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As
elites latifundiárias brasileiras ainda
pregavam, em pleno
nacional-desenvolvimentismo, a
"vocação agrícola" do Brasil.
Hoje, ouve-se um coro apontando como
saída para a estagnação econômica a
agroindústria (de exportação). Nesse
coro, destaca-se um Antonio Ermírio de
Moraes - empresário da transformação
mineral e, portanto, produtor de
matéria-prima, mas, de qualquer forma, um
industrial. Governos estaduais
amazônicos, como o do Pará, induzem o
cultivo de soja para exportação em
terras "degradadas" e o turismo.
Por outro lado, setores do empresariado,
particularmente industrial, desapontados
com a política neoliberal que ajudaram a
implantar, almejam retomar o crescimento
econômico centrado na industria e, para
isso, exigem alterações na política
macroeconômica seguida até agora, a
começar da redução dos juros. Outros
tendem a dar mais ênfase a um novo
"esforço exportador".
É
fato nesses primeiros meses de 2003 o
desencadeamento de debate nacional. Antes
imperava ideologicamente a ortodoxia da
verdade única neoliberal sob o rótulo de
"globalização". Estende-se
assim para o campo ideológico a luta
corpo-a-corpo travada durante o processo
eleitoral no campo político entre duas
tendências: a neoliberal e a mudancista.
Na base econômica, ainda leva vantagem a
tendência continuísta, impedindo uma
alteração da política macroeconômica
no sentido do rompimento com o
monetarismo. No terreno diplomático, a
política exterior soberana, altiva e
afirmativa de Lula cria uma das
condições fundamentais para a
construção de uma nova estratégia de
desenvolvimento nacional autônomo.
Está
em curso a luta por uma nova maioria
política. Se a maioria se constituir
apenas em torno do governo, pode
significar uma meia vitória. A fim de que
se criem condições de mudança, deve
formar-se um novo consenso em torno da
construção de um projeto democrático
nacional-desenvolvimentista de base
popular: salto qualitativo na luta pelo
poder, inversão na correlação de
forças.
O
PCdoB, enquanto portador efetivo do ideal
do socialismo científico, se destaca no
conjunto das opiniões circulantes pelo
maior alcance, amplitude e abrangência de
sua visão. Ainda não conheço os
resultados do seminário promovido em 12 e
13 de maio p.p. pelo PCdoB e PSB para
debater "O Governo da Mudança e o
novo modelo de desenvolvimento
nacional". As reflexões que me
atrevo a apresentar vêm madurando antes
desse seminário, mas estou escrevendo a
posteriori. Acredito que se enquadrem no
tema "As bases do novo modelo de
desenvolvimento nacional". Elas
destoam um pouco não do espírito da tese
"Um novo tempo...", mas,
especificamente, de passagens, como a do
parágrafo 25 que deixa dúvidas quanto à
seguinte questão: A "sinalização
de rota em termos concretos"
(indicação de "uma nova agenda com
objetivos e metas no prazo de vigência do
atual governo") significaria uma
restrição à concretude da "nova
estratégia nacional de
desenvolvimento"? Está em questão o
conceito (alcance e profundidade) da
estratégia e a relação entre esta e o
momento presente (tática).
É
evidente o caráter ideológico do projeto
político do Partido em pauta. O
presidente Rabelo, no artigo
"Crescimento econômico: o nó da
questão", afirma:
"E, do ponto de vista histórico, o
verdadeiro impasse brasileiro se situa na
dinâmica de um círculo periódico de
acumulação com endividamento
externo...". Uma ruptura com a
política neoliberal significa o
rompimento desse impasse, pois o
neoliberalismo é o padrão atual de
acumulação capitalista. O parágrafo 37
finaliza afirmando: "Vencer essa
orientação dominante do capitalismo
atual requer uma luta de dimensão
nacional e mundial que tem sentido
antiimperialista". A vitória do
programa mudancista abriria uma senda de
aproximação ao objetivo estratégico da
transição para o socialismo (§ 31), num
contexto mundial que impõe
"diferenciado e prolongado processo
de acumulação de forças " (§ 10).
É possível que apenas uma sinalização
nesse sentido, como uma pequena queda
administrativa na taxa de juros, crie uma
nova conjuntura. Não ocorrem à toa as
divergências no interior do próprio
partido de Lula. Não é por motivos
pequenos que, por enquanto vá levando
vantagem na política econômica a
tendência neoliberal. Não seria de
estranhar - procuremos evitar isso - se
correntes majoritárias do PT recuassem
ainda mais da posição anterior, negada
no discurso, para uma nova versão,
"atualizada", do terceirismo ou
possibilismo (§ 54) cuja essência seria
um neoliberalismo mitigado, despojado de
qualquer veleidade "socialista",
diante do qual o Estado de bem-estar
social parece um paraíso.
Por
isso, causa alguma estranheza a expressão
encontrada no § 29: "financiamento
de um novo ciclo de desenvolvimento".
