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Brasil, quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Texto publicado em 8 de abril de 2003 

PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL
Velho e renovado companheiro da mudança

PCdoB completa 81 anos como partícipe relevante do novo ciclo histórico brasileiro


Luciano Siqueira*

O Brasil dos nossos dias impõe ingentes tarefas aos partidos políticos, em especial àqueles que tomam parte do novo governo federal e se batem pela superação do modelo neoliberal declinante por um novo projeto de desenvolvimento para o País, de cunho nacional e democrático. Esse processo de ruptura, que comporta período transitório cuja duração e resultado não se podem antecipar artificialmente, implica em acirrado entrechoque de interesses de classes — impondo, por isso mesmo, uma batalha de envergadura no campo das idéias. Faz-se necessário atualizar teoricamente a compreensão do Brasil — em sua inserção mundial e na sua dinâmica transformadora interna —, redefinir políticas públicas fundamentais, solucionar impasses programáticos e táticos dos movimentos sociais (sindical, estudantil, comunitário e outros) e percorrer novas trilhas no fortalecimento partidário.

O Partido Comunista do Brasil, participante ativo desse movimento, é chamado a encarar essas exigências como parte do seu próprio processo incessante e continuado de construção política, ideológica e organizativa. Reúne condições para tanto?

Certamente sim. O acúmulo teórico e político que vem conquistando, sobretudo a partir do início dos anos sessenta, confere ao PCdoB aptidões potenciais para contribuir sobremaneira para as mudanças pelas quais a sociedade brasileira se bate neste instante. Seja pela base científica em que se apóia — a teoria social marxista —, seja pela capacidade de enfrentar, com firmeza de propósitos e habilidade, os problemas táticos postos na ordem do dia.

Oito décadas de vida intensa

O PCdoB é o partido político mais antigo em atividade no Brasil. No próximo dia 25 completará oitenta e um anos de existência, fundado que foi em 1922. Essa longevidade é, por si mesma, uma façanha notável. Isto porque na tradição institucional brasileira — diferentemente de alguns dos nossos vizinhos, como Argentina e Uruguai, que dispõem de agremiações seculares — a regra tem sido a existência de partidos efêmeros, conjunturais, programaticamente frágeis. Desde o Império, passando pela República Velha e pelos períodos que se sucederam à Revolução de 1930 e à Redemocratização de 1946, até os dias atuais. O PCdoB tem sido a exceção, conforme assinalam Afonso Arinos de Mello Franco (em seu trabalho "História e Teoria dos Partidos Políticos no Brasil") e outros estudiosos.

Tal fenômeno certamente não é fruto de mero acaso. Tem suas razões. É que a existência desse partido corresponde a uma necessidade objetiva, expressão ideológica e política de uma classe - a dos proletários. Não fosse assim, não teriam os comunistas superado todo um cortejo de restrições legais, toda uma sucessão de impedimentos repressivos e toda uma parafernália de campanhas sustentadas através dos meios de comunicação no sentido de desacreditá-los perante a opinião pública e de estimular preconceitos e resistências contra o seu partido. No decorrer desses oitenta e um anos, só nos últimos dezessete é que os comunistas passaram a usufruir, por período mais prolongado, do direito constitucional de se organizarem legalmente como partido político.

Pensamento marxista próprio

Complexo e penoso tem sido, entretanto, o processo de afirmação do PCdoB, freqüentemente marcado por tremendos desafios teóricos e ideológicos. Como a partir de fevereiro de 1962, quando adota a sigla PCdoB — para distingui-lo política e ideologicamente de outra corrente, que passara a se constituir em nova agremiação, intitulada Partido Comunista Brasileiro (no lugar de do Brasil, como fora batizado em 1922), fruto de acirrada batalha de idéias sobre os rumos das transformações sociais no Brasil e no mundo, tendo como pano de fundo o confronto entre concepções teóricas e programáticas de caráter revolucionário versus social-democrata. E é nas últimas quatro décadas, conforme demonstra o historiador José Carlos Ruy, em estudo recente, que se consolida o seu amadurecimento, cuja expressão maior está no sentido avançado e ao mesmo tempo factível do projeto de sociedade que defende para o nosso País.

