Resolução
final da Conferência Nacional
do PCdoB - "Construir o novo tempo"
Confira abaixo a primeira parte do
documento
Um
novo tempo para o Partido - buscar o êxito
do governo Lula na consecução
de um projeto democrático, nacional-desenvolvimentista
Resolução
Política à 9ª
Conferência Nacional do
PCdoB aprovada em 29
de junho de 2003
A vitória de Luiz Inácio
Lula da Silva para a Presidência
da República abre um novo ciclo
histórico e político no
Brasil — não se tratando de uma
simples alternância de governo.
Esse desfecho parte de causas objetivas
e subjetivas. Na última década,
agravou-se sobremodo o impasse histórico
brasileiro, em razão da aplicação
do projeto de molde ultraliberalizante
e desnacionalizante, intensificando o
movimento de ampliação do
endividamento externo. O efeito cumulativo
de ciclos de dependência cada vez
mais profundos e de extrema concentração
de renda gerou a crise atual manifestada
pela contradição entre duas
tendências: uma definida pelo anseio
de soberania nacional, desenvolvimento
econômico e progresso social, respaldada
em crescente aspiração democrática
e popular, e, outra, definida pelo projeto
neoliberal, consumado pelo pacto de setores
da classe dominante tradicional que se
submeteram às imposições
do sistema de poder do império
hegemônico e dos círculos
financeiros centrais. A campanha eleitoral
do ano passado exprimiu-se pela luta entre
essas duas tendências, consagrando
uma ampla vitória da oposição
desde o primeiro turno. Tal êxito
foi concretizado por uma frente política
liderada por Lula — forma de manifestação
da primeira tendência —, com mais
de 60% dos votos válidos no último
turno das eleições. Confirmaram-se,
assim, as análises feitas pelo
10º Congresso do Partido em dezembro
de 2001. Agora, o Brasil passa a viver
uma nova fase política, surgindo
pela primeira vez em sua história
a possibilidade da consecução
de um projeto democrático, nacional-desenvolvimentista
de cunho progressista, dirigido por novas
forças políticas e sociais,
democráticas e populares.
A
dimensão da vitória vai
além dos marcos do plano nacional
porque impôs um revés político
sobre a atual agenda programada pelo imperialismo
hegemônico e a oligarquia financeira
para a América do Sul, ensejando,
assim, a abertura de uma via alternativa
à fórmula única dominante
da neoliberalização capitalista
em um grande país.
A
realidade mundial contemporânea —
sua complexidade e a busca de alternativas
O cenário mundial marcado pela
intensificação da internacionalização
econômica, sob a égide da
liberalização financeira,
aguçou como nunca a lógica
de aumento da centralização
da riqueza e do agigantamento do capital
fictício, especulativo, rebaixando
acentuadamente o investimento na esfera
produtiva. Esse padrão moderno
de reprodução do capital,
surgido em meados da década de
70, vem demonstrando que o modo de produção
capitalista vigente há mais de
três séculos atravessa em
sua evolução uma etapa descendente,
caracterizada por uma crise que vai se
tornando crônica, de tensão
permanente, atingindo o sistema de forma
integral. A presente tendência recessiva
nos países capitalistas centrais
provoca desemprego crônico e massivo
e elevado endividamento de governos, de
empresas, da população.
Isso, em grande medida, decorre do estouro
da "bolha" inflada pela hipertrofia
dos mercados financeiros. Nos últimos
três anos, os investidores perderam
13,9 trilhões de dólares
nas principais bolsas do mundo, somente
comparável ao período da
grande crise de 1929, 1930. Grandes bancos,
e conglomerados empresariais, chegaram
à falência ou amargaram prejuízos
enormes.
A
crise é produto da dimensão
do impasse do sistema capitalista atual,
manifestação exacerbada
das contradições do mundo
contemporâneo. A natureza do regime
capitalista-imperialista não mudou
sua essência. Para esse sistema,
a saída da crise estrutural, historicamente
e em última instância, tem
sido a exacerbação da sua
política de força, a provocação
de focos de tensão, até
a deflagração da guerra.
Desde o 11 de setembro de 2001, o imperialismo
norte-americano encontrou pretexto, na
luta contra o terrorismo, para impor seu
intento guerreiro, diante da grave crise,
ameaçando a soberania, a democracia,
a paz e o próprio destino da humanidade.