Correlatamente, também "novo ciclo
político", expressão encontrada no
§ 32, apesar de a polêmica categoria
historiográfica "ciclo" não
conter em si a idéia de recorrência,
antes, uma vaga idéia de evolução
cronológica. O PCdoB já tem elaborado no
Programa Socialista um esboço, as linhas
gerais de uma estratégia de
desenvolvimento nacional que aponta para o
futuro e não para a recorrência de
ciclos, sejam eles "médios" ou
"longos", pois a era dos ciclos
está esgotada e o momento presente nos
abre a possibilidade concreta de lutar por
uma estratégia de desenvolvimento
sustentável, autônomo, que não fique à
mercê das ondas emanadas do chamado
"centro dinâmico do
capitalismo". O § 22 inclui entre os
fatores que podem fortalecer as pressões
para o continuísmo a "ausência de
uma convicção estratégica
transformadora". Parte fundamental da
tática, a construção dessa estratégia
constitui bandeira tanto mais mobilizadora
e aglutinadora quanto mais for avançada e
científica, fincada na realidade
concreta, pois está em jogo o
desenvolvimento das forças produtivas e
das relações de produção.
Temos
que pensar grande, na proporção de sua
grandeza, o Brasil, chamado a engrossar o
campo antiimperialista, e o Partido.
Num
rápido olhar vemos, ao lado da
agricultura e da agroindústria, a maior e
mais diversificada biota do planeta, cuja
maior parte concentrada na Amazônia atrai
cobiça, abrindo um flanco correspondente
a 3/5 do território ao assédio
imperialista contra a soberania nacional.
Vemos a lei de patentes, a biopirataria, a
impotência do Estado frente à pressão
de uma "Monsanto" com seus
transgênicos sobre os quais o mundo não
consegue emitir um laudo definitivo. Vemos
a reforma agrária emperrada, enquanto
persiste a sanha dos latifundiários
grileiros de terras, predadores dos
recursos naturais e antipreservacionistas,
cuja ideologia ainda permeia a sociedade
brasileira. Vemos o povo brasileiro sob a
tirania da industria farmacêutica
transnacional. Por outro lado, somos
informados dos êxitos nacionais nas
diversas áreas da biociência e
biotecnologia, assim como na medicina.
Por
enquanto, as propostas sobre a perspectiva
de crescimento, quando não são
genéricas, presas às formas de superar
as limitações herdadas do governo
anterior, são fragmentadas, setoriais,
unilaterais. Assim é que se ouvem vozes
denunciando o financiamento externo
suspeito de pesquisas biotecnológicas
efetuadas por ONGs e empresas e até mesmo
pela Embrapa; chamando a atenção para
alguns aspectos da importância da
biotecnologia e da bioindustria.
Quanto
mais analiso, mais me convenço de que o
Brasil deve caminhar por aí para
encontrar seu futuro. A biotecnologia de
ponta em seu conjunto deve ser colocada no
centro da nova estratégia nacional de
desenvolvimento, constituindo-se em
carro-chefe de toda a atividade produtiva;
em centro gravitacional
dinâmico,aglutinador, integrador; em
eixo, fio condutor e indutor, elo de uma
cadeia. Todo esse dinamismo não se fará
sentir, diretamente, apenas no crescimento
econômico, mas terá implicações
diretas favoráveis às forças populares
na esfera ideológica, na luta
antiimperialista, na defesa da Amazônia e
do território nacional, na execução da
reforma agrária antilatifundiária, na
preservação ambiental, etc. Atenderá a
anseios e a necessidades diversas, como os
da população e "povos da
floresta"; e incorporará projetos
já existentes, alguns em execução, como
as reservas extrativistas, os pertinentes
à produção de alimentos e agricultura
familiar. A lista não tem fim. O país
terá que recuperar seu atraso na
microeletrônica e terá que avançar mais
na tecnologia aeroespacial. Terá na
biomassa uma fonte energética
praticamente inesgotável...
Caberá
ao Estado - reconstruído em novos moldes,
sem os arcaísmos, moderno, democrático -
a coordenação, articulação, indução
do processo em toda sua amplitude. Em
longo prazo seria alcançada
autosustentabilidade graças ao valor
agregado, em maior ou menor escala, a uma
gama imensa de produtos. De início, além
das fontes de financiamento previsíveis,
disporia de recursos da exportação
agroindustrial, por exemplo, setor a cujos
produtos tem agregado e continuará
agregando valor numa escala crescente.
Apesar do alto custo desse ramo produtivo
em termos de recursos naturais: água,
solo (minérios), energia em geral (não
só a solar), a grande quantidade de bioma
(biodiversidade) destruída na abertura
das terras, etc.
O
PCdoB tem autoridade no assunto, objeto de
atenção e estudo no interior do partido.
Tem estado à frente da luta contra a
biopirataria (denúncias, CPI,
legislações estaduais...).
Um
planejamento estratégico de
desenvolvimento nacional, na medida que
exige amplitude de visão e conhecimento
da realidade, potencializa as
possibilidades de avanço em todas as
frentes de luta (teórico-ideológica,
política, social, de construção
partidária) e fortalece a dimensão
científica da consciência socialista ao
conferir-lhe maior abrangência e
acuidade.
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Paulo Marcomini é militante do organismo
de base da Região dos DICs - Campinas/SP
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