Cloves Geraldo

"A Vida de Diane": Como não fugir dos anos

Em seu filme de estreia cineasta estadunidense Kent Jones discute as vivências, os impasses e as resistências de uma mulher na terceira idade.

Em incessante movimento a sustentar sua resistência aos setenta anos, a atendente de telemarketing Diane (Mary Kay Place) foge a qualquer imagem que a remeta aos idosos de décadas atrás. Seu cotidiano se divide em várias atividades a torná-la exemplo para as novas gerações. Este não é, no entanto, o objetivo do cineasta Kent Jones (12/06/1964) neste seu filme de estreia. Pelo contrário, ”A Vida de Diane” é sobre o peso das vivências e suas consequências no auge da vida de uma mulher superativa. Ela se multiplica como se suas energias fossem inesgotáveis.

Jones deixa, assim, o clichê da simpática velhinha de andar arrastado e bengala para evitar quedas. Diane tem invejável disposição para se dividir entre o filho Brian (Jake Lacy), dependente químico, ser voluntária numa entidade de assistência aos idosos e às visitas à prima Mary (Estelle Parsons) num quarto de hospital. Em meio a tudo isto, ela ainda frequenta bares noturnos, onde o espectador percebe o quanto ela se diverte. Na verdade, Jones trata da solidão na terceira idade com economia de meios. E a forma como Diane tenta driblá-la torna-se o centro de sua história.

Com seus diretores de fotografia Wyatt Garfield e montagem Mike Selemon, ele faz a ligação entre as sequências do filme através da velocidade com que ela dirige seu automóvel pelas estradas entre as matas tanto à noite quanto ao sol. O que torna sua narrativa ágil, sombria e angustiante, pois a vida da incansável Diane transcorre entre quatro paredes e ambientes onde a alegria não pulsa. As subtramas se entrelaçam de forma a ressaltar esta impressão. A começar pelo restaurante da instituição de assistência aos idosos, onde eles são servidos à mesa por ela e outras décadas voluntárias.

Diane ajuda a melhorar a vida dos idosos

A forma como Jones constrói as sequências ressalta a entrega de Diane ao/a outro/a, sem cair na pieguice ou em discurso sobre a carência dos idosos. O simples fato de ele colocá-los num salão onde dividem espaço com outros de sua idade já diz muito sobre a sociedade onde vivem. E Diane contribui para tornar a existência deles menos aflitiva, inclusive torna-se amiga do afrodescendente Tom. Ali todos são iguais. Ele começa por ajudá-la a recolher a vasilha que caiu e se põem a conversar. Nesta sequência percebe-se a sensibilidade de Jones para a amizade não parecer falsa, pois ela é sincera e Tom receptivo às suas observações.

Não menos importante na vivência de Diane é sua relação com a prima Mary (Estelle Parsons), internada num quarto de hospital. Elas não parecem íntimas. Não trocam amenidades ou comentários que os explicite. E mesmo a forma com que Jones filma-as sem aproximar a câmera ou sequer um close só permite a impressão de que Mary agoniza, São nestes momentos, contudo, que o passado se impõe a Diane. O fato de serem parentes não deixa de provocar mal-estar, porquanto o silêncio de Mary reflete o que ambas não querem relembrar, dado ao próprio estado dela.

Inexiste nesta subtrama a Diane voluntária interessada no/a outro/a. Como qualquer idosa em sua longa vivência há pontos cinzentos a expor. Na primeira e segunda parte deste “A vida de Diane” Jones só delineia o que pode ser aventado. Não o faz diretamente, vale-se de outra subtrama para o espectador entender o que foi Diane na juventude. Deixa-o preso mais aos confrontos entre ela e seu filho Brian. Ela procura não o deixar só no quarto por ele ser viciado químico. Tenta convencê-lo a se tratar sem sucesso. São seus instantes de dor e feridas não cicatrizadas.

