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No
berço da civilização, os Estados Unidos
mostram-se tão competentes para destruir
quanto ineptos para reconstruir.
Por
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
para a revista "Carta Capital"
Na
segunda-feira, 14 de abril, a ocupação de
Tikrit completou a invasão do Iraque e
encerrou, no 26º dia de combate, a etapa
da guerra convencional. Desta vez, não se
pôde mostrar as já costumeiras cenas de
iraquianos que aplaudem as tropas de ocupação,
ajudam a derrubar os onipresentes retratos
e estátuas do ditador deposto e
participam da pilhagem ao próprio país.
A população dessa cidade, berço de
Saladino e Saddam Hussein, é árabe e
sunita, sem minorias étnicas e religiosas
significativas. É uma comunidade étnica
e religiosamente homogênea, que sabe
quanto tem a perder com o caos.
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Terceira
via.
Vinte
mil cidadãos de Nassiriya dizem não a
Saddam e aos EUA
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No
resto do Iraque, porém, rancores étnicos
e religiosos, exacerbados por 12 anos de
sanções e uma invasão catastrófica,
devastam o que havia sido poupado pelos
anglo-americanos. Em Mosul e Kirkuk, a
minoria curda tenta resgatar sua parte na
dívida social com o saque de
universidades, bancos e hospitais.
Em Basra e Bagdá, são os xiitas — numericamente majoritários, mas
socialmente subordinados há séculos — que aproveitam a oportunidade para pilhar
e destruir o que vêem como patrimônio da
elite sunita e cristã, não da nação.
É o rancor dos excluídos das metrópoles
brasileiras que picham monumentos e
destroem orelhões e escolas públicas,
mas multiplicado por mil pela indiferença,
se não cumplicidade, do poder ocupante.
O mais vergonhoso foi o saque de hospitais
desesperadamente necessários, que deve
ter custado um número incontável de
vidas a iraquianos de todas as etnias.
Ainda mais simbólico, porém, foi a
destruição do museu de Bagdá. A multidão
não só levou tudo o que lhe parecia ter
valor, como destruiu sistematicamente os
itens que julgou não valer a pena
carregar.
Eram insubstituíveis peças arqueológicas
da antiga Mesopotâmia, que incluíam
vastas coleções de tábuas cuneiformes
ainda não estudadas. Teriam contado inúmeros
segredos sobre a origem da civilização,
mas agora seus cacos se tornaram atestados
mudos da mais pura barbárie.
O tenente-coronel e historiador militar
texano T. R. Fehrenbach, ao escrever sobre
a Guerra da Coréia (na qual comandou um
batalhão), explicou por que unidades
norte-americanas preferiram arrasar cidades e
aldeias – junto com boa parte da beleza
e da história da Terra da Manhã Calma
– com canhões e bombardeiros, em vez de
tomá-los com homens e baionetas, como
fariam os europeus:
– Para americanos, carne, sangue e vidas
são mais preciosos que paus e pedras, não
importa como estes tenham sido ajuntados.
Para tomar o Louvre de um inimigo que o
defendesse, um comandante americano
inquestionavelmente o explodiria ou
queimaria sem hesitar, se isso salvasse a
vida de um de seus homens. Ao fazer isso,
estaria em completo acordo com a ética e
os ideais norte-americanos.
Carne, sangue e vidas de norte-americanos,
bem entendido. O fotógrafo Laurent Van
der Stockt, da revista "Time", testemunhou
pessoalmente a morte de 15 civis em dois
dias na periferia de Bagdá, apenas por
passarem perto demais de fuzileiros
estressados. Em Mosul, populares que
jogaram pedras nos soldados que haviam
hasteado a bandeira dos EUA no palácio do
governo (e no governador auto-nomeado que
discursava para saudá-los) foram punidos
com um banho de sangue: pelo menos 12
foram mortos por bombas e tiros de fuzil.
Mas não era preciso arriscar vidas norte-americanas – e se poderia ter salvo
muitas vidas iraquianas – se alguns dos
fuzileiros que matavam o tempo a jogar
baralho tivessem sido destacados para
proteger os hospitais, os museus e as
universidades mais vitais para o presente
e o futuro do Iraque. Como se fez com os
depósitos de munições, arquivos da polícia
política e poços de petróleo, cujos
valores éticos a filosofia texana não põe
em dúvida.
Tratou-se de “dividir para governar”?
De desunir e enfraquecer o país, de
deixar seu povo e seu futuro ainda mais
dependentes da mediação e do socorro dos
anglo-americanos? E, de quebra, gerar mais
alguns bilhões de dólares em contratos
de reconstrução a ser pagos com o petróleo
do Iraque?