Ele já definiu seu plano de guerra
global e "infinita", que se
iniciou no Afeganistão — hoje ocupa
o Iraque, e persegue em seu alvo de ataque
localizado naquilo que denominam "eixo
do mal". Os Estados Unidos assumiram
uma crescente ação unilateral
avocando para si a condição
de poder hegemônico no mundo e tentam
chantagear a ONU impondo os seus desígnios.
A despesa orçamentária desse
país para este ano destina US$
399,1 bilhões (17,9% dos gastos
totais) ao crescimento do arsenal bélico;
a maior comparada à de qualquer
outro período da sua história.
É
preciso considerar que o grau de irracionalidade
a que chegou a política externa
do imperialismo norte-americano implica
em grande ameaça ao próprio
processo de civilização
alcançado pela humanidade. A decisão
de guerra da superpotência norte-americana,
a invasão e ocupação
do Iraque desencadeou no mundo amplos
e massivos movimentos pela paz, contra
a guerra imperialista; e a sua intensificação
guerreira exacerba antigas contradições,
acentua a divisão no campo imperialista
e provoca novos antagonismos. A luta pela
paz contra a guerra na atualidade tem
um sentido antiimperialista e revolucionário,
adquire uma dimensão nova por sua
extensão mundial, contribui para
o desmascaramento dos verdadeiros intentos
do império norte-americano, abrindo
passagem para um acúmulo mais favorável
à mudança do atual quadro
de forças no mundo. As grandes
manifestações no mundo contra
a guerra ao Iraque, em 15 de fevereiro
e 15 de março deste ano, foram
consideradas sem precedentes na história
da luta pacifista.
Nos
marcos da globalização,
as políticas ultraliberalizantes
provocaram grandes estragos sociais e
retrocessos econômicos nos países
ditos periféricos, condicionando
uma situação de profunda
crise estrutural; cavando mais fundo a
desigualdade econômica que separa
esses países e os de capitalismo
avançado. Onde essas políticas
foram aplicadas os países pagaram
custos altíssimos, ficando à
mercê da livre movimentação
do capital financeiro; e multiplicaram-se
os seus endividamentos, tornando-se mais
vulneráveis e empobrecidos e produzindo
uma coleção de fracassos,
segundo o próprio economista norte-americano
Joseph Stiglitz, ex-vice-presidente do
Banco Mundial. As crises vêm se
sucedendo: primeiro, em 1994 no México;
depois, no Sudeste asiático em
1997; na Rússia em 1998; no Brasil
em 1999; na catástrofe que atingiu
a Argentina, alcançando as economias
centrais, com o estouro da "bolha"
nos Estados Unidos; e com a semiestagnação
mais recente na Europa e no Japão
(onde já dura doze anos), vincando
uma tendência recessiva que atingiu
a economia mundial.
Ao
mesmo tempo, um crescente e amplo movimento
contra as políticas neoliberais
se estendeu no âmbito internacional
e em cada país. O III Fórum
Social Mundial realizado em Porto Alegre
deu uma amostra da dimensão e extensão
alcançada por essa resistência
antineoliberal e antiimperialista em todo
o mundo. Na América Latina, continente
marcado pelas crises e crescente perplexidade,
desencadeou-se extenso clamor por mudanças
entre seus povos, manifestado na América
do Sul através de importantes conquistas
políticas das forças democráticas,
populares e progressistas - com os governos
de Chávez, na Venezuela; Lula,
no Brasil; Gutierrez, no Equador; assim
como com os resultados eleitorais de sentido
mudancista da Argentina e do Paraguai
e o rápido crescimento eleitoral
dessas forças avançadas
na Bolívia e no Uruguai; e a elevação
da consciência antineoliberal e
do movimento de massas na Argentina. Torna-se
importante destacar nesse contexto atual
a luta de Estados nacionais soberanos
contra as ingerências imperialistas;
o êxito de países asiáticos
no retorno à rota do desenvolvimento,
que seguiram caminho próprio, renegando
o receituário do FMI; e o sucesso
que vêm conquistando no desenvolvimento
econômico e social os países
que mantiveram a perspectiva socialista,
principalmente o crescente papel político
e econômico desempenhado pela China
no mundo. Todos esses fatos e fenômenos
positivos indicam que a resistência
ao neoliberalismo está entrando
em um novo momento de seu desenvolvimento.
