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Nosso
Partido tem se caracterizado pela defesa
na Nação e da Democracia. Quero
enfatizar a relação histórica entre
elas. E também a relação de ambas com o
Estado Nacional que, por sua vez, é o que
garante os Direitos Sociais.
Antes,
uma breve referência histórica. As
Nações e os correspondentes Estados
Nacionais tiveram, e têm, formação
histórica distinta. Uma primeira leva
surgiu na Europa tendo como objetivo
fundamental libertar a sociedade das
travas e privilégios feudais. Portanto,
os Estados Nacionais surgidos e
consolidados nessas condições,
representavam os interesses de quase toda
a sociedade. E mais, tinham que
forçosamente evoluir para Sistemas de
Governo que possibilitassem cada vez maior
participação da população. Esta leva
está datada: inicia-se no século XVII na
Inglaterra e se espalha pela Europa.
Em
suma, já que a tarefa primordial destes
Estados Nacionais era combater os
privilégios e travas feudais, a
Democracia acompanhava a evolução de
cada um deles. Evidentemente, nunca como
dádiva, mas fruto de inumeráveis
confrontos sociais.
Sem
realçar as enormes diferenças, quase
todos obedeceram a um certo padrão:
despotismo real, despotismo esclarecido,
democracia representativa elitista,
democracia representativa com voto
universal e, em alguns casos, chegando
até a chamada democracia participativa.
Ou seja, a Democracia (representativa com
votação parcial, representativa com
votação universal, participativa)
acompanhou a consolidação das Nações e
Estados europeus e nos EUA. Quanto aos
EUA, Marx já destacava em 1852 no seu l8
Brumário: "(...) em países de
velha civilização, com uma estrutura de
classe desenvolvida, com condições
modernas de produção, e com uma
consciência intelectual na qual todas as
idéias tradicionais se dissolveram pelo
trabalho de séculos - a República
significava geralmente apenas a forma
política da revolução da sociedade
burguesa e não sua forma conservadora de
vida, como por exemplo, nos Estados Unidos
da América."
É
certo que a Democracia no estilo
anglo-americano enfatizava o direito
individual, enquanto no estilo francês
europeu era enfatizado o direito social.
Contudo, o capitalismo, que passava assim
a ter melhores condições para seu amplo
desenvolvimento, possibilitou que essas
Nações criassem um vasto sistema
colonial.
Isso
fez com que, nas primeiras décadas do
século XIX, a segunda leva na formação
das Nações e dos Estados Nacionais fosse
compelida a não ser concluída. Isso
ocorre basicamente na América Latina. A
independência de vários países do
domínio da Espanha e Portugal foi
realizada de tal maneira que facilitou o
domínio da Inglaterra embora de maneira
diferente, digamos assim, semicolonial.
Uma
terceira leva do surgimento de Nações e
Estados Nacionais ocorreu após o término
da 1ª guerra mundial indo até a
emancipação do Vietnã.
Ora,
tanto aos países da segunda como da
terceira leva não se tratava
primordialmente de livrarem-se das travas
feudais e sim do domínio colonial.
Incluindo aqui os diversos países de
forte presença islâmica. J.L Fiori,
quantificou, em aula recente, umas 20
nações na 1ª leva, outras 20 na 2ª e
mais de 140 na 3ª, que vêm desde o fim
da 1ª Guerra Mundial.
Aliás, o Imperialismo, agora hegemonizado
por uma potência, ao aguçar todas as
contradições do capitalismo, realça
esta nas condições atuais: a tendência
a suprimir a soberania das Nações,
enfraquecendo ou reconstituindo à sua
maneira, os Estados Nacionais.
O
que é uma Nação?
Julgamos
necessários alguns elementos
fundamentais. Dentre eles destacamos:
a)
Unidade de idioma: este tem sido um
elemento decisivo na formação das
nações. Aqui avultam o papel de Camões
para Portugal, Cervantes para a Espanha e
Shakespeare para a Inglaterra. Podemos
admitir nações que falem mais de um
idioma, mas a regra geral, que vai
infundindo identidade nacional, é a
unidade de língua, de idioma.
b) Unidade territorial: esta é outra
característica sem a qual dificilmente
pode haver uma Nação. Falar o mesmo
idioma em determinado território cria
laços culturais, identidades, que vão
soldando o que podemos chamar de
sentimento nacional.
c) Unidade econômica: esta é a própria
garantia dos anteriores e,
simultaneamente, desenvolve-se com eles.
Sem conexão coesão econômica
dificilmente pode haver unidade
territorial. Aliás, esta é a base das
fronteiras e dos impostos. Fronteiras e
impostos são a garantia da sobrevivência
do Estado Nacional.
d) Unidade cultural e psicológica:
evidentemente, frutos de um certo processo
histórico, falar o mesmo idioma, em
determinado território que possui
conexão econômica, vai forjando uma
unidade cultural e psicológica típica,
característica de determinada Nação.
