Vermelho

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11/09/2017

É preciso resistir ao Estado mínimo

Não resta dúvidas que temos que resistir. E resistir, no mundo do livro, é o mesmo que fincar pé nas coisas simples e cotidianas, entre elas a defesa da cultura laica e pacífica, mas principalmente universal e acessível. E para isso, num país pobre feito o nosso, com tantas divisões sociais, tantos abismos, a presença do poder público é mais do que essencial, é indispensável.

Antes de se falar em poder público, é preciso falar um pouquinho de como são as coisas. Pois neste enorme país temos a presença de diferentes formas de gestão ou administração. Há, nas escolas e hospitais, para ficarmos com exemplos importantes, a existência de fundações privadas e públicas, de igrejas com imunidades tributárias das mais diferentes, de empresas privadas de capital aberto e fechado, ou misto, e também a participação do poder público e privado, e, por fim, há a exclusividade do poder público no comando, e que se divide em três esferas principais: o poder executivo federal, o estadual e o municipal.

De outro lado temos a história, e essa é mais direta e já não mais permite avaliações alucinadas, como os caras do MBL e os neonazistas tentam fazer. Pois as grandes e recentes crises da humanidade, como o crash da bolsa de valores de Nova York em 1929 e o fim da Segunda Grande Guerra, que devastou globalmente o planeta numa hecatombe social e ecológica, tiveram somente uma única e objetiva resposta para sua superação: o reforço do papel do poder público na gestão da coisa pública e na promoção da qualidade de vida.

Ora, pergunto, em qual direção, então, se dá o atual discurso neoliberal que tomou num golpe o poder político no país, e junto aproveitou para levar prefeituras e governos estaduais? Esses que administram muito do que precisamos diariamente? Na direção do “estado mínimo”? Na direção de uma privatização irresponsável e perigosa? Na liquidação de conquistas genuinamente brasileiras como o SUS e o nosso sistema hidrelétrico? E, obviamente, na direção de se liquidar qualquer ação de vulto no poder público em direção ao fomento da cultura em seu melhor nível?

O mundo do livro é um desaguadouro óbvio dessa insanidade que no Brasil se vê como num caleidoscópio, pela própria grande divisão dos tipos de gestão do essencial para a população. E por esse caminho é que o mundo livro se vê reduzido a feiras escolares em escolas privadas, a compras setorizadas de setores específicos de acordos privados, a asfixia do escritor e das editoras enquanto elementos essenciais de um pensar livre e independente, e principalmente, ao aumento da ignorância, na bestialização do cidadão e violência urbana. Afinal quem deixa de ter bons livros em casa é o jovem pobre, o jovem de pouco acesso e de capacidade de compra limitada, e eles, a maioria da população brasileira, é que se verão apartados de seus empregos, das conquistas nas suas carreiras e da liberdade a que têm direito.

Mas temos que resistir, pois se a onda virou artificialmente, algum dia virará novamente e na direção correta. Enquanto isso, a palavra resistência cresce em importância. Pois é preciso defender cada instituição pública, cada entidade que preserve o livro e incentive a leitura, cada ação, como aqui no sul com o Adote um Escritor, que foi bombarbeado por uma prefeitura comprometida com a liquidação da promoção pública da cultura. E quem acredita no livro, na cultura e seu poder transformador, contra o discurso de absurdos como “Escola Sem Partido” e outras alucinações protofascistas, precisa se engajar para além das mídias sociais, precisa contribuir com seu tempo e seus esforços para barrar o avanço do pior. Porque o pior um dia passará e virará monumento ao erro, aos grandes erros da humanidade, sem dúvida.