Entretanto,
no exame do quadro geral perdura um balanço
de forças adverso à mudança
do sistema de poder capitalista-imperialista
dominante. A crise do socialismo do final
do século passado e a derrocada
da URSS e dos países do Leste da
Europa provocaram uma derrota estratégica
de grande monta para o movimento revolucionário
e de libertação dos povos
em todo o mundo, que ainda não
reúnem condições
para uma ofensiva em busca do êxito
atual de novo empreendimento socialista.
Hoje, a realidade de grave crise, agravada
com a política belicista imperialista,
cria uma situação propícia
ao crescimento da luta dos povos e ao
acúmulo de forças de sentido
antiimperialista, mas, de modo geral,
não inverte a tendência dominante
da ordem imperialista atual e de uma situação
contra-revolucionária. Mantém
a predominância política
e ideológica do regime neoliberal,
apesar de seus fracassos, obstaculizando
uma saída fora dos marcos da sua
vigência.
Por outro lado, é importante acentuar
que o plano guerreiro de domínio
mundial da superpotência norte-americana
incitará em maior grau a luta dos
interesses geopolíticos contraditórios.
Embora imediatamente possa provocar um
cenário de sofrimentos para toda
humanidade, essa investida hegemonista
pode apressar o fracasso da ordem imperialista
unipolar atual, abrindo novo passo para
as forças progressistas e revolucionárias.
Ao mesmo tempo, no cenário do nosso
continente sul-americano, o crescimento
da resistência, produto da crise
estrutural, permitiu em vários
países a vitória de governos
contrários ao legado neoliberal,
abrindo uma nova fase de luta - continuidade
ou mudança, ou seja, o desafio
governamental de construir a alternativa
à vigência neoliberal. A
luta pela mudança se estende por
todo o continente — apesar do elevado
grau de fragmentação e dificuldades
de coesão frentista das forças
antiimperialistas em muitos países
—, empunhando as bandeiras da democracia,
soberania e desenvolvimento, trabalho
e direitos sociais, integração
da América do Sul, contrária
à proposta da Alca apresentada
pelos Estados Unidos e, agora, unindo-se
à luta mundial pela paz, contra
o belicismo imperialista. O movimento
político mudancista tem desembocado
em eleições realizadas nos
limites institucionais vigentes e suas
forças-dirigentes principais têm
caráter democrático radical,
nacionalista, influenciadas em maior ou
menor grau por uma perspectiva social-democrata.
Essa realidade de paradoxos e contradições
no mundo e na América do Sul revela
o estágio da batalha política
em desenvolvimento, seu alvo e forças
motrizes, seus limites e os novos desafios
para seu avanço — tendo em vista
a construção de uma nova
ordem mundial democrática e solidária
e de Estados nacionais que superem os
regimes atuais de dependência externa,
extrema desigualdade e crescente perda
de direitos sociais —, abrindo caminho
para projetos alternativos ao neoliberalismo.
As correntes políticas mais conseqüentes
estão diante de um quadro geral
de defensiva à consecução
do objetivo estratégico transformador,
revolucionário, traduzindo-se no
âmbito nacional em pesadas restrições
políticas e ideológicas
e econômicas internas e externas
ao desenvolvimento econômico e ao
progresso social; determinando, diante
disso, diferenciado e prolongado processo
de acumulação de forças.
Hoje, esse processo cumulativo consiste
na definição das tarefas
políticas de formação
de uma frente mundial pela paz, contra
a política belicista imperialista;
na unidade dos povos e países por
sua integração política
e econômica contra as injunções
hegemonistas do imperialismo; e no desenvolvimento
da luta em cada país pelo êxito
de um projeto emancipador e democrático.
As
novas condições da luta
do povo brasileiro
A vitória de Lula emerge desse
contexto geral de crise profunda e resistência,
que toma sua feição própria
na situação específica
do impasse brasileiro e das suas contradições,
inclusive no seio das classes dominantes.
Inaugura uma nova fase de luta do nosso
povo, pelo fato de se ter constituído
no êxito das forças políticas
e sociais, líderes da frente vitoriosa,
identificadas com os interesses democráticos,
progressistas e populares. Novas forças
encontram-se agora diante de um desafio
mais complexo e difícil: governar
um grande país dando o passo histórico
da sua emancipação contemporânea.