Ou foi pura incompetência? Já em 24 de
janeiro, um manifesto de historiadores
especializados na ocupação
norte-americana do Japão previu o que ia
acontecer: milhares de civis mortos e
aleijados, destruição dos serviços
sanitários e hospitalares, explosão de
conflitos étnicos e religiosos. Advertiu
Bush de que estava completamente
despreparado para repetir a história,
mesmo como farsa.
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Líder.
Também
os iraquianos que
pediam a cabeça de
Saddam querem um
patriota no seu lugar
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Quando
Hirohito se rendeu, milhares de civis
norte-americanos haviam se preparado para
a ocupação com dois anos de estudos de língua
e história japonesas e um ano de curso
intensivo de administração civil. Tinham
um projeto sério para democratizar o país
e reconstruí-lo economicamente. Contavam
com a cooperação do imperador e da
burocracia local e com a legitimidade
conferida pelo consenso dos Aliados e dos
países vizinhos, agredidos pelo Japão.
Nada disso se vê no Iraque. Entre os 3
mil fuzileiros que ocuparam Tikrit, não
havia um só intérprete. Os funcionários
do governo deposto desapareceram, suas
casas foram saqueadas e incendiadas. O
governo Bush começou a pensar em uma nova
administração em janeiro, quando nomeou
seu vice-rei, o general Jay Garner. Cujos
laços com a direita israelense e com a
indústria bélica norte-americana fazem
dele o homem ideal para quem quer ver o
circo pegar fogo.
Colocou os pés pela primeira vez na nova
colônia na terça-feira, 15, para presidir
uma reunião de 80 líderes da dita oposição,
ao lado das ruínas de Ur dos caldeus. E
do enviado especial dos EUA: o afegão-americano
Zalmay Khalilzad, que até 1998 assessorou
a petrolífera Unocal em suas relações
com o Talibã e a ditadura indonésia e,
em 2001, organizou o governo de transição
do Afeganistão e nomeou seu atual
presidente: Hamid Karzai, outro ex-funcionário
da Unocal.
A reunião, realizada em uma tenda montada
dentro de uma base aérea ocupada pelos
norte-americanos, aprovou que o Iraque será
organizado como um “sistema democrático
federal”, um eufemismo para a divisão
do país entre caudilhos locais. Mas, do
lado de fora, 20 mil cidadãos da vizinha
Nassiriya a desafiaram com as palavras de
ordem “não aos EUA” e “não a
Saddam”.
São partidários da organização
religiosa xiita Hawza e do Conselho
Supremo para a Revolução Islâmica no
Iraque – os mais importantes grupos de
oposição a Saddam Hussein, apoiados pelo
Irã e hostis ao “grande Satã” de
Washington. Mas parecem ter grandes
possibilidades de vencer uma eleição
realmente democrática, se algum dia ela
ocorrer.
O candidato de Donald Rumsfeld e do Pentágono
é Ahmed Chalabi. Ex-banqueiro condenado a
22 anos por desfalque e malversação de
fundos na Jordânia, é um xiita rico,
moderado e pró-ocidental. Um perfil que,
apesar do que dizem os teóricos do choque
de civilizações, não chega a ser uma
contradictio in adjecto, mas também não
é muito representativo. Um homem que está
fora do país há 40 anos e é considerado
inepto e indigno de confiança até pelo
Departamento de Estado.
Os norte-americanos não têm muito tempo
para chegar a um acordo entre si sobre a
transição. Em Bagdá, cada dia mais
gente se aglomera em frente aos hotéis
dos jornalistas não para criticar o
governo, mas para pedir por um. Qualquer
um. Vinte por cento da cidade foi ocupada
por invasores, o restante continua
abandonado à própria sorte.
Os milhares de franco-atiradores que
emboscam tropas norte-americanas em ruas
escuras já preparam sua própria transição
para a guerra civil que já começa a se
esboçar. Mas Rumsfeld, agora, só tem
olhos para a Síria: já começou a rotina
de acusá-la de patrocinar o terrorismo e
de ter armas químicas, mesmo sem tê-las
encontrado em qualquer parte do Iraque.
Segundo o jornal britânico "The Guardian",
o secretário da Defesa encomendou planos
para invadi-la, mas Bush decidiu suspendê-los.
Não é provável que tenha se convertido
à paz a caminho de Damasco, mas pelo
menos hesita sobre a conveniência de começar
mais uma aventura antes de acabar as duas
últimas.
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