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VERMELHO .:: Caderno Paulista ::.
 
 

13 de junho de 2003

Érico de Albuquerque
A vontade e necessidade de mudanças

 

A esperança que venceu o medo precisa se transformar em lume na escuridão e se amarrar no mastro da vela inflada pelos ventos das mudanças; olhar de frente o monstro que emite cantos indutores da morte, e vencê-lo.

Ainda vivemos dias de expectativas e ensinamentos. A eleição de Lula é um marco significativo do movimento progressista protagonizado pelo povo brasileiro, só possível com o salto qualitativo no pensamento político das forças mudancistas, que sabiamente souberam trabalhar as contradições devidamente acirradas pela aplicação do projeto neoliberal durante uma década. Sem dúvida, o cerne dessas contradições é o grande privilégio auferido durante esse período pelo capital financeiro em detrimento da produção, do emprego, dos direitos sociais, enfim da vida, o que possibilitou juntar uma maioria nunca vista em processo eleitoral. É importante que se diga, que consciente ou inconscientemente essa maioria votou contra o resultado nefasto da política econômica do governo FHC.

O novo governo se instala enfrentando uma aguda crise, provocada pela cada vez maior dependência do país ao capital externo, que afeta profundamente a sociedade e a soberania, porque freia o crescimento, desestrutura a produção industrial e desnacionaliza a economia, em ritmo frenético rumo ao neocolonialismo. Toda lógica do pensar e do agir está no sentido de servir ao Império e tudo foi moldado e deve ser mantido para esse fim. Portanto, apesar da necessária cautela, desarmar as armadilhas e desfazer as proteções neoliberais, limpar as estrebarias é condição de mudanças, mesmo que aparentemente nesse momento as coisas pareçam estar sob controle.

O novo governo se encontra entre a necessidade de mudanças, a novidade de governar um grande país e a sedução das elites. Emite sinais positivos, destacando a marca democrática e a posição soberana no campo internacional com visibilidade das contradições existentes, que podem ser usados como meios facilitadores no processo das mudanças. Entretanto, ainda não enfrentou o centro do problema pelo qual foi eleito: desmontar a política econômica neoliberal. Contraditoriamente a mantém, sem maiores sinalizações de mudança de rumo.

Por outro lado, entendemos que a vontade de mudar da maioria do povo está ancorada em uma necessidade objetiva de desenvolvimento ao considerar os efeitos da crise, o nível da economia, a diversidade do parque industrial, o tamanho e a população do país. É preciso dar curso ao desenvolvimento das forças produtivas para que supram as necessidades e expectativas do mercado interno e dêem suporte à complexidade da estrutura econômica brasileira sob pena de maiores desintegrações ou outras formas mais subalternas. É preciso ler o Brasil para encontrar a saída sem as lentes do imperialismo. Nesse sentido, além da construção de uma maioria faz-se necessário esculpir uma vontade política por mudanças no núcleo hegemônico do governo, sob a ótica popular.

Tal tarefa exige romper as barreiras subjetivas que existem e persistem. O Partido hegemônico no governo, embora tenha avançado politicamente, denuncia a origem através da ausência de nitidez e unidade nos objetivos, o que dificulta um maior protagonismo na formulação de um projeto nacional; é suscetível a pressões que tomam maiores dimensões considerando o medo que tem de desestabilização; manifesta no seu núcleo duro a secular ilusão de que as leis econômicas do capitalismo são intocáveis, tendendo a abrir mão dos instrumentos necessários para promover o desenvolvimento do país. Parece que o neoliberalismo ainda mantém cativos corações e mentes.

Objetivamente basta olhar a tragédia nacional e perceber que o receituário atual é veneno puro e que o antídoto são medidas que levem ao crescimento. Obviamente que não haverá crescimento sem enfrentar o capital financeiro e retomar a consciência da importância do Estado na reconstrução do País. Tarefas difíceis que exigirão o calor dos movimentos sociais quando o assunto for: mexer com os lucros dos bancos, baixar necessariamente os juros, taxar o capital volátil, transformar a maior parte do lucro das multinacionais em incremento interno, renegociar de acordo com os nossos interesses a dívida interna e externa, centralizar o câmbio, ter o Banco Central sob controle como instrumento de política de governo, enfim assuntos fundamentais para se começar a pensar um projeto de desenvolvimento nacional autônomo.

Diante dessa magnitude pode surgir o questionamento: há espaços para atitudes soberanas do Brasil na conformação atual do mundo? A visão imediata observa que o mundo é vasto e contraditório, portanto passível de recriação. Nesse sentido há espaço para um Brasil melhor desde de que haja uma consciência nacional de soberania traduzida em Projeto; que sejam trabalhadas de forma competente as contradições interimperialistas que assumem outro patamar diante da crise atual do capitalismo; que sejam usados, com trunfo e base de desenvolvimento sustentável, todo o potencial energético e natural, a diversidade da economia, o mercado interno, o tamanho do país, a força e a inteligência do nosso trabalhador, o acúmulo científico etc. Sem cair na autarquia e no ufanismo parece que o Brasil vai além da Coréia e da Tailândia, que assumiram posições mais autônomas diante do FMI.
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Érico de Albuquerque Leal é membro do Comitê Estadual do Pará.

 

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