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Sobre o colunista

-------------- Luiz Carlos Antero --------------
lcantero@uol.com.br

23/07/02

A guerra eleitoral e o mercado na Internet


O anúncio feito na semana passada sobre a chegada ao Brasil da vice-diretora do FMI, Anne Krueger, foi acompanhado por uma oscilação positiva do índice Bovespa e por uma rápida queda do dólar (otimismo que virou poeira assim que Anne Krueger pisou no Brasil), mas essa visita passou ao largo dos candidatos oposicionistas, que tangenciaram a idéia de assinar um compromisso com o FMI. Serra, que se diz sempre em conflito com Malan e sua equipe econômica, postou-se submisso, apesar do desgaste que torna a chantagem financeira um rito deplorável e impopular. Mesmo lá, nos EUA, o jornal The Washington Post fulminou a tendência de Wall Street pelas medições acerca do futuro da economia brasileira a partir dos índices de popularidade de Lula.

Segundo o texto ("Desligando o lulômetro"), essa tendência dos "investidores" é conhecida: "É muito comum analisar os mercados emergentes da América Latina por um único ponto de vista, e fugir ao primeiro indício de problema". Wall Street reage como se o Brasil estivesse no caminho de se tornar uma nova Argentina e lança mão de ações que pressionam o País nessa direção. O jornal relaciona outros indicadores que contribuem para esse objetivo: a notória desaceleração da economia mundial, as medidas protecionistas da era Bush e os escândalos envolvendo os balanços de grandes empresas dos Estados Unidos - a exemplo da WorldCom, acionista da Embratel.

O Post afirma ainda que, nesse ambiente, compreende-se a posição dos eleitores que optam por um candidato de mudança, com Lula, rejeitando o continuísmo com Serra. Aborda ainda o encontro do secretário do Tesouro dos EUA, Paul O'Neill, com o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e a visita do presidente do PT, José Dirceu, aos EUA. "No passado, o PT falava em renegociar a dívida externa, a maior do mundo em desenvolvimento. Dirceu afirmou agora que, sob um governo de Lula, todos os compromissos do País serão cumpridos". E ressalta que o início da campanha na TV sinaliza para a desativação do lulômetro: "É um símbolo de medos irracionais e infundados que levantam incertezas sobre a 5ª maior economia mundial".

Pesquisas à venda

Nós, mesmo inconformados, já estamos afeitos a esse "lulômetro", que atribuiu aos institutos de pesquisa uma fonte de renda especial, bem além da venda pura e simples de resultados aos mais folgados (financeiramente) concorrentes internos: os doleiros e especuladores em geral de títulos da dívida brasileira, que contratam pesquisas e trabalham seus resultados com antecedência, revelando com exatidão o fato que abala o mercado. Os boatos ganham consistência no dia seguinte, oferecendo credibilidade às "turbulências" anunciadas.

Essas olímpicas manobras e a conjuntura externa passam bem longe das aflições do povo brasileiro, que, como assinalamos na coluna de terça-feira passada, devem estar no centro das preocupações de Lula. Nesse dia, a divisa do Distrito Federal com Goiás foi conflagrada por um aumento de 11,9% na passagem de ônibus autorizado pelo Ministério dos Transportes, quando cerca de três mil pessoas que moram em Goiás e trabalham em Brasília reduziram 40 ônibus a sucata numa batalha de quase cinco horas, enfrentando os cassetetes, balas de borracha e bombas de gás do aparato policial com pedradas desfechadas a partir de uma barricada de pneus.

Enquanto Lula atribuiu a responsabilidade de governo a FHC pelo menos até 31 de dezembro do ano em curso, dois candidatos continuam correndo atrás da visibilidade pelo caminho da economia. Ciro Gomes anunciou a disposição de procurar o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e Anthony Garotinho externou o desejo de ser convidado para o diálogo - já mantido pelo presidente do PSDB, José Aníbal, e pelo deputado federal Aloizio Mercadante (PT-SP). É como se a perspectiva de vitória eleitoral dependesse dessas conversas, que teriam o poder de sinalização ou do reconhecimento para os candidatos ao Palácio do Planalto. Mas Serra vai além de qualquer entendimento e afirmou em Curitiba que o prolongamento do acordo com o Fundo "não traz maiores constrangimentos nem restrições" à economia brasileira, é um elemento de segurança para o futuro: "Eu apoiarei, até porque os termos dele não significam nenhum sacrifício para a nossa economia, pelo contrário, significa mais segurança".

