A
ONG Amazonlink lançou a campanha
“Limites Éticos acerca do registro de
marcas e patentes”. A entidade tentou
implantar um projeto de exportação de
cupuaçu e derivados produzidos no Acre,
mas descobriu que a empresa japonesa Asahi
Foods é dona das patentes.
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| Beneficiamento
do cupuaçu |
Criada em 2001 para lutar pela melhoria
das condições de vida dos povos
amazônicos, a ONG Amazonlink definiu como
um de seus projetos a comercialização de
derivados de cupuaçu produzido no Acre
com o exterior. Mas quando se preparava
para fechar um contrato de venda com a uma
empresa alemã, levou um susto.
A empresa japonesa Asahi Foods Co. Ltda.
era dona das patentes de óleo da semente
de cupuaçu e do cupulate, o chocolate de
cupuaçu, na Europa, o que impedia a
finalização do negócio. Não bastasse
isso, a Asahi Foods também havia
registrado o nome cupuaçu na União
Européia e nos Estados Unidos, o que
significa que, nesses lugares, a
comercialização de qualquer produto de
outra empresa com o nome da fruta é
proibida.
"Fomos orientados a não deixar o
nome cupuaçu aparecer em qualquer produto",
conta o presidente da Amazonlink, Michael
Schmidlehner, austríaco que vive no
Brasil desde 95.
O problema indignou a direção da
Amazonlink, que resolveu divulgar o caso
através da Internet e lançar a campanha
“Limites Éticos acerca do registro de
marcas e patentes” contra a
biopirataria. A entidade pretende enviar
relatórios detalhados a ONGs
ambientalistas e órgãos governamentais,
com o objetivo de alertar a comunidade
para o assunto.
Pelo menos o governo
precisa, realmente, ser avisado do
problema. Procurado desde o dia 7 de
janeiro pela reportagem de Agência Carta
Maior, o Ministério do Meio Ambiente não
se pronunciou sobre o assunto. “Não
podemos ficar de braços cruzados diante
de situações que lesam os direitos dos
povos da Amazônia que dependem dos
recursos naturais para sobreviverem”,
diz Jarbas Anute Costa, diretor da
Amazonlink.
Segundo ele, o mais
incrível é que a Asahi Foods afirma, no
registro da patente para extração do
óleo do caroço do cupuaçu, que ninguém
nunca havia utilizado o caroço para nada
e que eles foram os primeiros a descobrir
o alto valor do produto. “Não somos
contrários a todas as patentes, mas sim
àquelas que prejudicam as fontes de renda
da região”.
A companhia japonesa
proíbe ainda o uso do nome cupuaçu por
qualquer outro produtor e prevê multa de
cerca U$S 10 mil ao “infrator”. A
Amazonlink descobriu ainda que a empresa
está importando grandes quantidades da
fruta dos Estados do Amazonas e Pará para
produzir o cupulate. A patente do cupulate
já existe no Brasil. O produto foi
devidamente registrado pela Embrapa.
A ONG passou a
investigar outros casos semelhantes de
aquisição de marcas e patentes por
estrangeiros. A andiroba, óleo utilizado
pelos nativos como repelente contra
insetos, e óleo de copaíba, um potente
antiinflamatório para os indígenas,
também já caíram nas mãos de
estrangeiros.
A Rocher Yves Biolog
Vegetale registrou em setembro de 1999, na
França, Japão, União Européia, Estados
Unidos, a patente sobre a composição
cosmética ou farmacêutica contendo
extrato de Andiroba. A empresa
Technico-flor S/A oobteve o domínio
mundial sobre "novas composições
cosméticas ou alimentares incluindo
Copaíba".
Para a presidente da
Associação Pernambucana de Defesa da
Natureza (Aspan), Maria Adélia Oliveira,
a denúncia é gravíssima, embora
sustente que o fato não é nenhuma
novidade na região amazônica. Plantas
medicinais como o quinino e o curare,
além do pau-brasil, são alguns dos
exemplos históricos de recursos naturais
muito explorados pelo monopólio
estrangeiro.
“A causa disso é a
total falta de fiscalização da região
por parte do governo federal. A verdade é
que não se tem idéia do potencial de
recursos naturais presos nas mãos de
estrangeiros”, afirma. “Hoje em dia,
as possibilidades de exploração se
multiplicaram. Para isso contribuíram o
avanço da biotecnologia e da facilidade
de se registrar marcas e patentes em
âmbito internacional, bem como acordos
internacionais sobre propriedade
intelectual”, concorda Jarbas.
De acordo com a ONG, há
possibilidade de reverter essas patentes
se for possível provar que os produtos e
fórmulas foram descobertos e são usados
tradicionalmente pelos povos da Amazônia.
“Estamos estudando como fazer isso e
analisando o impacto econômico para as
populações caso não se consiga reverter”.
Maria Adélia, da Aspan, defende, ao
menos, a “participação brasileira nos
lucros e benefícios das empresas
exploradoras estrangeiras”.
A advogada Cristiane Derani, professora de
direito ambiental e econômico da
Faculdade de Direito da USP, considerou
'absurda' a hipótese de patenteamento do
nome cupuaçu. 'Não se pode patentear
nomes de uso comum. Seria como patentear a
palavra banana', disse.
Com base apenas nas informações
fornecidas pela Amazonlink, Cristiane
considerou que as patentes constituem
biopirataria.
'Um produto exclusivo da biodiversidade
brasileira foi levado do país sem
autorização e, o que é pior, lhe foi
dado uso comercial sem a devida
contrapartida para o Brasil e para as
comunidades detentoras do conhecimento
tradicional.'
Os princípios de proteção e
compensação pelo uso do patrimônio
genético estão previstos na Convenção
sobre Biodiversidade Biológica, de 94, e
na legislação brasileira desde 98.
Segundo Cristiane, o Brasil não pode
fazer nada sobre a patente no Japão, mas
tem o direito de não reconhecê-la e não
pagar royalties sobre o produto em seu
território.
Além disso, como o cupulate já está
sendo comercializado fora do Japão, o
Brasil poderia requerer a anulação da
patente em âmbito internacional, com base
no desrespeito à Convenção.
A Embrapa estima que a
produção do cupuaçu no Acre é de cerca
de 543 toneladas por ano. O preço médio
da fruta é de R$ 0,68 e a polpa custa
entre R$ 2,00 a R$ 3,50 por quilo. Já o
preço da semente é em média de R$ 1,00
por quilo. Segundo estimativas, o mercado
nacional consome 3.000 t de cupuaçu. No
entanto, o maior produtor da fruta é o
Estado do Pará, que, em 1996 exportou 33
mil litros de polpa.
Fontes: Estadão e Agência Carta
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