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A
morte da menina Tainá ocorrida no domingo
à noite em São Paulo durante uma briga
de trânsito, é um desses casos que
chocam pela bestialidade, pela estupidez.
O caso ganhou repercussão no debate
eleitoral entre os candidatos ao governo
paulista e mereceu até comentários do
presidenciável José Serra. Para a
direita recalcitrante, muito forte
eleitoralmente em São Paulo, o caso foi
um prato cheio. Mais uma vez, Maluf, com
seu discurso formulado pelos órgãos da
repressão política e pelos esquadrões
da morte dos anos 60 e 70, atacou
gratuitamente as comissões de direitos
humanos. Até o candidato do PSDB, Geraldo
Alckmin, utilizou a fórmula fascista para
agredir o vice-prefeito de São Paulo,
Hélio Bicudo, um histórico e incansável
lutador pelos direitos humanos, no debate
ocorrido na Rede Bandeirantes no domingo
à noite.
O que inquieta é o apoio que essa tese
medieval do olho por olho e dente por
dente tem entre a população. Não que
grande parte dos moradores de São Paulo
seja adepta da direita fascista por
opção consciente. Ela reproduz a lógica
fácil e o raciocínio raso que os
porta-vozes dessa idéia manifestam
repetidamente no rádio e na televisão.
Os ditos "programas populares"
em São Paulo são comandados por
malufistas e direitistas confessos, que
fazem propaganda eleitoral sub-reptícia
cotidianamente. O exemplo mais eloqüente
deles é o do apresentador Ratinho - um
sujeito histrião e inescrupuloso.
A assombrosa figura de Ratinho entrou na
vida nacional, salvo engano, em 1996. Era
o ápice da degeneração do governo FHC,
quando o presidente da República iniciou
o processo promíscuo que resultou na
aprovação da sua reeleição. Na mesma
época, apareceu na televisão Carla
Perez, com seus movimentos descendentes e
ao mesmo tempo de guinadas laterais e suas
nádegas ululantes mostradas na dança da
garrafa, do tchan ou coisa que o valha.
Para quem conheceu Ratinho no Paraná, no
rádio e na televisão ou como deputado
federal do PRN de Collor e Martinez - esse
mesmo que acabou de ser destituído do
comando da campanha de Ciro Gomes -, choca
ver tantos adeptos de sua escola tão
rapidamente arrebanhados em São Paulo.
Seu programa gerou filhotes e o estilo
Ratinho ocupa boa parte do horário nobre
nas televisões paulistas.
A explicação que se oferece para esse
fenômeno é que aqui ele encontrou um
terreno fértil - o malufismo. Maluf
sempre teve seus porta-vozes no rádio.
Com a chegada dos programas popularescos
à televisão, essa combinação deu um
salto. Ratinho é um Gil Gomes redivivo,
com palavreado mais chulo. Sua gritaria é
superlativa. Ela toma de assalto os
sentidos, não permite a interpretação e
rompe a barreira do explícito - não há
espaço para a subjetivação. Como
elemento profusor de idéias, Ratinho é
raso, tosco, limitado e limitante. Suas
palavras embotam as consciências. Do seu
proverbial machismo ao obscurantismo
religioso, a depender de suas pregações
estridentes a burrice tende a alargar seu
campo de ação no Brasil. Ou seja: ele,
com sua demagogia jorrando
desbragadamente, sintetiza o malufismo
como ninguém. Por isso, Maluf não
ultrapassa um certo patamar de votação -
no compito geral, o número de eleitores
que repudiam as suas idéias é maior do
que os que as acolhem.
Maluf tem recebido cartão vermelho dos
eleitores sucessivamente e já foi como
que desclassificado do campeonato
político brasileiro. As derrotas seguidas
carimbaram sua carreira política com o
estigma de perdedor. Ou, melhor do que
isso, como o homem que o Estado de São
Paulo não quer como governador - apesar
da sua sempre grande votação na Capital.
Mas o perigo que Maluf oferece é o de ele
ser o escolhido como a alternativa ao
fracasso tucano. O povo está se
perguntando qual o sentido de tanto
sacrifício em áreas que poderiam
melhorar sua vida imediata e procura
alternativas. Em São Paulo, com sua
população gigantesca, o abandono de
áreas como saúde, educação e
segurança é mais sentido.
De olho nessa realidade, Maluf deu uma
guinada em seu discurso político e já
chega a dizer que o dinheiro do Estado
paulista está sendo torrado na farra dos
juros e encargos da dívida pública. Seu
discurso, embora sempre demagógico, está
mais pragmático. Sempre matreiro,
capcioso e aético, ele está menos franco
em suas intervenções. Não compareceu ao
debate da Rede Bandeirantes para não ter
de responder sobre assuntos incômodos.
Ele sabe que o governador Alckmin só
terá chance de se reeleger aproximando-se
de sua raia. Por isso, um faz pesados
ataques pessoais ao outro e se parecem
cada vez mais. Não interessa para Maluf o
confronto aberto com os demais candidatos
- principalmente com Genoíno.
A polícia paulista, por exemplo, hoje tem
pouca diferença daquela dos tempos de
quando Maluf foi governador. Recentemente,
vieram à tona os detalhes de um caso de
execução planejada - aquele da rodovia
Castelo Branco, nas proximidades da cidade
de Sorocaba - denunciados há tempos por
Hélio Bicudo. Por isso o ataque grotesco
de Alckmin no debate da Rede Bandeirantes
ao vice-prefeito paulistano. Outro ponto
em que Maluf e Alckmin se assemelham é o
das propostas para a questão do
desemprego. São propostas
inconseqüentes. Eles fingem não ver que
a crise é complexa e diz muito mais
respeito às mudanças que precisam ser
operadas na economia do país do que a
decisões a serem tomadas no Palácio
Bandeirantes.
Mas o ponto central dessa disputa entre
Alckmin e Maluf é a segurança. Nesse
terreno, pelas idéias enraizadas com a
lógica do Ratinho, vale mais quem mata
mais. É urgente, portanto, para São
Paulo, inundar o jogo eleitoral com novas
idéias. Na Capital paulista e sua Região
Metropolitana, severamente castigadas pela
política econômica da era FHC e por duas
gestões malufistas na prefeitura
paulistana, talvez a causa da violência
que combate a violência seja
irreversível em grande parte da
população até as eleições.
Mas há um campo aberto para a
apresentação de novas idéias capazes de
derrotar as bandeiras malufistas e
tucanas. Não há, portanto, sentido no
conta-gotas - não há razão em não
fazer logo o que precisa ser feito. Um
choque de novas idéias é o que o Estado
de São Paulo precisa para dar um salto de
qualidade em seu debate eleitoral. O
programa de governo do candidato Genoíno
lançado ontem pode ser o início desse
choque. Esse é o receio de Maluf e
Alckmin. Por isso, sempre que podem eles
recrudescem os ataques aos direitos
humanos.
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