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O documento-base das discussões para a
9ª Conferência destaca a dimensão
histórica da vitória de Lula para
presidente da República, e o revés que
esse acontecimento representa para a
agenda programada pelo imperialismo e a
oligarquia financeira para a América do
Sul. As novas condições criadas exigem a
adoção de uma nova tática política,
cujo norte estratégico consiste em
laborar para a vitória do programa
mudancista, democrático,
nacional-desenvolvimentista, conduzido
pelo novo governo.
A implementação da nova tática se dá
numa realidade complexa e desfavorável.
No plano internacional, o contexto é
marcado pela dominação hegemônica dos
Estados Unidos, com uma política
imperialista agressiva que objetiva
construir uma estrutura unipolar de
comando abrangente do capital, e pela
crise sistêmica do capitalismo, expressa
pelo longo ciclo de crescimento
raquítico, ou de retração, que atinge
os países capitalistas centrais.
No plano nacional, a herança de oito anos
de FHC, deixou a economia brasileira com
uma extremada vulnerabilidade externa,
associada a uma crise estrutural, e um
conjunto de problemas emergenciais, ou
armadilhas, como: a asfixia cambial,
decorrente das chamadas incertezas do
mercado frente ao novo governo; a
aceleração inflacionaria desde setembro
passado; fragilidade fiscal, resultante da
acentuada indexação da dívida
mobiliaria federal à taxa de câmbio;
juros estratosféricos, altas taxas de
desemprego, e crise do setor energético.
Na área social, o modelo neoliberal
excludente, agravou as condições de vida
do povo deixando como saldo a
desagregação do tecido social, cujo
maior exemplo é o domínio exercido pelo
narcotráfico de vastas camadas da
população. Do ponto de vista político,
apesar de derrotadas, as forças políticas
conservadoras mantiveram a maioria do
Congresso Nacional, dos governos
estaduais, controlam a mídia, o capital,
agências reguladoras, e o receituário
neoliberal, visto como único caminho
viável, tem profundas raízes. Portanto,
as novas correntes vitoriosas
não conquistaram o poder real de forma
plena. O governo Lula assume sem reunir
as condições necessárias para uma
ruptura imediata com o modelo neoliberal o
que implica na adoção de um processo de
transição. Deve-se destacar, ainda, a
inexistência de experiências
internacionais de transição bem sucedida
do modelo neoliberal.
Frente aos desafios da mudança,
compromisso da frente de centro-esquerda
que elegeu Lula, e das restrições
impostas pela realidade, os primeiros
meses do governo foram marcados por
relativo êxito. Em primeiro lugar, pela
garantia da governabilidade, que implicou,
de início, numa continuação da
política macroeconômica ortodoxa, uma
concessão à agenda neoliberal em face do
delicado momento de posse e montagem do
governo, e com o objetivo de desarmar as
armadilhas, herança dos anos FHC. Em
segundo lugar, pela reafirmação da
soberania nacional, através de uma
política externa independente, e ações
positivas no sentido de articulação de
um campo antineoliberal na América
Latina. Terceiro, pelo destaque às
questões sociais, configurado na
centralidade do programa Fome Zero.
Quarto, nas iniciativas de ampliação da
base política, com o objetivo de
construção de uma maioria institucional
que permita a aprovação das propostas do
governo.
Ultrapassada a fase de instalação do
governo, e colhidos os êxitos iniciais da
governabilidade, o PT, força amplamente
hegemônica dentro do executivo, através
do seu núcleo dirigente, tomou uma série
de iniciativas que ultrapassando as
características de medidas emergenciais,
isoladas e temporais, revelam fundamentos
e concepções que se implementadas, ou
aprofundadas (orientação econômica),
interferem nos rumos estratégicos do
governo Lula e no seu caráter mudancista.
O recente documento apresentado pelo
Ministério da Fazenda "Política
Econômica e Reformas Estruturais", o
envio ao congresso nacional das propostas
de reforma tributária e previdenciária, o
método de conceber tais políticas, sem
discussão com os aliados e o movimento
social organizado, e de reagir às suas
repercussões, tentando cercear o debate
com enquadramentos e ameaças, colocam na
ordem do dia a necessidade do
aprofundamento sobre as questões da nossa
tática política e a sua relação com o
nosso projeto estratégico.
O documento do Ministério da Fazenda,
"Política Econômica e Reformas
Estruturais", reafirma o diagnóstico
do pensamento neoliberal e do FMI, que
creditam a origem dos problemas
estruturais da economia brasileira aos
desequilíbrios fiscais, e definem como
objetivos fundamentais da política
econômica: a obtenção de elevados
superávits primários, a redução da
relação da nossa dívida pública com o
PIB e a redução da inflação. Pallocci, convertido à ortodoxia,
abandona os sólidos argumentos que
identificam no estrangulamento externo, e
na elevação dos passivos externo e
interno, os principais óbices ao
desenvolvimento da economia brasileira.
Rendendo-se à lógica rentista, a equipe
econômica resiste em baixar a taxa de
juros, deixa o cambio flutuando, e não
apresenta nenhum plano de desenvolvimento.
A confiança do mercado, e o seu bom humor
ditam, até agora, a política
macroeconômica do governo Lula.
