirataria da propriedade
intelectual". É interessante notar que essas
observações sobre processo criminal vêm de
um dos mais influentes conselheiros
remunerados da fraudulenta Enron (4).
Na África,
Zoellick acena com ameaças para eventuais
beneficiários da Lei de Crescimento e
Oportunidade da África (AGOA). Esse acordo
preferencial permite que uns 6000 itens de
países selecionados da África entrem nos EUA
livres de impostos. Zoellick observa "Embora
seja um bom começo em termos de
desenvolvimento envolve alguns riscos pois
quando o Congresso aprova uma lei
preferencial como a AGOA, significa que o
Congresso também pode mudá-la". Zoellick e
seus propagandistas deixam de mencionar que
a maioria desses 6000 produtos serão
manufaturados usando materiais fornecidos
pelos EUA. A AGOA expira em 2008 (5).
O livre
comércio é um instrumento bastante rude nas
mãos de Zoellick. Em julho deste ano seus
funcionários puxaram o tapete dos delegados
egípcios em visita. Os acólitos de Zoellick
disseram a eles que os EUA estavam
suspendendo as medidas em direção a acordos
de livre comércio com o Egito em resposta à
recusa do Cairo em apoiar os EUA contra a
Europa em relação a alimentos geneticamente
modificados. Antes, no encontro do Fórum
Econômico Mundial na Jordânia em 23 de
junho, Zoellick disse: "nós vemos lampejos
de luz (no Egito) mas eu não vou dourar a
pílula para o povo. O Egito tem certo
trabalho a fazer". Vestindo a carapuça, ele
acrescentou, "Nós sabemos que o Egito é o
coração tradicional do mundo árabe, mas não
vamos entregar isso a eles só porque é um
grande e importante país" (6).
Galileu iria
reconhecer o acordo
A doutrina
Zoellick de "livre comércio" universal sem
livre comércio não tolera nenhuma heresia e
não tem tempo para ciência genuína. Em março
deste ano Zoellick anunciou que estava
montando uma "coalizão" - engraçado como
elas continuam a aparecer - para forçar a
União Européia a levantar sua moratória
contra alimentos geneticamente modificados e
produtos biotecnológicos. Zoellick disse ao
Comitê de Finanças do Senado em 5 de março
"Eu não quero que isso seja apenas os EUA
contra a UE" (7).
Em um
comunicado à imprensa de 13 de maio sobre o
assunto ele alegou que a moratória da UE
estava atrapalhando o desenvolvimento da
biotecnologia e bloqueando seus
"benefícios", especialmente em países em
desenvolvimento. "Em lugares onde a comida é
pouca ou onde o clima pode ser rigoroso, o
aumento da produtividade agrícola através da
biotecnologia pode significar a diferença
entre vida e morte, entre saúde e doença,
para milhões dos mais pobres do mundo". Com
lágrimas de crocodilo e contra as evidências
científicas disponíveis Zoellick argumenta
que a biotecnologia aumenta o rendimento das
colheitas mas ainda assim beneficia o meio
ambiente miraculosamente. Infelizmente para
ele, os resultados de recentes experimentos
de campo britânicos cuidadosamente
realizados contam uma história diferente (8).
Nos EUA, o
escritor Mark Schapiro acompanhou as
colheitas transgênicas desde o início. Ele
escreve "A Monsanto sozinha despejou pelo
menos um bilhão de dólares em pesquisa
biotecnológica, de acordo com o
correspondente de tecnologia da NPR Daniel
Charles em seu livro Os Senhores da
Semeadura, antes que tivesse uma única
planta geneticamente elaborada para vender".
Outras companhias — DuPont, Dow, Aventis e
Syngenta — gastaram bilhões mais em pesquisa
e em uma orgia de compras de companhias de
sementes que se estendeu por boa parte dos
anos 90. As apostas destas companhias são
enormes" (9).
Zoellick trabalha para beneficiar as
companhias gigantes de biotecnologia do
agronegócio dos EUA enquanto implacavelmente
segue políticas que empobrecem milhões de
agricultores africanos.