Além de corresponder a uma necessidade objetiva, determinada pelo conflito social — a da representação ideológica, política e orgânica do proletariado —, esse partido tem aprendido com a sua própria experiência, com a trajetória de lutas do povo brasileiro e com a evolução dos movimentos libertários no mundo. Tem amadurecido em meio às permanentes tensões determinadas pelos desafios teóricos, políticos e práticos - como as da atualidade. Seus êxitos e eventuais derrotas têm estado vinculados diretamente à sua capacidade de compreender as mutações que se têm processado na sociedade; da natureza dos vínculos que tem conseguido estabelecer com a sua base social; e do descortino e sagacidade com que se tem comportado nas diferentes situações políticas.
Nessa trajetória, o PCdoB tem revelado capacidade de construir um pensamento marxista próprio, "brasileiro", sintonizado com a feição específica de nossa sociedade.

Partido renovado, companheiro da mudança

De fato, o Partido Comunista do Brasil - PCdoB, que comemora os seus oitenta e um anos de fundação é, a um só tempo, um partido antigo e rejuvenescido; atualizado, adiante no seu tempo. Moderno, revolucionário e em vias de ganhar dimensão de massas. Respeitado não apenas pela sua presente participação no governo Lula e em governos estaduais e municipais (dentre estes últimos, destacando-se a cidade de Olinda, em Pernambuco, cuja prefeita, Luciana Santos, é uma militante comunista); pela sua presença expressiva nos movimentos sociais; por sua atuação competente no Congresso Nacional e nas casas legislativas estaduais e municipais; ou por ter inscritos em sua legenda mais de duzentos mil cidadãos e cidadãs, dos quais cerca de trinta mil desenvolvendo militância ativa. Mas, também, pelo Programa que submete aos demais partidos do campo progressista e ao conjunto da sociedade brasileira — que aponta para o rumo socialista concebido em bases científicas e adequadas às peculiaridades econômicas, sociais, culturais e políticas do nosso povo e do País. Uma referência indispensável à elaboração conjunta de uma estratégia capaz de conduzir a transição atual do neoliberalismo ao projeto nacional e democrático de desenvolvimento, sob o governo Lula.

Com efeito, trata-se, hoje, de encontrar a fundamentação teórica e técnica e a solução tática, administrativa e política, para desmontar a engrenagem jurídico-formal e econômico-financeira herdada dos governos anteriores; e redefinir o novo caminho capaz de retomar o desenvolvimento do País.

Daquele dia 25 de março de 1922 — em que lutadores que se aproximavam do marxismo, vindos de diversos lugares do País, após se reunirem em Niterói, registraram a sua organização sob a denominação de Partido Comunista do Brasil, no livro 3 do Registro de Pessoas Jurídicas do Cartório do 1º Ofício do Rio de Janeiro — aos nossos dias, mudaram o mundo e o Brasil.

Mudaram muito, desde outubro do ano passado, as condições de luta do povo brasileiro. Por isso, este aniversário é, para o PCdoB, um momento de ricas reflexões e de homenagem a inúmeros militantes, destacados ou anônimos, que dedicaram a vida à causa socialista. E de alegria pelo reforço das suas fileiras com o ingresso de novos combatentes. Mas é sobretudo um instante de afirmação da sua contribuição ao esforço conjunto dos partidos de esquerda e democráticos, e de personalidades e setores sociais progressistas, no sentido de levar ao êxito o governo Lula, concretizando a retomada do desenvolvimento; e elevando, através de uma práxis mais avançada, a consciência do povo brasileiro, condição si ne qua non do acúmulo de forças em função do projeto programático socialista.


*Luciano Siqueira é vice-prefeito de Recife

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