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"As coisas estão no mundo, 
só que eu preciso aprendê-las"

Paulinho da Viola



Sobre o colunista

----------- Carlos Pompe -----------
pompe@vermelho.org.br

09/06/02

Os ateus põem a cabeça pra fora

O censo populacional divulgado recentemente pelo IBGE apurou que aumentou no Brasil o contingente dos que se declaram sem religião: 7,3%. Nos anos 70, eram menos de 1% da população. Nos anos 90 chegaram a 5,1%.

Não foi divulgado quantos desses 7,3% sem religião são ateus. Diz-se que nos Estados Unidos os ateus seriam 3%; na Europa, 4%. A antropóloga Clara Mafra, coordenadora da área religiosa do censo do IBGE, declarou a uma revista que os incréus brasileiros "não apenas cresceram como grupo, mas também não têm mais medo de assumir suas convicções".


Machado de Assis: abismo é o único deus

Nas artes brasileiras, são inúmeras as alusões à incredulidade em deuses. Muitos dos personagens de Machado de Assis, por exemplo, descartam a "hipótese Deus".

Machado leva o assunto com sua costumeira elegância de estilo e certo amargor, como na passagem do "Memorial de Aires" (1908) onde um casal sem filhos se afeiçoa por um afilhado: "Este era o filho abençoado que o acaso lhes deparara, disse um dia o marido; e a mulher, católica também na linguagem, emendou que a Providência, e toda se entregou ao afilhado". Esta outra passagem é do mesmo "Memorial": "Fui às minhas abluções, ao meu café, aos meus jornais. Alguns destes celebram o aniversário da batalha de Tuiuti. Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando lá chegou a notícia daquela vitória nossa, tive de dar esclarecimentos a alguns jornalistas estrangeiros sequiosos de verdade. Vinte anos mais, não estarei aqui para repetir esta lembrança; outros vinte, e não haverá sobrevivente dos jornalistas nem dos diplomatas, ou raro, muito raro; ainda vinte, e ninguém. E a Terra continuará a girar em volta do Sol com a mesma fidelidade às leis que os regem, e a batalha de Tuiuti, como a das Termópilas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo aquela palavra da prece de Renan: 'Ó abismo! tu és o deus único!'"

Irônico, na sua poesia "Dia da criação" Vinícius de Moraes lembra do sacrifício do crucificado para salvar a humanidade, mas ressalva: "Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo (...) em todo o caso, livrai-nos Deus de todo o mal".
Na música popular, menção expressa ao ateísmo nos deram o mesmo Vinícius e Chico Buarque no "Gente Humilde": "Eu que não creio, peço a Deus por minha gente". Caetano Veloso também confessa: "Quem é ateu, e crê em milagres como eu". Chico Buarque tem várias referências a Deus, às vezes debochadas ("E se Deus negar, oh nega, como é que vai ficar, oh nega?), às vezes líricas ("Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus"). Gilberto Gil elaborou vastíssima obra tratando criticamente o teísmo. Desde o início de sua carreira musical, desafiava, contra as injustiças sociais: "Mas se existe um Jesus no firmamento, cá na Terra isto tem que se acabar". A música de Gil sobre o tema merece um artigo exclusivo.

A questão do ateísmo ou teísmo, na filosofia

É abordada nas controvérsias entre materialistas e idealistas (os que acham que a idéia - ou um criador - antecedeu a existência de todas as coisas). Friedrich Engels, que com Marx fundou o materialismo dialético, considerava a Inglaterra a pátria do materialismo a partir do século 17. No prefácio do seu "Do socialismo utópico ao socialismo científico", escreveu:


"Todo o mundo natural é regido por leis e exclui por completo toda influência exterior. 


Engels, defensor do materialismo dialético

Mas nós, acrescenta cautelosamente o agnóstico (o agnóstico admite a existência das coisas materiais, mas nega a possibilidade de serem conhecidas - CP), não estamos em condições de provar ou refutar a existência de um ser supremo fora do mundo por nós conhecido. Essa reserva podia ter sua razão de ser na época em que Laplace, como Napoleão lhe perguntasse por que na 'Mécanique Céleste' do grande astrônomo não se mencionava sequer o criador do mundo, respondia com estas palavras orgulhosas: 'Je n´avais pas besoin de cette hypothèse' (Eu não precisei recorrer a essa hipótese). Mas hoje a nossa idéia do universo em seu desenvolvimento não deixa o menor lugar nem para um criador nem para um regente do universo; e se quiséssemos admitir a existência de um ser supremo posto à margem de todo o mundo existente, incorreríamos numa contradição lógica e, além disso, parece-me, feriríamos desnecessariamente os sentimentos das pessoas religiosas".

O prefácio é datado de 20 de abril de 1892. 

Lá se vão 110 anos, mas o pequeno livro de Engels continua sendo uma excelente introdução à concepção materialista da história. A íntegra do livro está disponível aqui mesmo, no Portal. É só clicar no endereço abaixo:
http://www.vermelho.org.br/img/obras/cientifico.asp

Caso queira conhecer o "Memorial de Aires" e a íntegra de outras obras de Machado de Assis, acesse: http://www.biblio.com.br

 

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Carlos Luiz de Jesus Pompe, 1957, jornalista desde 1976. Tem trabalhos divulgados em jornal, revista, rádio e tevê. Foi diretor do Sindicato dos Radialistas de Alagoas e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Integra a redação de A Classe Operária, órgão central do PCdoB. Curioso do mundo.