Plano "B", telhado de cristal

O incômodo crescimento de Ciro Gomes testa agora a consistência do seu telhado. O assunto começou a ser tratado publicamente pelo sindicalista Luiz Marinho - vice de Genoino na disputa pelo governo de São Paulo -, que, durante a visita de Lula a São Bernardo rememorou a postura do "candidato trabalhista" diante de um acordo trabalhista (1992-1994) que constava de um aumento real em três parcelas. Na época ministro da Fazenda, Ciro "quis impedir o pagamento da terceira parcela. Tivemos de fazer greve uma semana". Marinho mencionou o Protocolo de Ouro Preto, assinado por Ciro, que incluiu "a redução das alíquotas de importação de autopeças, de produtos eletrônicos, de máquinas e destruiu a indústria de autopeças" sem levar em conta os empregos eliminados.

Mas essas críticas são mínimas diante de outras, que tratam Ciro como "plano B" do Palácio do Planalto, alimentadas por aliados como o candidato ao Senado e ex-governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB). Tasso, marginalizado em sua pretensão a candidato presidencial palaciano, alardeia 99% de semelhanças entre o projeto econômico de Ciro e o de José Serra. E, numa seriíssima ironia, prega o apoio de FHC à candidatura de Ciro, em caso de um segundo turno contra Lula.

Apesar do largo, crescente e entusiástico apoio conservador, Ciro resiste à comparação com Serra, qualificando como fictícias as propostas econômicas do adversário: "Faltando o que dizer sobre mim, tentam me intrigar. O que o Tasso quis dizer não foi em relação ao programa econômico porque ele sabe que meu programa é completamente distinto do atual governo. E o candidato do governo não tem programa. Eu simplesmente desafio qualquer pessoa que me diga aonde é que está o programa do candidato oficial".

Baixarias no atacado

Aliás, de programa não se fala mais. Como dizíamos na semana passada, o grau de agressividade está em alta e dará o tom das campanhas (autofágicas) desses oponentes de Lula em disputa pelo segundo lugar nas pesquisas. A guerra detonada pelas acusações de Serra a Ciro Gomes, qualificado como "clone de Collor", domina as páginas na Internet, agravada pela polêmica em torno do apoio da Frente Trabalhista à candidatura de Collor ao governo de Alagoas.

A campanha de Ciro inaugurou a seção "Você Sabia?", na qual relaciona integrantes do governo Collor que remanescem no governo FHC, citando o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-ministro da Justiça da atual administração e um dos principais líderes da coligação PMDB-PSDB; o deputado Antônio Kandir (PSDB-SP), secretário de Política Econômica do governo Collor e ex-ocupante do Ministério de Planejamento na gestão FHC; os ministros Pratini de Moraes e Celso Lafer; Armínio Fraga, diretor da Área Externa do BC na gestão de Collor; o atual ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente; o ministro da Fazenda, Pedro Malan, como negociador oficial da dívida externa do Brasil com o FMI no governo Collor.

A campanha de Ciro Gomes, com o fito aparente de atenuar as informações, agrava: "Esclarecemos que esta matéria não tem como objetivo fazer nenhum juízo de valor sobre as pessoas. Pretendemos apenas resgatar alguns fatos da nossa história. Além de ocuparem cargos no governo Collor e no atual, estas pessoas também têm outra característica em comum. Todas apóiam, por enquanto, o mesmo candidato à Presidência da República". Pois ainda acrescenta: "Você sabia que nas lojas da rede de supermercados Wall Mart, em Miami, um frasco contendo 500 comprimidos de Tylenol genérico custa US$ 7,30, ou seja, cada comprimido equivale a R$ 0,036 (câmbio de R$ 2,50 por US$ 1,00), e que o mesmo frasco de Tylenol genérico, em embalagem de apenas 20 comprimidos, vendido no Brasil, custa, aproximadamente, R$ 5,00, ou seja, R$ 0,25 por comprimido - quase sete vezes mais do que o similar norte-americano?"

