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Brasil, domingo, 5 de julho de 2009

27 de abril de 2003

DE BABEL À BARBÁRIE
A incompetência do Império para reconstruir o que destrói


No berço da civilização, os Estados Unidos mostram-se tão competentes para destruir quanto ineptos para reconstruir.

Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
para a revista "Carta Capital"

Na segunda-feira, 14 de abril, a ocupação de Tikrit completou a invasão do Iraque e encerrou, no 26º dia de combate, a etapa da guerra convencional. Desta vez, não se pôde mostrar as já costumeiras cenas de iraquianos que aplaudem as tropas de ocupação, ajudam a derrubar os onipresentes retratos e estátuas do ditador deposto e participam da pilhagem ao próprio país.

A população dessa cidade, berço de Saladino e Saddam Hussein, é árabe e sunita, sem minorias étnicas e religiosas significativas. É uma comunidade étnica e religiosamente homogênea, que sabe quanto tem a perder com o caos.

Chris Ison/AP

Terceira via.
Vinte mil cidadãos de Nassiriya dizem não a Saddam e aos EUA

No resto do Iraque, porém, rancores étnicos e religiosos, exacerbados por 12 anos de sanções e uma invasão catastrófica, devastam o que havia sido poupado pelos anglo-americanos. Em Mosul e Kirkuk, a minoria curda tenta resgatar sua parte na dívida social com o saque de universidades, bancos e hospitais.

Em Basra e Bagdá, são os xiitas — numericamente majoritários, mas socialmente subordinados há séculos — que aproveitam a oportunidade para pilhar e destruir o que vêem como patrimônio da elite sunita e cristã, não da nação. É o rancor dos excluídos das metrópoles brasileiras que picham monumentos e destroem orelhões e escolas públicas, mas multiplicado por mil pela indiferença, se não cumplicidade, do poder ocupante.

O mais vergonhoso foi o saque de hospitais desesperadamente necessários, que deve ter custado um número incontável de vidas a iraquianos de todas as etnias. Ainda mais simbólico, porém, foi a destruição do museu de Bagdá. A multidão não só levou tudo o que lhe parecia ter valor, como destruiu sistematicamente os itens que julgou não valer a pena carregar.

Eram insubstituíveis peças arqueológicas da antiga Mesopotâmia, que incluíam vastas coleções de tábuas cuneiformes ainda não estudadas. Teriam contado inúmeros segredos sobre a origem da civilização, mas agora seus cacos se tornaram atestados mudos da mais pura barbárie.

O tenente-coronel e historiador militar texano T. R. Fehrenbach, ao escrever sobre a Guerra da Coréia (na qual comandou um batalhão), explicou por que unidades norte-americanas preferiram arrasar cidades e aldeias – junto com boa parte da beleza e da história da Terra da Manhã Calma – com canhões e bombardeiros, em vez de tomá-los com homens e baionetas, como fariam os europeus:

– Para americanos, carne, sangue e vidas são mais preciosos que paus e pedras, não importa como estes tenham sido ajuntados. Para tomar o Louvre de um inimigo que o defendesse, um comandante americano inquestionavelmente o explodiria ou queimaria sem hesitar, se isso salvasse a vida de um de seus homens. Ao fazer isso, estaria em completo acordo com a ética e os ideais norte-americanos.

Carne, sangue e vidas de norte-americanos, bem entendido. O fotógrafo Laurent Van der Stockt, da revista "Time", testemunhou pessoalmente a morte de 15 civis em dois dias na periferia de Bagdá, apenas por passarem perto demais de fuzileiros estressados. Em Mosul, populares que jogaram pedras nos soldados que haviam hasteado a bandeira dos EUA no palácio do governo (e no governador auto-nomeado que discursava para saudá-los) foram punidos com um banho de sangue: pelo menos 12 foram mortos por bombas e tiros de fuzil.

Mas não era preciso arriscar vidas norte-americanas – e se poderia ter salvo muitas vidas iraquianas – se alguns dos fuzileiros que matavam o tempo a jogar baralho tivessem sido destacados para proteger os hospitais, os museus e as universidades mais vitais para o presente e o futuro do Iraque. Como se fez com os depósitos de munições, arquivos da polícia política e poços de petróleo, cujos valores éticos a filosofia texana não põe em dúvida.