As reformas, levadas com pompa ao
Congresso, apresentadas pelo núcleo
dirigente petista com a chancela dos
governadores, majoritariamente
conservadores e antimudancistas,
frustraram as expectativas de mudança. A
proposta de reforma da previdência,
contrariando todo consenso construído
pelo movimento popular e pelos partidos de
esquerda ao longo do enfrentamento com o
neoliberalismo, não tem a marca da
inclusão social, da preservação e
ampliação de direitos, não incorporando
sequer as contribuições resultantes da
arbitragem do próprio Conselho de
Desenvolvimento Econômico (CDES), criado
pelo governo. A sua premissa é o corte de
direitos, o viés fiscal, apresentada com
argumentos mistificadores, os mesmo
defendidos por FHC. A reforma tributária
não apresenta uma ampliação da base de
contribuição, continua privilegiando o
setor mais rentável do país, o setor
financeiro, e não muda a lógica da
penalização dos assalariados e dos
profissionais liberais. A apresentação
dessas reformas como condição sine qua
non para o desenvolvimento, além de não
ser uma expressão original, repete a
ladainha do governo passado, gera uma
falsa expectativa e desarma o país para
os verdadeiros desafios a serem
enfrentados. A esses acontecimentos,
soma-se a mea culpa feita pela cúpula
petista e pelo próprio Lula por terem
dificultado a aprovação das reformas
neoliberais de FHC. Até Margaret
Thatcher, um símbolo do conservadorismo
liberal, e suas reformas excludentes são
elogiadas pela pretensa
"eficiência" fiscal. O temor da
conversão petista, no governo, à
cartilha neoliberal — fenômeno ocorrido na
década de 80 com vários partidos ditos
socialistas e de formação
social-democrata assemelhada à corrente
majoritária do PT —, passou a sobressaltar
importantes setores.
Nesse delicado momento, surgem opiniões
que vêem nestes acontecimentos o
esgotamento do caráter mudancista do
governo Lula, e a configuração da
hegemonia dos segmentos continuístas. De
acordo com essa avaliação, deveríamos
passar a construir uma nova alternativa,
dado o esgotamento da possibilidade de
mudanças nessa experiência de governo.
Não compreendendo a correlação de
forças, a complexidade da conjuntura, e a
necessária luta para firmar a tendência
mudancista no governo e na sociedade, esse
posicionamento sectário põe como alvo
central o governo, a sua
desestabilização e a construção de uma
pretensa alternativa à esquerda. Tal
orientação fraciona os setores mais
avançados do movimento social, levando-o
ao isolamento, e facilitando a tarefa dos
segmentos conservadores de
"domesticar" o governo Lula e
de comprometer o seu êxito, cujas
conseqüências serão devastadoras para o
povo brasileiro.
Na
outra extremidade, perfilam-se aqueles que
sob o correto argumento de não existir,
hoje, outro caminho que melhor permita o
combate ao neoliberalismo e a construção
de um projeto nacional-desenvolvimentista,
senão através do governo Lula, advogam
um alinhamento automático com as
posições e propostas apresentadas pelo
núcleo dirigente do governo. Argumentam
que somos da base governista e em face da
correlação de forças e das restrições
conjunturais temos que garantir, a
qualquer preço, a vitória das teses
governistas. É apresentado o argumento
maniqueísta: ou o partido concorda com
as teses governistas e vota com o governo
ou rompe com o governo. O fantasma da
governabilidade exige, segundo essa
visão, um alinhamento automático com o
governo.
O
nosso objetivo estratégico é a
superação da política neoliberal e a
implementação do projeto alternativo de
caráter nacional-desenvolvimentista. Do
ponto de vista tático a nossa ação
persegue o êxito do governo Lula na
condução das mudanças, na realização
da transição do modelo neoliberal para o
novo projeto. Como a tática não pode ser
subordinada aos interesses transitórios
do momento, nem ter suas ações e
resultados avaliados, em si mesmo, ou seja
pelo seu efeito imediato, mas em função
da preparação dos êxitos estratégicos,
a ação do PCdoB, principalmente
propositiva e também crítica, deve
consolidar a perspectiva mudancista do
governo. A defesa do governo Lula se dá,
portanto, na medida em que ele reúne as
condições históricas de se constituir
no condutor das mudanças. Diferentemente
da concepção majoritária dentro do PT
—
que advoga a defesa cega do governo por
ser um governo do PT —, nossa motivação
está relacionada a um conteúdo político,
programático e estratégico; o movimento
não é tudo.
Nesse
contexto, marcado pelo confronto entre o
continuísmo e mudança, fora e dentro do
governo, a atuação dos comunistas com
independência, política e ideológica,
é fundamental. Para contribuirmos com a
afirmação do caráter mudancista do
governo Lula, e conseqüentemente
materializar o seu êxito, devemos
avançar na formulação de propostas que
expressem a nossa concepção de
transição. Neste sentido, é urgente a
elaboração das propostas do PCdoB de um
programa de desenvolvimento econômico
para o país. Termos posições firmes no
enfrentamento às propostas continuístas,
não por mero principismo ou reafirmação
ideológica, mas pelas inúmeras
demonstrações do desastre que
representaram para os governos que as
adotaram — não significa desestabilizar
ou mesmo enfraquecer o governo Lula. O
dilema maniqueísta, base governista
enquadrada ou rompimento, é falso.
Devemos lutar, nos estreitos corredores do
campo institucional e principalmente nas
amplas avenidas do movimento social, para
buscarmos posições comuns junto às
forças políticas mais avançadas para
que o governo Lula promova o avanço
econômico, social e político do país.
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Davidson Magalhães é secretário de
organização do Comitê Estadual da
Bahia.
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