Maciça
artilharia ondas de choque de hipocrisia
Antes da
cúpula comercial de Doha de 2001, Zoellick
disse, "dada a relativa abertura da América,
nós só podemos manter apoio doméstico para o
comércio se mantivermos leis firmes,
efetivas contra práticas desleais...
Portanto nós vamos continuar a insistir que
qualquer consideração do papel da OMC tenha
como foco elevar as práticas dos outros ao
nível dos padrões dos EUA a fim de que as
empresas e trabalhadores americanos possam
competir em um campo equilibrado" (10).
Essa hipocrisia é tão enorme que só pode ter
a intenção de inspirar choque e horror.
Mais um
exemplo, em 2001 os EUA subsidiaram seus
produtores de algodão num total de
aproximadamente 1 bilhão de dólares além do
valor internacional de mercado de sua
colheita. Como ressaltou Kevin Watkins da
Oxfam, os produtores de algodão africanos
"perderam aproximadamente 200 milhões de
dólares em 2001 como conseqüência direta dos
subsídios agrícolas norte-americanos. Para
colocar esta cifra no contexto, ela torna
irrisória a quantia que os governos da
região recebem na forma de auxílio dos EUA
ou alívio da dívida com a Iniciativa para os
Países Pobres Fortemente Endividados (HIPC)
(11).
Ainda em 2002 os EUA aumentaram os subsídios
agrícolas em 10% comparado com 2001.
Watkins também
ressalta que as taxas de importação
auferidas pelos Estados Unidos do
empobrecido Bangladesh são geralmente iguais
ou maiores que aquelas auferidas da próspera
França devido a que o regime tarifário dos
EUA favorece seus parceiros comerciais
europeus em detrimento dos países em
desenvolvimento mais pobres. Isso coloca num
necessário contexto outra das falsas
alegações de Zoellick, que as tarifas médias
dos EUA são as mais baixas entre a elite
mundial dos países ricos da OCDE. É verdade
apenas porque os EUA têm a capacidade de
bater nas nações pobres indefesas e
roubá-las, mas é forçado a comerciar mais
lealmente com as economias mais fortes de
seus principais parceiros comerciais como a
UE.
A Costa Rica
recebe o impacto
A Costa Rica é
o mais recente receptor latino-americano do
tratamento de Zoellick. As telecomunicações,
eletricidade e seguros são todos monopólios
estatais na Costa Rica. Eles representam
aquisições desejáveis para os amigos de
Zoellick em grandes companhias
multinacionais como a Vivendi. Mas a Costa
Rica tem uma longa tradição de defesa do
patrimônio nacional. O Presidente Pacheco,
provavelmente contra suas próprias
tendências mas sob pressão incessante dos
rivais políticos locais, não cedeu às
pressões dos EUA para privatizar as
companhias públicas.
Incapaz de
apresar as companhias de telecomunicações
abertas na Costa Rica, Zoellick voltou-se
para a pilhagem de outros alvos. "Eu sei que
é uma questão delicada, mas nós vamos ter de
achar uma maneira de lidar com a questão de
alguma maneira" (12).
Pacheco insiste por ora que a Costa Rica
preferirá ficar de fora da CAFTA a
privatizar suas principais companhias
públicas.
Com
financiamento substancial de organizações
apoiadas pelos EUA como a Fundação EUA-Costa
Rica, a elite costarriquenha pró "livre
comércio", tipificada pelo ganhador do
prêmio Nobel Oscar Arias, está fazendo o que
pode para forçar a Costa Rica a assinar o
Acordo de Livre Comércio Centro-Americano.
Mas a oposição política ao longo do espectro
é forte. As principais objeções são o sigilo
das negociações sob condições impostas pelos
Estados Unidos e a insistência da equipe de
Zoellick em um calendário fixo. Reclamando
uma desaceleração e negociações mais
transparentes, um grupo de oposição tem o
slogan, "Outra Costa Rica é possível. Outro
mundo é possível".
Cansados de
serem deixados para escanteio, os
legisladores costarriquenhos estão pedindo
para examinar os textos negociados antes que
as negociações sejam completadas e se
acharem diante de um fato consumado. "Nós
somos aqueles que vão ter de aprovar esse
tratado e nós queremos ser responsáveis
desde agora, conhecendo o que o texto diz.