Ou seja, superar hoje os marcos impostos
pelo domínio imperial e pelas exigências
predominantes dos círculos financeiros
centrais, construindo um projeto democrático,
nacional-desenvolvimentista de base popular.
O
novo governo, produto de ampla frente
política consumada no 2o turno
do último pleito eleitoral, foi
levado, diante do quadro de forças
estabelecido pós-eleição,
a estender a diversidade de sua composição,
representando seu ministério uma
frente de múltiplas forças
de esquerda e de centro do espectro político
brasileiro, sob a plena hegemonia do Partido
dos Trabalhadores e de sua corrente majoritária.
Os comunistas participam no primeiro escalão
do novo governo, pela primeira vez na
história do Brasil.
A
nova realidade, inaugurada pelo governo
Lula, consiste de componentes objetivos
e subjetivos que definem o atual estágio
da correlação de forças
em desenvolvimento, que se configura pelo
seguinte: 1) O novo governo resultou de
uma expressiva vitória eleitoral
alcançando mais de 60% dos votos
válidos, tendo apoio de ampla frente
oposicionista, conduzida pelo PT; 2) o
governo goza de amplo respaldo das forças
populares organizadas, da simpatia de
contingentes representativos das camadas
médias e de importantes setores
da burguesia; e 3) a derrota dos partidos
conservadores levou à sua maior
fragmentação e dispersão
a base política que sustentava
o governo FHC. Agindo em sentido contrário
a essa tendência renovadora, pode-se
considerar que: 1) As correntes conservadoras,
apesar da derrota na disputa pela Presidência
da República, mantiveram posições
importantes nos governos estaduais e no
Congresso Nacional, dificultando a formação
da maioria absoluta para o governo Lula;
e 2) a engrenagem que modela o quadro
institucional vigente e sua estrutura
econômica — herança dos governos
da década de 90 —, segundo interesses
de setores ainda dominantes (internos
e externos), apesar do desgaste atingido,
mantém-se intacta. A resultante
mais importante desse balanço de
forças é que as novas correntes
vitoriosas chegaram ao governo nacional,
alcançaram posições
e postos políticos fundamentais;
porém, ainda não conquistaram
o poder real de forma plena. Pelo exposto,
pode-se sugerir que em decorrência
da correlação de poder existente,
o governo Lula ainda não reúne
as condições necessárias
para a ruptura imediata com o rumo dominante
precedente.
O
novo governo, com esses limites de poder
político, tem a incumbência
de realizar mudanças no sentido
de um modelo de desenvolvimento voltado
para o crescimento da economia, a afirmação
da soberania nacional e a melhoria das
condições de vida do povo;
e de transformar um país que vive
constantemente sujeito a pressões
e crises de natureza cambial e financeira
recorrentes (em 2002 o Real se desvalorizou
52,3% frente ao dólar), que diante
do risco constante da insolvência,
conseqüência da sua extremada
vulnerabilidade externa, tornou-se prisioneiro
do receituário imperativo do FMI.
A política conduzida pelo governo
FHC de abertura irrestrita dos mercados
e desregulamentação financeira,
propiciando livre movimentação
do capital forâneo, tanto no regime
de câmbio fixo como no de flutuante,
provocou uma situação de
semiestagnação em mais uma
década de nossa história
econômica, elevando dívidas
e déficits públicos a um
patamar inédito. Mesmo a estabilidade
monetária conseguida com custos
elevadíssimos para a nação,
através da adoção
dessa política ultraliberalizante,
foi sendo erodida, alcançando a
inflação um patamar elevado,
diminuindo mais ainda a renda dos assalariados.
O
governo encontra um país envolto
em gravíssima dificuldade, segundo
afirmativa do Presidente Lula, sem dispor
de meios imediatos para uma solução
eficaz, premido por um orçamento
herdado, comprometido substancialmente
com o pagamento dos encargos da dívida
pública. Deve-se considerar seriamente
a gravidade da situação
- legado de crise estrutural e conjuntural
que se soma às incertezas externas
- que constrange sobremodo a retomada
do desenvolvimento, criando difíceis
obstáculos à abertura do
caminho alternativo, democrático,
de reconstrução nacional
e progresso social. Portanto, a luta para
as forças interessadas na mudança
se desenvolve ainda num quadro de poder
limitado, em uma conjuntura interna e
externa adversa.
