21 de Maio de 2012 - 16h49
A entrevista da filha de Soledad à Folha de S. Paulo
A Folha de S. Paulo de domingo (20), ecoando a instalação da Comissão da Verdade, entrevista a filha de uma vítima da repressão: Ñasaindy Barrett de Araújo, filha de Soledad Barrett, que foi assassinada em Recife, em 1973, por sicários do DOPS de São Paulo comandados pelo delegado Sérgio Fleury. Uma entrevista, é preciso dizer, controversa... (JCR)
Por Urariano Mota
Soledad Barrett, assassinada pela repressão em 1973
Mas este não é um comentário de literatura cortesã. O parágrafo anterior quer dizer em bom português: depois da semelhança física e do maravilhoso nome, torna-se difusa a relação de identidade entre a filha e a mãe. Se a entrevista publicada na Folha de S. Paulo transcreveu o pensamento de Ñasaindy, se foi fiel, então sentimos um desconforto ao ler as linhas da voz da filha a seguir.
“Primeiro, só pensava: puxa, por que ela me abandonou? Precisei entender a Soledad para perdoá-la e dizer: Eu entendo você. Entendo que o mal que você me fez era pelo bem da humanidade, do Brasil, sei lá".
E mais estas aqui:
“Sobre o delator da mãe, o cabo Anselmo, afirma que nunca conseguiu odiá-lo. ‘Procurei muito esse sentimento em mim, mas não consegui’".
Dói na gente saber que Ñasaindy não odeia o cabo Anselmo. Não se trata de vendetta, de vingança, do costume atrasado do interior do Nordeste brasileiro e de antigas famílias da Itália. Trata-se de algo mais sério que desforra de sangue: trata-se do salutar ódio a quem traiu a generosidade, mais conhecida em política como o sentimento socialista.
A filha não é Soledad, assim manda a realidade, por mais de um motivo. No primeiro deles estamos em 2012, há quase quarenta anos de distância do assassinato da bela guerreira. Muita água rolou, muito câmbio houve. O segundo motivo, e me parece essencial, é que Ñasaindy reconstrói o seu ser, a sua identidade, a partir da memória do que lhe contaram e contam sobre a sua mãe. E nesse recontar que lhe chega aos ouvidos sobrevive o veneno do cabo Anselmo. Aquele, o traidor, que fala manso e espalha peçonha com palavras de mel até hoje.
E mais não é justo nem humano falar nesta hora.
Urariano Mota, escritor e jornalista, é autor do livro Soledad no Recife (São Paulo, Boitempo, 2009).



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