Nós não sabemos o que foi negociado até
agora" (13).
Isso dá a
mentira que Zoellick apregoa, que "Nós damos
valor aos reclamos do público, que nós
tentaremos levar em consideração" (14).
Como o resto dos ideólogos de Bush, Zoellick
despreza todos os que discordam dele. Mas
ele pode recorrer à linguagem mecânica,
cínica da "transparência" quase tão bem
quanto seu par da União Européia Pacal Lamy.
Os EUA continuam a trabalhar incessantemente
para completarem um acordo comercial
continental na América Latina até 2005.
A incrível
história das empresas de telecomunicação e
fraude escancarada
Mentiras
escancaradas vêm facilmente para Zoellick e
sua equipe, seja quando estão tentando nos
empurrar biotecnologia ou fazendo propaganda
enganosa de companhias telefônicas
privatizadas. Eles sabem muito bem que as
tarifas telefônicas para usuários na
Nicarágua e El Salvador explodiram desde a
privatização. Na Nicarágua, onde metade do
antigo monopólio estatal ainda não foi
vendido, controvérsias rodeiam a companhia
do corpo residual do monopólio, na corrida
para a liquidação final.
Ardis
contábeis parecem ter desaparecido com os
benefícios que deveriam ir para o governo.
Houve alegações de perdas misteriosas de até
9 milhões de dólares. De forma igualmente
misteriosa, o valor contábil do ativo fixo
parece ter caído para 16 milhões de dólares.
Líderes sindicais da companhia telefônica
receiam de manobras para reduzir o valor da
companhia antes da venda com a finalidade de
aumentar os lucros para compradores
eventuais.
Após a venda,
o real valor da companhia será sem dúvida
revelado como uma transformação estupenda
graças ao milagroso livre mercado. Mas
líderes sindicais calculam que a companhia
ganhou 50 milhões de dólares desde a
privatização e cerca de metade deste valor é
devido ao Estado. A companhia ainda terá de
prestar contas do corpo residual uma vez que
a companhia foi parcialmente privatizada em
2000 (15).
Em El
Salvador, as pessoas estão mais à frente na
estrada da privatização e lamentam o passo
que deram. A companhia telefônica Antel de
El Salvador e a companhia de distribuição de
energia CAESS já foram privatizadas, com
outras firmas estatais prontas. As tarifas
telefônicas são até três vezes aquelas da
Costa Rica.
Os apóstolos
do livre mercado insistem que a privatização
invariavelmente aumenta a eficiência e reduz
os custos. Geralmente, o oposto acontece. As
tarifas de utilização aumentam e a
eficiência cai pois o investimento em
infra-estrutura diminui, enquanto os
acionistas recebem seus dividendos e os
executivos inflam seus salários.
Atualmente em
El Salvador um telefone residencial básico
custa 274% do custo na Costa Rica. O custo
da chamada por minuto é 43% mais alto em El
Salvador para chamadas normais. Na Costa
Rica o monopólio estatal cobra por segundo
enquanto que em El Salvador a tarifa é
arredondada para o minuto seguinte (16).
O que se deve
lembrar da maioria desses acordos bilaterais
e regionais de "livre comércio" é que eles
não são acordos comerciais primários. Eles
são fundamentalmente acordos políticos que
utilizam pés-de-cabra e marretas a fim de
arrombar os países para os poderosos
investimentos e interesses políticos
enquanto aparentemente negociam o comércio.
A filiação de Zoellick ao grupo de pesquisa
de investimentos Precursor é uma pista do
porque de essa ênfase no investimento
privado ser sempre proeminente nesses
acordos, invariavelmente em detrimento do
interesse público (17).
Quebrando os
ovos para a omelete empresarial globalizada
Os acordos não
são apenas ruins para suas vítimas
estrangeiras, são ruins para gente comum nos
EUA. Eles vão encorajar ainda mais uma
economia de serviços de baixos salários nos
EUA enquanto a elite empresarial faz suas
fortunas ainda mais vastas do que são
investindo em economias fracas no exterior.
No passado esses investimentos eram impostos
e protegidos usando o poder militar dos EUA,
como o foram na América Latina ao longo do
século passado.
