O Partido foi duramente perseguido, mas
quando conquistou espaço com a
redemocratização cresceu e apareceu para
amplas massas - assustando as elites
reacionárias e pró-imperialistas
Desde o golpe que instaurou o Estado Novo
em novembro de 1937 a atuação do Partido
Comunista do Brasil tornou-se bastante
restrita. Entre 1940 e 1941 a quase
totalidade dos dirigentes comunistas
estava na cadeia ou no exílio. Como
afirma Carone, "praticamente, o PCB
deixa de existir, não há mais nenhum
foco de agitação; o que subsiste
internamente são indivíduos comunistas,
presos e soltos, mas não o PCB como
organização". (Carone, O Estado
Novo, p.217)
Somente em julho de 1941, quando foi
iniciada a ocupação nazista ao
território da União Soviética, alguns
grupos regionais de comunistas começaram
um lento esforço de reorganização
partidária. A situação desfavorável
para a reorganização comunista começou
a se alterar a partir de 1942, quando
cresceu a campanha para que o Brasil
entrasse na guerra ao lado das forças
aliadas contra a Alemanha nazista.
No Rio de Janeiro o trabalho de
reorganização dos comunistas estava
bastante adiantado. Eles haviam formado a
Comissão Nacional de Organização
(CNOP). Esta comissão foi a iniciativa
mais consistente no sentido de recompor um
núcleo dirigente nacional para o Partido.
A CNOP carioca era dirigida por Maurício
Grabois e Amarílio Vasconcelos.
Existia também o chamado "grupo
baiano" formado por comunistas que
haviam se deslocado para São Paulo e Rio
de Janeiro visando reconstruir o Partido.
Graças ao trabalho de Diógenes Arruda
estabeleceu-se o contato entre os grupos
baiano e carioca. Isso permitiu
caminhar-se para a reconstrução de uma
direção central do Partido, através da
CNPO. (1) A esses dois grupos se
incorporaram os paraenses João Amazonas e
Pedro Pomar.
A articulação dos grupos baiano e
carioca organizados na CNOP conseguiu o
apoio político de Luis Carlos Prestes,
que estava preso. Esse apoio consolidou as
posições desse grupo que passou a se
constituir, de fato, na nova direção
nacional do Partido.
Nesse difícil processo de
reestruturação partidária, várias
opiniões divergentes se desenvolveram e
se confrontaram nos meios comunistas.
Todos os grupos estavam de acordo que se
devia concentrar ação política contra o
inimigo principal: as potências
nazi-fascistas e seus aliados internos, a
"quinta-coluna". Mas, existiam
divergências sobre a política a se
adotar internamente em relação ao
governo Vargas. Surgiram, basicamente,
três propostas conflitantes.
A primeira, defendida por um grupo
encabeçado por Fernando Lacerda, pregava
a União Nacional em torno do governo
Vargas e acreditava que a sua realização
plena passaria pela não reorganização
do Partido Comunista, pois poderia ser um
elemento que, na conjuntura,
desestabilizaria a tentativa de unidade de
todas as classes contra o nazi-fascismo.
Por isso passou a ser denominada "liquidacionista".
A segunda tese, advogada pelo grupo
paulista, liderado por Caio Prado Júnior,
defendia a União Nacional mas não em
torno do governo Vargas, que deveria
também ser derrubado. Segundo ele, os
comunistas deveriam articular a luta
contra o nazi-fascismo e a luta
oposicionista contra o Estado Novo. A
aliança principal deveria se dar com os
setores da oposição liberal.
A terceira tese, defendida pela CNOP,
era que o centro da tática deveria ser de
União Nacional, em torno do governo
Vargas, contra o inimigo principal
representado pelo eixo nazi-fascista e
seus aliados no país. Portanto não tinha
por que, naquele momento, fazer oposição
a um governo que encabeçava uma guerra
contra os inimigos principais do
proletariado e dos povos do mundo. O
problema do novo regime a ser estabelecido
deveria ser deixado para depois da guerra.
Os principais defensores desta tese eram,
dentre outros, Maurício Grabois,
Diógenes Arruda Câmara, João Amazonas e
Amarílio Vasconcelos.
