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Sobre o colunista

---------------- Osvaldo Bertolino ---------------
jornalpontoaponto@ig.com.br

14/08/2002

Menos tiros no debate eleitoral paulista

 

A morte da menina Tainá ocorrida no domingo à noite em São Paulo durante uma briga de trânsito, é um desses casos que chocam pela bestialidade, pela estupidez. O caso ganhou repercussão no debate eleitoral entre os candidatos ao governo paulista e mereceu até comentários do presidenciável José Serra. Para a direita recalcitrante, muito forte eleitoralmente em São Paulo, o caso foi um prato cheio. Mais uma vez, Maluf, com seu discurso formulado pelos órgãos da repressão política e pelos esquadrões da morte dos anos 60 e 70, atacou gratuitamente as comissões de direitos humanos. Até o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, utilizou a fórmula fascista para agredir o vice-prefeito de São Paulo, Hélio Bicudo, um histórico e incansável lutador pelos direitos humanos, no debate ocorrido na Rede Bandeirantes no domingo à noite.

O que inquieta é o apoio que essa tese medieval do olho por olho e dente por dente tem entre a população. Não que grande parte dos moradores de São Paulo seja adepta da direita fascista por opção consciente. Ela reproduz a lógica fácil e o raciocínio raso que os porta-vozes dessa idéia manifestam repetidamente no rádio e na televisão. Os ditos "programas populares" em São Paulo são comandados por malufistas e direitistas confessos, que fazem propaganda eleitoral sub-reptícia cotidianamente. O exemplo mais eloqüente deles é o do apresentador Ratinho - um sujeito histrião e inescrupuloso.

A assombrosa figura de Ratinho entrou na vida nacional, salvo engano, em 1996. Era o ápice da degeneração do governo FHC, quando o presidente da República iniciou o processo promíscuo que resultou na aprovação da sua reeleição. Na mesma época, apareceu na televisão Carla Perez, com seus movimentos descendentes e ao mesmo tempo de guinadas laterais e suas nádegas ululantes mostradas na dança da garrafa, do tchan ou coisa que o valha. Para quem conheceu Ratinho no Paraná, no rádio e na televisão ou como deputado federal do PRN de Collor e Martinez - esse mesmo que acabou de ser destituído do comando da campanha de Ciro Gomes -, choca ver tantos adeptos de sua escola tão rapidamente arrebanhados em São Paulo. Seu programa gerou filhotes e o estilo Ratinho ocupa boa parte do horário nobre nas televisões paulistas.

A explicação que se oferece para esse fenômeno é que aqui ele encontrou um terreno fértil - o malufismo. Maluf sempre teve seus porta-vozes no rádio. Com a chegada dos programas popularescos à televisão, essa combinação deu um salto. Ratinho é um Gil Gomes redivivo, com palavreado mais chulo. Sua gritaria é superlativa. Ela toma de assalto os sentidos, não permite a interpretação e rompe a barreira do explícito - não há espaço para a subjetivação. Como elemento profusor de idéias, Ratinho é raso, tosco, limitado e limitante. Suas palavras embotam as consciências. Do seu proverbial machismo ao obscurantismo religioso, a depender de suas pregações estridentes a burrice tende a alargar seu campo de ação no Brasil. Ou seja: ele, com sua demagogia jorrando desbragadamente, sintetiza o malufismo como ninguém. Por isso, Maluf não ultrapassa um certo patamar de votação - no compito geral, o número de eleitores que repudiam as suas idéias é maior do que os que as acolhem.

Maluf tem recebido cartão vermelho dos eleitores sucessivamente e já foi como que desclassificado do campeonato político brasileiro. As derrotas seguidas carimbaram sua carreira política com o estigma de perdedor. Ou, melhor do que isso, como o homem que o Estado de São Paulo não quer como governador - apesar da sua sempre grande votação na Capital. Mas o perigo que Maluf oferece é o de ele ser o escolhido como a alternativa ao fracasso tucano. O povo está se perguntando qual o sentido de tanto sacrifício em áreas que poderiam melhorar sua vida imediata e procura alternativas. Em São Paulo, com sua população gigantesca, o abandono de áreas como saúde, educação e segurança é mais sentido.

De olho nessa realidade, Maluf deu uma guinada em seu discurso político e já chega a dizer que o dinheiro do Estado paulista está sendo torrado na farra dos juros e encargos da dívida pública. Seu discurso, embora sempre demagógico, está mais pragmático. Sempre matreiro, capcioso e aético, ele está menos franco em suas intervenções. Não compareceu ao debate da Rede Bandeirantes para não ter de responder sobre assuntos incômodos. Ele sabe que o governador Alckmin só terá chance de se reeleger aproximando-se de sua raia. Por isso, um faz pesados ataques pessoais ao outro e se parecem cada vez mais. Não interessa para Maluf o confronto aberto com os demais candidatos - principalmente com Genoíno.

A polícia paulista, por exemplo, hoje tem pouca diferença daquela dos tempos de quando Maluf foi governador. Recentemente, vieram à tona os detalhes de um caso de execução planejada - aquele da rodovia Castelo Branco, nas proximidades da cidade de Sorocaba - denunciados há tempos por Hélio Bicudo. Por isso o ataque grotesco de Alckmin no debate da Rede Bandeirantes ao vice-prefeito paulistano. Outro ponto em que Maluf e Alckmin se assemelham é o das propostas para a questão do desemprego. São propostas inconseqüentes. Eles fingem não ver que a crise é complexa e diz muito mais respeito às mudanças que precisam ser operadas na economia do país do que a decisões a serem tomadas no Palácio Bandeirantes.

Mas o ponto central dessa disputa entre Alckmin e Maluf é a segurança. Nesse terreno, pelas idéias enraizadas com a lógica do Ratinho, vale mais quem mata mais. É urgente, portanto, para São Paulo, inundar o jogo eleitoral com novas idéias. Na Capital paulista e sua Região Metropolitana, severamente castigadas pela política econômica da era FHC e por duas gestões malufistas na prefeitura paulistana, talvez a causa da violência que combate a violência seja irreversível em grande parte da população até as eleições.

Mas há um campo aberto para a apresentação de novas idéias capazes de derrotar as bandeiras malufistas e tucanas. Não há, portanto, sentido no conta-gotas - não há razão em não fazer logo o que precisa ser feito. Um choque de novas idéias é o que o Estado de São Paulo precisa para dar um salto de qualidade em seu debate eleitoral. O programa de governo do candidato Genoíno lançado ontem pode ser o início desse choque. Esse é o receio de Maluf e Alckmin. Por isso, sempre que podem eles recrudescem os ataques aos direitos humanos.


Osvaldo Bertolino é jornalista, membro do Conselho de Redação da revista Debate Sindical, ex-diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Atualmente é assessor do vereador Alcides Amazonas (PCdoB) na Câmara Municipal de São Paulo.

 

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