No novo
milênio, tentando estender e consolidar o
alcance global dos EUA, Zoellick está usando
o comércio mais intrinsecamente do que nunca
para sustentar a estratégia externa dos EUA
a um baixo custo através de acordos
bilaterais e regionais. Os acordos são
caracterizados pelo sigilo, pressão política
intensa e feroz resistência às tentativas de
dar atenção às preocupações locais que
possam limitar as recompensas para os
investidores multinacionais dos EUA,
especialmente em relação à saúde e segurança
e ao meio-ambiente.
A fanática
Hazel Motes pode ser a personagem que Robert
Zoellick assume enquanto negociador público.
Mas Zoellick não é cego nem louco. Ele
simplesmente não tem interesse no maciço
custo humano, seja nos Estados Unidos ou no
exterior, de sua lucrativa missão evangélica
global em favor do capitalismo monopolista.
Toni Solo é um
ativista radicado na América Central. Pode
ser contatado em:
tonisolo52@yahoo.com
Tradução do
Círculo Bolivariano de
São Paulo
Original em
Counterpunch
NOTAS
-
Zoellick quer o acordo da OMC até 2005.
CNN.com, 4 de setembro de 2003.
-
"Desencadeando os ventos do comércio",
The Economist, 5 de dezembro de 2002.
Citado em "Liberalizando o comércio ou
comerciando no comércio?" K. Subramanian.
Financial Daily (do grupo editorial HINDU)
24 de dezembro de 2002.
-
"(Direito de) Propriedade é Roubo"
Gabriela Bocagrande, Texas Observer,
17/8/2001
-
Funcionário do comércio diz que os EUA
necessitam de "oportunidade justa" para
exportar
para a China" Por Tim Johson, Knight
Ridder Newspaper, 27 de outubro de 2003.
-
"Delegado Comercial Zoellick Diz Que Livre
Comércio Diz Respeito à Liberdade Concede
Entrevista
Coletiva em Joanesburgo" Por Charles W.
Corey Correspondente do Washington File.
Quinta 21 de fevereiro de 2002
(usinfo.state.gov).
-
AL-AHRAM online, 3-9 de julho, edição nº
645.
-
"Os
EUA Buscam Parceiros para o Desafio na OMC
à Moratória de Biotecnologia da UE",
Por Berta
Gomez, Articulista do Washington File 5 de
março de 2003, Escritório de Programas de
Informações Internacionais do Departamento
de Estado dos EUA.
-
As
colheitas de alimentos geneticamente
modificados fracassam em testes chave em
meio a
receios ambientais. Duas em cada três
variedades "não deveriam ser cultivadas"
Paul Brown, correspondente de
meio-ambiente Guardian. 2 de Outubro de
2003.
-
"Semeando o desastre?" Mark Schapiro.
The Nation. Outubro de 2002.
-
"OMC
- Delegado Comercial dos EUA diz que
outras nações devem se "comprometer" ou o
encontro da
OMC em Doha pode acabar fracassando",
International Trade Daily, 31 de outubro
de 2001.
-
"Hipocrisia
comercial: o problema com Robert Zoellick"
Kevin Watkins, 20/12/2002
www.opendemocracy.net.
-
"Os
Mercados Devem Abrir, Advertem os EUA" por
Tim Rogers e Fabian Borges, Tico
Times 7 de outubro de 2003.
-
A
Congressista Aida Faingezicht, do Partido
da União Social Cristã da Situação. Citada
no
Tico Times
de São José da Costa Rica, 31 de outubro
de 2003.
-
"Os
EUA vão Buscar Vários Objetivos no
Encontro da ALCA em Quito em Novembro" 15
de outubro
de 2002. Washington File, Escritório de
Programas de Informações Internacionais
-
El
Nuevo Diário, Manágua, Nicarágua, 23 de
outubro de 2003 e 28 de outubro de 2003.
-
"Cuzcatlecos alertam aos ticos:
Salvadorenhos pagam até 300% mais que na
Costa Rica
por
serviços telefônicos" por Alonso Gómez
Vargas 22 de outubro de 2003
www.rebelion.org.
-
Comunicado
de imprensa de 8 de janeiro
www.precursorgroup.com.
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