O
governo recém-instalado se define
por um caráter democrático
e progressista reunindo todas as forças
avançadas do país, interessadas
na emancipação nacional,
instaurando fóruns de consulta
no intento de estabelecer amplo pacto
político para governança;
assume de imediato o combate à
fome, procurando definir a "inclusão
social" como o norte do desenvolvimento;
e tenta estabelecer uma política
externa ativa e afirmativa, reforçando
o papel de liderança principal
do Brasil na integração
da América do Sul com ampla reativação
do Mercosul e posição de
defesa da paz, contra a guerra. Em contraste,
permanece preso à política
econômica conservadora anterior,
seguindo os compromissos já assumidos
desde a campanha eleitoral, na "Carta
ao povo brasileiro", diante da crise
financeira e cambial vivida pelo país.
O novo governo revela assim, neste começo
- como efeito exposto do nível
da correlação de forças
-, uma feição contraditória:
assume um caráter democrático
e dá seguimento ao mesmo tempo
à política econômica
anterior.
O
novo cenário da luta política
define-se pelo nível da batalha
em curso — limites de poder, herança
constrangedora, restrições
externas —, podendo se depreender disso,
então, que apesar da dificuldade
imediata em se reunir condições
para a ruptura com o modelo neoliberal,
o que está posto é como
se pode e se deve mudar o rumo dominante,
definindo com nitidez desde já
os objetivos, as metas e o processo de
construção de uma estratégia
nacional de desenvolvimento, considerando-se
a evolução da situação
interna e externa. Por isso, é
necessário que o novo governo transmita
à sociedade a sua agenda em relação
ao rumo mudancista a ser seguido, "um
gesto inaugural" (na expressão
da sensibilidade de Luiz Fernando Veríssimo),
estimulando um amplo movimento de diálogo
e mobilização. Dessa forma,
as dificuldades presentes serão
compreendidas melhor e o apoio se tornará
duradouro porque se moverá em função
de uma perspectiva determinada.
Como
ficou evidenciado, o governo Lula resultou
do desenvolvimento da contradição
entre duas tendências objetivas:
a manutenção do caminho
seguido pelo governo passado ou a busca
de uma outra via, a mudança do
quadro predominante. Essa tendência
tomou forma concreta, alcançando
a vitória, por meio de uma política
acertada, de uma afirmação
maior da liderança popular de Lula
e de uma ampla aliança de forças.
Estabelecido o novo governo, essa contradição
não desapareceu; ao contrário,
tomou maior dimensão e tende a
se acirrar, porque agora surge a possibilidade
da aplicação da nova política,
que se choca com poderosos interesses
internos e externos — o hegemonismo do
imperialismo norte-americano na América
Latina e a centralidade da oligarquia
financeira na condução econômica
—, protegidos por instituições
implantadas numa estrutura econômica
que impede a mudança.
A
luta entre as duas políticas — a velha e a nova a ser concretizada
—
está presente no âmbito governamental
e na sociedade, não estando definido
de antemão o desfecho desse embate.
Inaugura-se, assim, uma nova fase de luta
para as correntes revolucionárias,
democráticas e patrióticas,
que consiste na construção
efetiva da alternativa de superação
da hegemonia neoliberal, reunindo amplas
forças políticas e sociais
para tanto e fazendo vingar o projeto
nacional, democrático e popular.
Os movimentos dos trabalhadores, das camadas
populares e médias, dos estudantes
e setores empresariais, através
de suas organizações, poderão
ser as forças-motrizes fundamentais
para a mudança. Essa luta pela
transição da situação
presente à nova realidade, na qual
predomine o novo projeto, é que
caracteriza a fase atual da luta política
em nosso país.
A
luta pela
mudança de rumo
Em conseqüência dos compromissos
assumidos na campanha, em face da crise
financeira e cambial, dos poderosos interesses
dos "agentes econômicos"
e dos entraves das pesadas restrições
internas e externas herdadas, o novo governo
encontra-se diante de um paradoxo: assegurar
os contratos firmados no período
Fernando Henrique Cardoso ou mudar o projeto
aplicado pelo governo passado. Essa dualidade
revela as pressões para o continuísmo,
que podem se avolumar diante do peso da
inércia das instituições,
da ausência de uma convicção
estratégica transformadora a ser
seguida e ainda diante da falta de uma
mobilização popular maior.