A Conferência da Mantiqueira e a
União Nacional
A partir fevereiro de 1942 iniciaram-se
os ataques de submarinos alemães aos
navios brasileiros. Em março o governo
decretou Estado de Emergência e depois
aprovou o decreto sobre Indenização por
Atos de Agressão Contra o Brasil. Mas
isso foi considerado insuficiente pelos
comunistas e democratas. Era preciso
declarar guerra à Alemanha. O clima
esquentou e começaram as grandes
manifestações exigindo a participação
na guerra ao lado dos aliados. O governo
não pôde deter a maré antinazista.
No dia 22 de agosto Vargas decretava o
Estado de Beligerância e no dia 31 o Estado
de Guerra. Os comunistas brasileiros
defenderam então a formação de uma
força expedicionária brasileira para
lutar nos campos europeus. Em junho de
1943 o governo organizou a Força
Expedicionária Brasileira (FEB) e o Partido
orientou seus militantes a se apresentarem
como voluntários. A luta de massa
antifascista garantiu a ampliação dos espaços
democráticos e possibilitou a rápida
reorganização do Partido Comunista do
Brasil.
Nesse clima realizou-se em agosto de
1943 a II Conferência Nacional do Partido,
conhecida como Conferência da
Mantiqueira. Este foi o ponto mais alto do
processo de reorganização partidária e
deu finalmente ao Partido um centro dirigente
nacional. A Conferência caracterizou a guerra
mundial como uma "guerra de todos os
povos pelo esmagamento do fascismo, sob o
exemplo extraordinário da União Soviética
dirigidos por Stalin!". Os delegados
reunidos definiram o governo Vargas não
como um governo fascista pois "deles
participavam (...) homens que sinceramente
lutavam pela democratização do
país" e aprovaram a luta pela "união
nacional em torno do governo" e o
"apoio irrestrito à política de guerra
e ao governo que a realiza". (Prestes:
Os comunistas na luta pela democracia - Informe
ao 1º Pleno do CN do PCB de 7/8/1945)
Os comunistas no final do Estado Novo
No início de 1945 ganhou força a
campanha pela anistia. No dia 18 de abril
Vargas decretou anistia e libertou todos os
presos políticos. Em seguida decretou uma
ampla liberdade partidária, criando assim
a possibilidade do Partido Comunista se
constituir como partido legal e integrado,
com plenos direitos, à vida política
brasileira. Prestes finalmente livre deu uma
entrevista à Folha da Manhã afirmando:
"Desde logo o que podemos adiantar é
que os comunistas serão um esteio da ordem
e defenderemos a unidade nacional". (Folha
da Manhã de 27/4/45 in: Carone, A
terceira República, pp. 519-520)
No dia 23 de maio de 1945, no Rio de
Janeiro, o Partido realizou um comício
apoteótico no Estádio do Vasco da Gama
com a presença de 100 mil pessoas. No seu
discurso Prestes revelou um profundo
otimismo em relação à situação
internacional e brasileira. Para ele, a
aliança dos "três grandes" se
baseava "não em motivos acidentais ou
temporários, mas em interesses vitais e
permanentes" criando um novo período
histórico "de desenvolvimento
pacífico para os povos do mundo
inteiro". Baseando-se neste quadro
idílico, Prestes afirmou: "No mundo
inteiro os povos ficarão agora livres da
intervenção estrangeira nos seus
negócios internos e, assim sendo, o
imperialismo será moribundo e o capital estrangeiro
perde a sua característica mais reacionária
para se transformar em favor do progresso
e prosperidade para todos os povos".
Prestes expressou novamente o seu apoio a
Vargas e defendeu a sua permanência no cargo
até a promulgação da nova
Constituição e se colocou contra os setores
da oposição liberal que desejavam a
substituição imediata de Vargas como
condição necessária para realização
de eleições livres e para
democratização efetiva do país.
Em 15 de julho aconteceu o comício
em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, que
reuniu mais de 80 mil pessoas.
Em 7 de agosto de 1945 o Comitê Nacional
realizou sua primeira reunião pública fora
da clandestinidade, que seria denominada o
"Pleno da Vitória". Nele se
definiu como centro da tática comunista a
luta pela democratização do país e a
convocação de uma Assembléia Nacional
Constituinte. A eleição da Constituinte
era mais importante que as eleições
presidenciais, por isso chegou-se mesmo a
defender que o próprio Vargas devesse
convocá-la.
Os setores oposicionistas ligados às
elites não assistiram passivamente às
manobras de Getúlio visando garantir a
sua continuidade no poder. As causas
reais, e mais profundas, para o
crescimento da oposição conservadora foram
decorrência da mobilização "queremista",
promovida pelos partidários de Vargas.
