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A
esperança que venceu o medo precisa se
transformar em lume na escuridão e se
amarrar no mastro da vela inflada pelos
ventos das mudanças; olhar de frente o
monstro que emite cantos indutores da
morte, e vencê-lo.
Ainda
vivemos dias de expectativas e
ensinamentos. A eleição de Lula é um
marco significativo do movimento
progressista protagonizado pelo povo
brasileiro, só possível com o salto
qualitativo no pensamento político das
forças mudancistas, que sabiamente
souberam trabalhar as contradições
devidamente acirradas pela aplicação do
projeto neoliberal durante uma década.
Sem dúvida, o cerne dessas
contradições é o grande privilégio
auferido durante esse período pelo
capital financeiro em detrimento da
produção, do emprego, dos direitos
sociais, enfim da vida, o que possibilitou
juntar uma maioria nunca vista em processo
eleitoral. É importante que se diga, que
consciente ou inconscientemente essa
maioria votou contra o resultado nefasto
da política econômica do governo FHC.
O
novo governo se instala enfrentando uma
aguda crise, provocada pela cada vez maior
dependência do país ao capital externo,
que afeta profundamente a sociedade e a
soberania, porque freia o crescimento,
desestrutura a produção industrial e
desnacionaliza a economia, em ritmo
frenético rumo ao neocolonialismo. Toda lógica do pensar e do agir está no
sentido de servir ao Império e tudo foi
moldado e deve ser mantido para esse fim.
Portanto, apesar da necessária cautela,
desarmar as armadilhas e desfazer as
proteções neoliberais, limpar as
estrebarias é condição de mudanças,
mesmo que aparentemente nesse momento as
coisas pareçam estar sob controle.
O
novo governo se encontra entre a
necessidade de mudanças, a novidade de
governar um grande país e a sedução das
elites. Emite sinais positivos, destacando
a marca democrática e a posição
soberana no campo internacional com
visibilidade das contradições
existentes, que podem ser usados como
meios facilitadores no processo das
mudanças. Entretanto, ainda não enfrentou
o centro do problema pelo qual foi eleito:
desmontar a política econômica
neoliberal. Contraditoriamente a mantém,
sem maiores sinalizações de mudança de
rumo.
Por
outro lado, entendemos que a vontade de
mudar da maioria do povo está ancorada em
uma necessidade objetiva de
desenvolvimento ao considerar os efeitos
da crise, o nível da economia, a
diversidade do parque industrial, o
tamanho e a população do país. É
preciso dar curso ao desenvolvimento das
forças produtivas para que supram as
necessidades e expectativas do mercado
interno e dêem suporte à complexidade da
estrutura econômica brasileira sob pena
de maiores desintegrações ou outras
formas mais subalternas. É preciso ler o
Brasil para encontrar a saída sem as
lentes do imperialismo. Nesse sentido,
além da construção de uma maioria
faz-se necessário esculpir uma vontade
política por mudanças no núcleo
hegemônico do governo, sob a ótica
popular.
Tal
tarefa exige romper as barreiras
subjetivas que existem e persistem. O
Partido hegemônico no governo, embora
tenha avançado politicamente, denuncia a
origem através da ausência de nitidez e
unidade nos objetivos, o que dificulta um
maior protagonismo na formulação de um
projeto nacional; é suscetível a
pressões que tomam maiores dimensões
considerando o medo que tem de
desestabilização; manifesta no seu
núcleo duro a secular ilusão de que as
leis econômicas do capitalismo são
intocáveis, tendendo a abrir mão dos
instrumentos necessários para promover o
desenvolvimento do país. Parece que o
neoliberalismo ainda mantém cativos
corações e mentes.
Objetivamente
basta olhar a tragédia nacional e
perceber que o receituário atual é
veneno puro e que o antídoto são medidas
que levem ao crescimento. Obviamente que
não haverá crescimento sem enfrentar o
capital financeiro e retomar a
consciência da importância do Estado na
reconstrução do País. Tarefas difíceis
que exigirão o calor dos movimentos
sociais quando o assunto for: mexer com os
lucros dos bancos, baixar necessariamente
os juros, taxar o capital volátil,
transformar a maior parte do lucro das
multinacionais em incremento interno,
renegociar de acordo com os nossos
interesses a dívida interna e externa,
centralizar o câmbio, ter o Banco Central
sob controle como instrumento de política
de governo, enfim assuntos fundamentais
para se começar a pensar um projeto de
desenvolvimento nacional autônomo.
Diante
dessa magnitude pode surgir o
questionamento: há espaços para atitudes
soberanas do Brasil na conformação atual
do mundo? A visão imediata observa que o
mundo é vasto e contraditório, portanto
passível de recriação. Nesse sentido
há espaço para um Brasil melhor desde de
que haja uma consciência nacional de
soberania traduzida em Projeto; que sejam
trabalhadas de forma competente as
contradições interimperialistas que
assumem outro patamar diante da crise
atual do capitalismo; que sejam usados,
com trunfo e base de desenvolvimento
sustentável, todo o potencial energético
e natural, a diversidade da economia, o
mercado interno, o tamanho do país, a
força e a inteligência do nosso
trabalhador, o acúmulo científico etc.
Sem cair na autarquia e no ufanismo parece
que o Brasil vai além da Coréia e da
Tailândia, que assumiram posições mais
autônomas diante do FMI.
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Érico de Albuquerque Leal é membro do
Comitê Estadual do Pará.
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