O centro da questão está
em que uma mudança efetiva passa
pela alteração dos fundamentos
econômicos até aqui prevalecentes,
pela recomposição do Estado
nacional e pela afirmação
crescente da soberania nacional. Ao contrário
do que afirmava Fernando Henrique na sua
prédica diversionista, o Brasil
não está preparado para
crescer. A sua política produziu
maior vulnerabilidade externa, estagnação
econômica, provocou retrocesso no
nível da renda e do emprego do
trabalhador e rebaixou sua condição
de trabalho.
O
pensamento predominante no governo é
de reafirmar o compromisso de mudança
profunda, embora conclua que o país
não consegue fazer uma virada rápida
de política econômica, mantendo
uma posição defensiva diante
do temor da fragilidade externa, de uma
retaliação dos "mercados",
levando à manutenção
"emergencial" da política
monetária e fiscal anterior. No
limite, pode-se entender essas medidas
como contingenciais e transitórias.
Porque é falsa a idéia de
que a política macroeconômica
do governo anterior pode ser mantida por
um ou dois anos para então ser
substituída. O mais provável
é que, isso acontecendo, a crise
poderia se agravar "empurrando"
para uma saída mais difícil,
ou se conseguiria um crescimento contido
— como sempre —, voltando-se a conviver
com o mesmo círculo vicioso de
crise financeira e cambial.
Os
resultados destes primeiros meses do ano
aumentam essa preocupação.
Continua atuando incontestavelmente a
fonte de instabilidade e vulnerabilidade
que é o volume do passivo externo
brasileiro — soma dos cerca de US$ 215
bilhões da dívida externa
pública e privada com o estoque
de capital estrangeiro aqui investido
—, situado próximo aos US$ 400
bilhões. O custo e a amortização
desse passivo estão na casa dos
US$ 50 bilhões anuais ou US$ 1
bilhão por semana. Só no
primeiro trimestre saíram do país,
a título de pagamento de juros,
remessa de lucros, dividendos e amortizações
US$ 9,74 bilhões. A dívida
pública total (interna e externa)
atingiu em abril último a cifra
de R$ 839,76 bilhões, que representa
52,18% do PIB. Projeções
indicam que esse valor poderá ultrapassar
R$ 1 trilhão ao final de 2003,
gerando-se encargos calculados em R$ 300,1
bilhões. Neste quadro, o superávit
da balança comercial não
é suficiente para o equilíbrio
das contas. Frente a isto, o governo busca
elevadíssimos superávits
primários e foi levado a sacar
em junho mais uma parcela do acordo com
o FMI, agora de US$ 9,3 bilhões.
Pratica ainda altíssimas taxas
de juros reais, no objetivo de atrair
capital estrangeiro e viabilizar a rolagem
de seus títulos. Conseqüentemente,
caem a produção industrial
e o nível dos investimentos produtivos.
O PIB dos três primeiros meses do
ano teve uma ligeira queda em relação
ao último trimestre de 2002, apontando
para uma situação de estagnação.
As reservas internacionais do país
em termos líquidos estão
na casa dos US$ 15 bilhões.
O
agravamento da situação
desde 2002, reflexo da crise estrutural,
provocou o surgimento de um conjunto de
problemas emergenciais: déficits,
juros astronômicos, inflação,
crise do setor energético. A isto
se acrescenta a urgência assumida
pelo agravamento sem precedentes das condições
de vida do povo. A inquietação
frente ao crescente desemprego, que nas
maiores regiões metropolitanas
ultrapassa os 20% da População
Economicamente Ativa (PEA), segundo o
Dieese; a insegurança provocada
pelo avanço da criminalidade cria
na população um sentimento
de grande instabilidade. O rendimento
médio real dos trabalhadores ocupados
continua a retrair-se. Um país
que está entre as dez maiores economias
do mundo e ocupa o 70º lugar quanto
ao Índice de Desenvolvimento Humano
- IDH, necessita de investimentos públicos
urgentes no sentido de superar esta contradição.