Ela assustou parte da sua própria base de
sustentação, que temia qualquer tipo de
mobilização popular. Temiam mais do que
tudo a possível aliança que poderia se
forjar entre queremistas e comunistas. Foi
por esses temores que todos os setores das
oligarquias se unificaram contra Getúlio.
Em 29 de outubro de 1945, um golpe militar
depôs Vargas. No mesmo dia a sede nacional
do Partido foi cercada e ocupada pela polícia.
O jornal comunista Tribuna Popular foi proibido
de circular e os principais dirigentes
comunistas entraram na clandestinidade por
alguns dias. A repressão aos comunistas se
estendeu por todo o país. Mas a
repressão, logo se arrefeceu, a onda
democrática aberta após a derrota do
nazi-fascismo não mais poderia ser
facilmente estancada.
O Partido Comunista do Brasil na
legalidade
Em 3 de setembro o Partido Comunista do
Brasil solicitou o seu registro
provisório no Tribunal Superior Eleitoral
e para isso apresentou o novo programa,
que afirmava: "O Partido comunista do
Brasil, partido da classe operária
composto principalmente por trabalhadores,
luta pela conquista da completa
emancipação econômica, política e
social do Brasil."
Durante o processo de deliberação no
TSE ocorreram várias manifestações
reacionárias contra a legalização do
Partido. No entanto, o procurador geral
Hahnemann Guimarães, entendeu que "o
partido havia satisfeito as exigências
formuladas e concluiu pelo deferimento do
pedido". O voto do relator Sampaio Dória
também foi pela autorização do registro.
Por fim, o Partido apresentou ao TST uma lista
de mais de 13 mil filiados e no dia 10 de
novembro obteve o seu registro definitivo.
O crescimento do número de filiados
foi estrondoso: chegou a 50 mil no início
de 1945, ultrapassou os 100 mil no final
daquele ano, chegando a quase 200 mil em
1946. O Partido também organizava suas
bases. Foram constituídas 500 células
comunistas no Rio de Janeiro, 361 células
em São Paulo. Algumas dessas células
chegaram a organizar dois mil comunistas,
como as da Central do Brasil, Arsenal da
Marinha e dos servidores públicos da
Prefeitura do Rio de Janeiro.
O crescimento do Partido foi
impulsionado por um ousado trabalho de
propaganda inédito na história do
movimento operário e popular brasileiro,
e nesse período chegou a ter oito jornais
diários. O jornal A Classe Operária
voltava à luz do dia como órgão central
do Diretório Nacional do Partido
Comunista do Brasil.
A Constituinte de 1946
O presidente - que assumiu após o
golpe que derrubou Getúlio - José
Linhares convocou eleições para
formação de uma Assembléia Nacional
Constituinte e manteve a eleição
presidencial. O Partido, com poucos dias de
legalidade e de campanha eleitoral, teve uma
expressiva votação. O seu candidato à
Presidência da República, Yedo Fiuza,
conquistou 569 mil votos o que perfez
aproximadamente 10% dos votos. Prestes se
elegeu senador pelo Distrito Federal e o
Partido elegeu 14 deputados federais.
A bancada comunista eleita em dezembro
de 1945 teve destacada atuação no
processo constituinte. A primeira grande
polêmica foi sobre a questão da
manutenção ou não da Constituição
estadonovista de 1937 enquanto
transcorresse o trabalho constituinte. A bancada
comunista defendeu que, desde que se
instalara a Assembléia Nacional
Constituinte, a antiga Constituição de
37 deixava de existir.
Esta tese foi derrotada pela maioria
dos partidos conservadores. Desde a sua
instauração a Assembléia Constituinte
se subordinou passivamente aos ditames do
Poder Executivo, encabeçado pelo general
Dutra, tornando-se uma instância
subalterna e homologatória de decisões
já tomadas.
Os comunistas tentaram, sem muito
sucesso, alterar o projeto conservador
através da apresentação de centenas de
emendas; a quase totalidade indeferida ou
rejeitada. Diante da maioria conservadora
os comunistas tentaram realizar uma
mobilização popular em defesa de uma
Constituição democrática. Mas, o
governo Dutra proibiu a realização de
comícios.
