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Jimmy Carter conclui hoje sua visita de seis dias a Cuba. Acompanhado por sua esposa, Rosalyn, e uma equipe de vinte pessoas, ligadas à Fundação Carter, o ex-presidente norte-americano cumpriu uma agenda extensa e variada: esteve com Fidel Castro mas também com dissidentes e religiosos; visitou escolas e centros de alta tecnologia biomédica, provou drinques à base de rum e vestiu a "guayabera", camisa leve que é o traje social adotado na Ilha sob o socialismo para fazer frente ao sol tropical.
Total liberdade
Carter teve total liberdade de movimentos. Pronunciou uma aula magna na Universidade de Havana que foi televisionada ao vivo para os 11 milhões de cubanos. Ali falou de suas diferenças com o regime cubano, pediu um referendo, mas, antes e acima de tudo, ergueu a voz, com sua autoridade de quem governou a superpotência norte-americana, para pedir o fim do bloqueio que os EUA impuseram à pequena ilha caribenha há exatos 43 anos.
O convite a Carter foi feito por Fidel, há dois anos, quando os dois se encontraram no Canadá. E foi uma jogada de mestre, na melhor acepção da palavra. Assim como foi um gesto de audácia e autoconfiança abrir a Ilha e seu povo, de par em par, para que os visitantes a conhecessem sem restrições.
O peso do bloqueio
Cuba, um país cuja área e população se assemelham aproximadamente às de Pernambuco, é ainda hoje a única experiência socialista das Américas. Situada a 150 quilômetros da costa dos Estados Unidos, sofre há quatro décadas uma marcação implacável da parte do Império de Tio Sam. O objetivo é derrubar o socialismo e erradicar as conquistas da Revolução. Os métodos têm sido todos os possíveis e imagináveis, da invasão armada (baía dos Porcos, 1961) à guerra de mídia ("Rádio José Martí"), mas com destaque para o bloqueio. Há 43 anos os dois países estão proibidos pelo governo norte-americano de terem qualquer relação, comercial, econômica, cultural, esportiva. Nada. Nem a comunidade de perto de 1 milhão de cubanos residentes nos EUA, sobretudo em Miami, tem o direito de visitar seus parentes ou mesmo enviar, ou receber, um presente de natal.
A quebra desse bloqueio tem sido um objetivo tenazmente perseguido pela Revolução Cubana, por mil e um motivos, econômicos, mas também políticos, humanos e morais. E nessa empreitada Jimmy Carter dá mostras de ser um aliado sério e honrado.
Vale mencionar que, quando Carter ocupou a Casa Branca, de 1977 a 1981, também nós brasileiros pudemos nos valer dessa honestidade e honradez. Ela foi uma reserva indireta do movimento em nosso país contra a repressão e a tortura, pela anistia, a liberdade de imprensa e outras metas imediatas do combate à ditadura militar que travávamos então.
A raivosa reação de Bush
Para se constatar o quanto os cubanos agiram bem ao receber Carter com todas as honras, basta ver a reação imediata e raivosa de George W. Bush, ele sim, um presidente que é bem a cara do Império norte-americano. Bush sentiu-se na necessidade de vir a público expor toda a mesquinharia de sua política para com Cuba. Disse que a viagem de Carter "não complica minha política externa, porque não alterei minha política externa. Fidel Castro é um ditador, um reprressor e deve convocar eleições livres e estimular a livre iniciativa", arrematou o atual ocupante da Casa Branca. Segunda-feira que vem ele irá a Miami, e comenta-se que levará para ali um novo pacote de maldades anticubanas.
Entretanto, a base política do bloqueio vai aos poucos se esfarelando dentro dos Estados Unidos, além de estar isolada no plano mundial e também no das Américas. O furor anticubano de Bush pode atrapalhar esse processo, mas não o detém. Mais dia, menos dia, o bloqueio há de tombar, por obra de cubanos como Fidel, mas também de norte-americanos como Carter, e para o bem de ambos os povos.
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