A
verdade é que as exigências
impostas para se manter a "confiança
do mercado" — interesses dos círculos
financeiros centrais — vão se tornando
cada vez mais contraditórias com
as necessidades da ampla maioria da sociedade,
que abarca desde os trabalhadores até
as camadas populares e médias,
e incluindo empresários de vários
portes. Assim acontecendo, ao fim e ao
cabo, o governo perderá a confiança
tanto do povo quanto do mercado financeiro.
A recente experiência histórica
demonstra que a aplicação
das políticas neoliberais enterrou
a possibilidade de desenvolvimento, levando
os países "periféricos"
a pagarem um preço muito alto,
tornando-os mais vulneráveis e
empobrecidos. Em legítima fundamentação,
mesmo o economista conservador Luis. C.
Bresser Pereira chega à conclusão
de que no caso brasileiro ao invés
de fazer o país crescer, o capital
de fora — tomado como principal financiador
da economia — só teria contribuído
para o subdesenvolvimento econômico.
Em contrapartida, onde se conseguiu romper,
pelo menos em parte, com as rígidas
regras liberalizantes começou a
se colher resultados favoráveis
ao desenvolvimento e ao emprego, como
em alguns países da Ásia.
Por
tudo isso, se a mudança não
pode ser abrupta, o cerne do problema
reside em como se deve definir e explicitar
a nova estratégia nacional de desenvolvimento
em face das condições presentes,
indicando uma nova agenda com objetivos
e metas no prazo de vigência do
atual governo, encaminhando o processo
de mudança. Essa sinalização
de rota em termos concretos elevará
a confiança da grande maioria interessada
em contribuir e participar do novo empreendimento
da mudança. As reformas em discussão
se não forem apontadas no rumo
da ampliação da democracia,
dos direitos sociais e de uma nova estratégia
de desenvolvimento, se confundirão
com a agenda do governo passado, ficando
à mercê da disputa de múltiplos
interesses. Embora os acordos e contratos
anteriores tenham que ser considerados,
o PCdoB tem afirmado que apesar disso,
seguindo novos objetivos de desenvolvimento,
pode-se e deve-se questionar e revisar
tais compromissos - como, por exemplo,
os termos do acordo com o FMI que absolutiza
as metas de estabilidade fiscal em detrimento
de metas de crescimento econômico
e desenvolvimento social e se desdobra
em reformas voltadas para a fragilização
do Estado e a quebra dos direitos sociais,
e o padrão de montagem das Agências
Reguladoras - porque os mesmos não
têm caráter pétreo
podendo até ser anulados, tendo
como axioma a soberania nacional. Matéria
de relevante importância é
a que trata das modificações
relativas ao Banco Central do Brasil.
O BC deve ter como objetivo não
somente a estabilidade monetária,
mas, além disso, o compromisso
com a elevação dos índices
de desenvolvimento e de emprego do país.
Para isso deve estar sob controle público
amplo, tanto do Executivo quanto do Legislativo.
Sua independência desses poderes
se colocaria em sentido contrário
aos interesses do Brasil e do povo brasileiro.
Nas
circunstâncias presentes, apesar
das naturais controvérsias quanto
à alternativa ao projeto neoliberal,
também o Partido Comunista tem
participado do debate em questão.
A par da necessidade de uma série
de medidas sociais emergenciais, como
o Programa Fome Zero, o Partido tem defendido
que a chave para deflagração
e andamento do curso da mudança
da política neoliberal no atual
estágio da luta requer a construção
de uma nova maioria política, que
tenha como objetivo a retomada do desenvolvimento
econômico, a ampliação
da produção, o crescimento
do emprego a valorização
do trabalho e o fortalecimento do mercado
interno. Hoje, a elevação
do índice de desenvolvimento econômico
e de aumento dos postos de trabalho passou
a ser um problema político decisivo.
Em
primeiro lugar, a formação
da nova maioria política está
em consonância com duas componentes
inter-relacionadas: manutenção
e consolidação do apoio
da vasta maioria da nação
ao governo Lula e aglutinação
de todas as correntes políticas
interessadas em abrir um novo rumo para
o país. Nesse sentido, se destaca
a necessidade da formação
de uma base parlamentar a mais ampla possível,
de sustentação do governo,
porque a fragmentação da
oposição conservadora é
momentânea. Mas, o êxito na
criação dessas componentes
políticas é determinada
pela capacidade de as novas forças
construírem a estratégia