Serra contra-ataca

A página de Serra responde duramente com duas novas seções: "Ciro disse, mas não é verdade" e "Pérolas de grosseria de Ciro". Nelas, Ciro é chamado de mentiroso quando (1) afirma que pagou toda a dívida mobiliária do Ceará e quando (2) alega que não agride os adversários.

A primeira contestação, apoiada em informações do Banco Central, reitera que a dívida mobiliária do Ceará não foi resgatada e que ainda cresceu 68%, mesmo descontada a inflação. O "Relatório 1994", publicação do Banco Central, na página 85 (tabela 3.15) indica que a dívida mobiliária do Ceará aumentou de R$ 34 milhões em 1990 para R$ 50 milhões em 1994 (valores a preços constantes de dezembro de 1994). A publicação "Execução Orçamentária dos Estados e Municípios das Capitais - 1985/1994", da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), traz à página 160 o quadro CE-IV.b, mostrando que, em valores constantes de dezembro de 1994, a dívida mobiliária cearense cresceu de R$ 29,869 milhões, em dezembro de 1990, para R$ 50,304 milhões, em dezembro de 1994 - num crescimento real de 68%. Ainda segundo a STN, a Dívida Fundada Total, que inclui a dívida mobiliária mais a dívida bancária e a dívida externa, também cresceu. A preços de dezembro de 1994, o estoque da Dívida Fundada do Ceará aumentou de R$ 1,05 bilhão, em janeiro de 1990, para R$ 1,165 bilhão, ou seja, um crescimento de 10,9% em termos reais.

Na segunda bateria, a campanha de Serra reúne frases de Ciro que seriam ofensivas a adversários e aliados. A primeira diz respeito ao presidente do PDT, Leonel Brizola, hoje um dos principais nomes da Frente Trabalhista: "Brizola é populista e, pior, com discurso de esquerda. É a fina flor do atraso (1993)". Sobre Orestes Quércia e Fleury, ex-governadores de São Paulo, FHC, ACM e outros, aliados ou não: "Quércia está no esgoto da política brasileira (1994)"; "É só perguntar ao povo de São Paulo quem é o responsável pelo rombo do Banespa. Fleury é um aborto da natureza. (1995)"; "Quércia é ladrão, todo mundo sabe. (1996)"; "César Maia como pessoa é desonesto, manipulador (1996)"; "Não quero ser ameba. Ameba por ameba, basta o Fernando Henrique. Ameba é metáfora para ausência de resistência ao meio. (1998)"; "Quem tem o dedo sujo não pode apontar sujeiras (sobre ACM, em 1999)"; "ACM não agüenta o debate. Pela natureza antidemocrática e porque é sujo que só pau de galinheiro (99)."

Collor e a "modernidade" de FHC

Na mesma linha de baixarias, Fernando Collor de Mello (PRTB), candidato a governador de Alagoas, a quem Ciro é comparado, chamou de "stalinista" a atitude dos presidentes nacionais do PSDB, deputado José Aníbal (SP), e do PPS, senador Roberto Freire (PE), ao proibir o apoio regional à sua candidatura.

Collor disse ainda que desafia os líderes das duas siglas, que assinaram nota oficial contra o apoio à candidatura dele, a se submeterem à mesma investigação a que foi sujeitado, durante o processo de cassação como presidente, e conseguir um "atestado de idoneidade moral", concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "Eu fui absolvido, mas duvido muito que eles sejam!".
Acrescentou que não acredita que prospere a intenção da Executiva Nacional do PPS de impedir a aliança do partido no Estado, chamando Ciro de "hipócrita". E citou o caso do Ceará, onde a base de Ciro está dividida em candidaturas a governador. E assumiu sua condição de iniciador da obra de FHC: "Eu trouxe a modernidade para o Brasil".

Não é à toa que o processo eleitoral pode dotar o eleitor de novos elementos para sua educação política. Claro que essa educação não advém das posturas e palavras dos candidatos conservadores, mas a observação desse comportamento oferece ao povo os elementos para a compreensão das classes e interesses de classe em confronto. Basta ouvir, ler e pensar. Às vezes, nem isso é necessário. O odor faz tudo!


Luiz Carlos Antero é jornalista, assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. E-mail: lcantero@uol.com.br