Mas ainda, determinadas expressões
artísticas vão surgindo e se
consolidando nesse processo.
e) Soberania: este é um elemento novo,
imposto pelas condições do capitalismo
no século XX, notadamente neste início
de século XXI. Durante os anos noventa
estava em moda a globalização. Muitos
afirmavam que a chamada questão nacional
estava ultrapassada. Parecia- nos, com
base na dialética, que a conclusão era
oposta. A atual globalização, ainda mais
com hegemonia única, atualiza, reafirma
em bases novas, o problema nacional. Desde
lá, revisitando os diversos conceitos de
Nação, deparamo-nos com a ausência
deste: soberania.
A
Nação surge e se desenvolve com a
burguesia. O Estado não, surge quando da
divisão social do trabalho e em
decorrência a divisão da sociedade em
classes sociais.
É uma constatação histórica de que,
algumas nações, em especial na América
Latina, foram forjadas pelo Estado
Nacional. Ou seja, um poder local que foi
demarcando seu espaço territorial.
De
um modo geral podemos considerar o Estado
como um instrumento para defender a
propriedade privada sobre os meios e
instrumentos de produção por parte de um
grupo, uma camada, uma classe social. Mas
WEBER tem razão ao afirmar que Estado é
o monopólio da força em determinado
território.
O
Estado Nacional surgiu como maneira de
suplantar o feudalismo na Europa. Vale
dizer, uma maneira de a burguesia de
vários países europeus, vencer as travas
feudais para permitir o pleno
desenvolvimento do sistema capitalista de
produção.
Nesse
sentido, como também os cientistas
sociais datam o surgimento da Democracia
(excetuando a Grega), como tendo início
no século XVIII na Europa e América do
Norte, é evidente que a relação entre
Estado Nacional e Democracia é que o
primeiro é o fiador, o mantenedor da
segunda.
Mas
o Estado Nacional na Inglaterra e França,
consolidou-se como fruto de revoluções,
e nos EUA de uma guerra revolucionária
pela Independência. Historicamente este
foi o berço, o leito, da existência da
Democracia.
E
nas outras partes do mundo? Penso que na
América Latina, de maneira geral, a
tentativa de construir um Estado Nacional
em diversos países, tinha como objetivo
livrar-se do domínio luso-espanhol. Já
na África, estes Estados Nacionais tinham
como objetivo livrar-se do jugo
europeu-americano. E na Ásia também, com
o detalhe de que o Japão, assim que se
livrou do domínio europeu, sobretudo
Russo, e desenvolveu-se rapidamente como
Nação Independente e Capitalista,
também tentou subjugar outras nações.
Portanto, na Ásia, de maneira geral, os
Estados Nacionais que ali se consolidaram
tinham como objetivo livrar-se, assim como
na África, do domínio colonial europeu.
Isso
acrescenta um detalhe importante ao
problema nacional e sua relação com a
Democracia. Apenas na Europa o Estado
Nacional se formou para vencer o
feudalismo e portanto, ao acabar com os
privilégios, existentes neste sistema
(origem familiar, influência religiosa)
aplainava o terreno para formas de governo
democráticas.
Portanto,
enquanto na Europa a construção dos
Estados Nacionais visava sobretudo a
livrar das travas feudais, a Democracia
surgia como uma forma eficaz de governo.
Nas demais regiões do globo o objetivo
maior na formação dos Estados Nacionais
era livrar-se da dominação estrangeira.
Seja
como for, a Democracia (nas formas:
representativa restrita, representativa
universal, participativa, popular, ou
combinando-as), foi em toda parte como
forma de governo, dentro de um
território, dentro de uma Nação.
Aprofundando
mais o conceito de Estado Nacional,
poderíamos acrescentar ao monopólio da
força em seu território, o monopólio na
cobrança de tributos de seus habitantes e
do destino deles. Mais, a necessidade de
possuírem uma Constituição, à qual
estão obrigados todos os habitantes da
Nação. Aliás, a primeira Nação a
possuí-la, inclusive com o nome pomposo
da Carta Magna, foi a Inglaterra e fruto
da conhecida Revolução Gloriosa.
Na globalização atual, poucos Estados
Nacionais têm a Soberania de possuírem
uma Constituição que possa ser cumprida
por seus governos. No mais das vezes
funciona uma espécie de invisível
Constituição supranacional. Uma das
evidências desta situação é o
terrível mecanismo da dívida externa. A
Constituição de muitos países já
destina a tributação para determinadas
áreas (como é o caso da do Brasil).
Ocorre que, primeiro têm que ser pagos os
juros e uma parte do principal da dívida
(sem entrar no mérito de que muitas
delas, incluindo a do Brasil, não
passaram por uma auditoria mais elementar
e, neste sentido, já foram pagas mais de
uma vez, pois a base sobre a qual incidem
os juros cumulativos é irreal).
Em
resumo, os governos de vários países
primeiro obedecem a normas que não estão
previstas em suas Constituições e depois
ao que elas dispõem.
Mas
uma Nação cujo Estado não tem sobre seu
território nem o monopólio da força,
nem do destino da tributação pode ser
considerada como tendo todos os
componentes necessários para sua
existência? É evidente que não.
Portanto esta é a principal tarefa que
nos aguarda: reconstruir o Estado Nacional
em condições tais que possa garantir a
Plena Soberania da Nação. E isto,
certamente, exige uma Democracia mais
completa que aquela conhecida na Europa.
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José Vieira Loguercio é membro do
Comitê Estadual/RS.
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