A bancada comunista se colocou contra o
presidencialismo e propôs um sistema
misto com um Parlamento forte. O próprio
presidente deveria ser eleito pelo
Congresso Nacional. Derrotados quanto ao
parlamentarismo, os comunistas
apresentaram outras emendas exigindo que
todos os ministros fossem aprovados pelo
congresso e que o substituto legal do
presidente fosse o presidente do
congresso. Todas emendas matizando o
presidencialismo foram rejeitadas.
No entanto, foi na defesa dos direitos
sociais dos trabalhadores que a bancada
comunista mais se distinguiu,
diferenciando-se de todas as outras. Os
comunistas defenderam intransigentemente o
direito de greve e a livre organização
dos trabalhadores contra a maioria
conservadora da Assembléia e mais uma vez
seriam derrotados.
Quanto à questão do direito à
propriedade, os comunistas procuraram
relativizá-la e subordiná-la a outros
direitos e interesses. A emenda dos
comunistas, defendida por Caires de Brito,
afirmava: "É garantido o direito de
propriedade, desde que não seja exercido
contra o interesse social ou coletivo, ou
quando não anule, na prática, as
liberdades individuais proclamadas nesta
Constituição ou ameace a segurança
nacional". A bancada se colocou
também contra o artigo que previa o
pagamento prévio em dinheiro e pelo justo
valor das propriedades desapropriadas por
utilidade pública e interesse social.
Esta condição inviabilizaria qualquer
tentativa legal de realizar a reforma
agrária e urbana no Brasil.
A nova Constituição foi promulgada em
18 de setembro de 1946. Nas suas
disposições transitórias determinava a
realização de eleições para as
Constituintes estaduais. Nestas os
comunistas tiveram nova e surpreendente
vitória. O Partido elegeu 46 deputados
estaduais em 15 estados e no Distrito
Federal. Nas eleições suplementares para
a Câmara Federal, realizadas em São
Paulo, foram eleitos Pedro Pomar e
Diógenes Arruda, dois dos principais
dirigentes comunistas.
O fechamento do Partido e a
cassação dos mandatos
A mudança da situação internacional
com o surgimento da guerra fria trouxe
reflexos para a situação política
nacional. Aumentou a ofensiva conservadora
contra o movimento operário e popular,
particularmente contra o Partido
Comunista. O clímax da violência
policial contra os comunistas ocorreu no
dia 23 de maio de 1946, quando uma
manifestação realizada no Largo Carioca
foi duramente reprimida. Centenas de
pessoas ficaram feridas e cerca de 50
presas. Outro ato de violência policial
contra um comício na Esplanada do Castelo
ocasionou a morte da comunista Zélia
Magalhães. Repressão e mortes de
comunistas pontilhariam todo o governo
Dutra.
No final de agosto de 1946 os
estudantes do Distrito Federal organizaram
uma manifestação contra o custo de vida
que acabou se degenerando em
quebra-quebra. Suspeitou-se que o conflito
teria sido provocado por agentes da
própria polícia infiltrados. O chefe de
polícia rapidamente acusou os comunistas
pelo ocorrido. A sede do Partido foi
fechada e vários de seus dirigentes
presos. Estavam em pleno curso as manobras
e provocações no sentido de colocar na
ilegalidade o Partido Comunista do Brasil.
Um dos principais pretextos para a
cassação do registro do Partido
Comunista foi uma declaração em defesa
da URSS feita por Prestes em palestra
realizada numa associação de
funcionários e no plenário da
Assembléia Constituinte. Questionado em
plenário sobre uma possível ameaça de
agressão da URSS ao Brasil Prestes
afirmou: "no caso (...) de ser o
Brasil arrastado a uma guerra contra a
União Soviética, guerra que, do nosso
ponto de vista, só poderia ser guerra
imperialista - seríamos contra esta
guerra e lutaríamos da mesma maneira
contra o governo que levasse o país a uma
guerra dessa natureza". (Almino,
p.157) Esta declaração fez com que se
levantasse uma onda de protesto de todos
os setores conservadores da sociedade
brasileira. Para eles seria esta uma prova
definitiva de que o Partido Comunista do
Brasil não seria um partido nacional e
sim um satélite soviético e que
precisava ser fechado e reprimido.
O deputado Barreto Pinto (PTB) e
advogado Himalaia Virgulino entraram com
denúncia no TSE afirmando que o PCB seria
uma organização internacional orientada
pela URSS. Mais tarde em uma diligência
policial foi encontrada uma cópia de um
projeto de reforma do Estatuto do Partido.