Tratou-se de “dividir para governar”? De desunir e enfraquecer o país, de deixar seu povo e seu futuro ainda mais dependentes da mediação e do socorro dos anglo-americanos? E, de quebra, gerar mais alguns bilhões de dólares em contratos de reconstrução a ser pagos com o petróleo do Iraque?

Ou foi pura incompetência? Já em 24 de janeiro, um manifesto de historiadores especializados na ocupação norte-americana do Japão previu o que ia acontecer: milhares de civis mortos e aleijados, destruição dos serviços sanitários e hospitalares, explosão de conflitos étnicos e religiosos. Advertiu Bush de que estava completamente despreparado para repetir a história, mesmo como farsa.

Michael Macor/AP

Líder.
Também os iraquianos que pediam a cabeça de Saddam querem um patriota no seu lugar

Quando Hirohito se rendeu, milhares de civis norte-americanos haviam se preparado para a ocupação com dois anos de estudos de língua e história japonesas e um ano de curso intensivo de administração civil. Tinham um projeto sério para democratizar o país e reconstruí-lo economicamente. Contavam com a cooperação do imperador e da burocracia local e com a legitimidade conferida pelo consenso dos Aliados e dos países vizinhos, agredidos pelo Japão.
Nada disso se vê no Iraque. Entre os 3 mil fuzileiros que ocuparam Tikrit, não havia um só intérprete. Os funcionários do governo deposto desapareceram, suas casas foram saqueadas e incendiadas. O governo Bush começou a pensar em uma nova administração em janeiro, quando nomeou seu vice-rei, o general Jay Garner. Cujos laços com a direita israelense e com a indústria bélica norte-americana fazem dele o homem ideal para quem quer ver o circo pegar fogo.

Colocou os pés pela primeira vez na nova colônia na terça-feira, 15, para presidir uma reunião de 80 líderes da dita oposição, ao lado das ruínas de Ur dos caldeus. E do enviado especial dos EUA: o afegão-americano Zalmay Khalilzad, que até 1998 assessorou a petrolífera Unocal em suas relações com o Talibã e a ditadura indonésia e, em 2001, organizou o governo de transição do Afeganistão e nomeou seu atual presidente: Hamid Karzai, outro ex-funcionário da Unocal.

A reunião, realizada em uma tenda montada dentro de uma base aérea ocupada pelos norte-americanos, aprovou que o Iraque será organizado como um “sistema democrático federal”, um eufemismo para a divisão do país entre caudilhos locais. Mas, do lado de fora, 20 mil cidadãos da vizinha Nassiriya a desafiaram com as palavras de ordem “não aos EUA” e “não a Saddam”.

São partidários da organização religiosa xiita Hawza e do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque – os mais importantes grupos de oposição a Saddam Hussein, apoiados pelo Irã e hostis ao “grande Satã” de Washington. Mas parecem ter grandes possibilidades de vencer uma eleição realmente democrática, se algum dia ela ocorrer.
O candidato de Donald Rumsfeld e do Pentágono é Ahmed Chalabi. Ex-banqueiro condenado a 22 anos por desfalque e malversação de fundos na Jordânia, é um xiita rico, moderado e pró-ocidental. Um perfil que, apesar do que dizem os teóricos do choque de civilizações, não chega a ser uma contradictio in adjecto, mas também não é muito representativo. Um homem que está fora do país há 40 anos e é considerado inepto e indigno de confiança até pelo Departamento de Estado.

Os norte-americanos não têm muito tempo para chegar a um acordo entre si sobre a transição. Em Bagdá, cada dia mais gente se aglomera em frente aos hotéis dos jornalistas não para criticar o governo, mas para pedir por um. Qualquer um. Vinte por cento da cidade foi ocupada por invasores, o restante continua abandonado à própria sorte.
Os milhares de franco-atiradores que emboscam tropas norte-americanas em ruas escuras já preparam sua própria transição para a guerra civil que já começa a se esboçar. Mas Rumsfeld, agora, só tem olhos para a Síria: já começou a rotina de acusá-la de patrocinar o terrorismo e de ter armas químicas, mesmo sem tê-las encontrado em qualquer parte do Iraque.

Segundo o jornal britânico "The Guardian", o secretário da Defesa encomendou planos para invadi-la, mas Bush decidiu suspendê-los. Não é provável que tenha se convertido à paz a caminho de Damasco, mas pelo menos hesita sobre a conveniência de começar mais uma aventura antes de acabar as duas últimas.

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