Forjou-se então a tese de que o Partido
teria dois estatutos, um registrado no
cartório e outro ilegal, que de fato
regeria a vida do militante. O Ministério
Público pediria então a cassação do
registro do Partido.
No dia 7 de maio de 1947 o Tribunal
Superior Eleitoral, por 3 votos contra 2,
decidiu pela cassação do registro do
PCB. No dia 10 de maio o Ministro da
Justiça determinou o encerramento das atividades
do PCB em todo o território nacional.
Imediatamente as sedes do Partido foram
invadidas e fechadas pela polícia.
Mesmo após o fechamento do Partido, e
diante da iminência de cassação dos
mandatos comunistas, seu desempenho
eleitoral nas eleições municipais do
final de 1947 foi surpreendente,
especialmente nos principais centros
operários do Estado de São Paulo.
Na cidade de Santo André, os
comunistas elegeram o prefeito, Armando
Mazzo, e uma bancada de 13 vereadores em
uma Câmara de 31 cadeiras. No entanto,
menos de 24 horas antes da posse do novo
prefeito e da Câmara, o TSE enviou um
telegrama ao TRE paulista comunicando a
sua decisão de anular todos os votos
conseguidos pelos comunistas e se negando
a dar posse ao prefeito e sua bancada. Na
cidade de São Paulo os comunistas
elegeram 15 vereadores, a maior bancada da
Câmara Municipal, mas também seriam
impedidos de tomar posse; e, em Santos, 14
vereadores numa câmara de 35 cadeiras. Os
comunistas de Recife elegeram 12
vereadores numa câmara de 25 assentos (1)
e os de Olinda fizeram também a maior
bancada na Câmara de vereadores. Na
cidade de Jaboatão, centro ferroviário
em Pernambuco, o médico comunista Manoel
Rodrigues Calheiros se elegeu prefeito - o
primeiro prefeito comunista eleito no
Brasil.
O Partido havia se recusado a mobilizar
as massas contra o processo de cassação
do seu registro. Acreditava que qualquer
manifestação pudesse fortalecer as teses
dos seus adversários que afirmavam que o
Partido Comunista pretendia derrubar o
regime constituído. A direção escolheu
como campo de batalha preferencial o
Parlamento e o Judiciário. Apenas em 18
de junho, sentindo a real ameaça de
cassação e o esgotamento da tática
anterior, os comunistas realizaram um
grande comício no Vale do Anhangabaú em
São Paulo contra a cassação do registro
do Partido e a ação contra os seus
parlamentares.
No dia 21 de outubro a Tribuna Popular
foi invadida e depredada pela polícia, os
funcionários resistiram e acabaram sendo
feridos. No mesmo dia o governo rompeu
relações diplomáticas com a URSS. Em 24
de outubro realizou-se uma grande
manifestação anticomunista de apoio à
decisão do governo de romper relações
com a URSS. Em 27 de outubro de 1947 o
Senado aprovou o projeto de cassação dos
mandatos comunistas e o enviou à Câmara.
Em novembro os comunistas, embora
alterassem a sua posição em relação ao
caráter do governo Dutra - que passava a
ser definido como uma "ditadura
terrorista" -, continuavam tendo
ilusões quanto à correlação de forças
existente. Para Marighella o governo
"fascista" de Dutra estava
completamente isolado e não contava nem
com o "apoio do partido que o levou
ao poder" e conclui: "o grupo
fascista pensou eliminar o Partido
Comunista, cassando-lhe o registro
eleitoral, mas hoje nos achamos em pleno
caminho da legalidade." (Marighella,
C. "Nossa Política" in
Problemas, nº 4, novembro de 1947). No
entanto, no dia 10 de janeiro de 1948, o
projeto de cassação dos mandatos foi
aprovado na Câmara dos Deputados por uma
tranqüila maioria de 179 votos contra 74.
Encerrava-se assim mais uma fase da
conturbada vida do Partido Comunista do
Brasil.
Augusto César Buonicore é
historiador e membro do Comitê Central do
PCdoB.
Notas
(1) O elo de ligação entre Arruda e
o CNOP foi Leôncio Basbaum, antigo
militante do Partido e ex-membro do seu
Comitê Central.
(2) Os vereadores comunistas eleitos pela
sigla do PSP de Recife foram cassados no
início de 1948
|