Jones evita que o filme caia no lugar comum

Desta forma, Jones discute a dificuldade de qualquer mãe ou pai controlar o comportamento do filho viciado. Mesmo fechado em casa, ele sabe os caminhos a percorrer para chegar à droga. E inclusive não lhe dando pista alguma sobre aonde está. Nesta subtrama, por outro lado, Jones optou por não puxar os fios dramáticos e pôr Diane em polvorosa. O risco era a narrativa cair no lugar comum de mãe desesperada. Mas como o espectador vê na tela, ela é equilibrada e não dada ao desespero, principalmente depois de todo esforço feito para livrá-lo do vício químico.
Aos poucos, Jones vai elucidando cada fio das subtramas e entrelaçando-as. Os desacertos de Diane na juventude não são configurados pelo diretor-roteirista e, notadamente, sua conflituosa relação com o filho ao longo de 95 minutos de exibição. Apenas na terceira subtrama ele que faz o link da primeira com a segunda subtrama. É quando pelas vias menos esperadas, o espectador entende o silêncio de Diane e depois a elucidação de sua relação com a prima Mary. E por meio de um fio dramático envolve não só ela, mas também seu ex-companheiro.

Para fugir às armadilhas deste tipo de construção dramática, que normalmente desanda em autocomiseração, Jones usa uma subtrama para explicar outra. Assim a existência de Diane se torna ainda mais aflitiva, porquanto as informações sobre seu passado são inconclusas. O que leva o espectador a se prender mais ao que transcorre na tela do que fazer a ligação entre as três subtramas. E muito menos com a de Diane voluntária, pois esta custa a se fechar, pois se desenvolve ao mesmo tempo que as outras duas. E mesmo as atitudes de Brian ao negligenciar o sofrimento da mãe não elucidam o que ainda virá. Então, a narrativa se torna instigante.

Filho de Diane se fecha no quarto

O que transcorre na tela é devido mais à tessitura da trama durante a escritura do roteiro e do desenvolvimento dramático pelo diretor em plena encenação diante das câmeras. Os movimentos de câmera de Jones são quase imperceptíveis, dando a impressão de que seu registro seja teatral. A ação neste “A Vida de Diane” se desenvolve em ambientes fechados, com poucas tomadas externas. Principalmente quando Diane serve aos idosos carentes no extenso salão. Eles trançam entre as mesas em lento ritmo enquanto ela serve-os mais por compromisso e entrega.
Igual dedicação ocorre nas sequências do hospital quando ela visita Mary. A câmera fica a pouca distância delas. As cenas são intimistas, Jones evita closes da internada. Diane tenta se comunicar com a doente, o espectador sente a presença da morte. Este vai-e-vem dela pelo salão onde serve os idosos carentes, o quarto em que o filho dependente químico se fecha e a enfermaria a abrigar Mary em plena agonia na cama atesta sua dedicação aos desvalidos. Cada um destes cenários, pois e trata disto, matizam a dedicação, não só a uma causa, mas a algo profundo. São elos de sua própria e atribulada vida.

De todo modo, o importante neste “A vida de Diane” não é o diretor/roteirista plantar pistas, mas apenas insinuá-las para o espectador fazer suas próprias ligações. Jones começa a terceira parte do filme de maneira a tornar o vício de Brian o centro de suas conflituosas relações com a mãe. De fato, isto se dá, menos pelo que se vê desenrolar na tela. Ele lhe preparou surpresas, não está mais só, partilha sua vida com a jovem Donna (Deirdre O´Connor). Os ocultos motivos a criar impasse para Diane despencam sobre ela, pondo-a diante da inimaginável refutação do filho.

“Vocês substituíram um vício por outro”

Sua imagem logo esboroa. Não que sua abnegação seja posta em questão. Jones deixa o espectador fazer as ligações, embora explicite as razões de Brian lançar sobre a mãe as culpas que ela jamais admitiu para si. Decorre daí ele não se penitenciar perante Donna. Ela não entenderia. Mas nestes tempos de extremismo religioso a culpa é evidenciada mais pelo que se apregoa, nunca para expor a realidade. E seguindo a trilha de cascalho aberta para a penitência os dois jovens pressionam a idosa dedicada à caridade a professar sua fé na igreja que eles frequentam.

Jones mantém sua câmera diante deles para captar cada nuance, gesto e movimento. É o instante em que a trama entrelaça os fios dramáticos, dando sentido às três subtramas. Depreende-se logo que, supostamente, a sugestão seja para o templo onde o filho de Diane foi recuperado para a vida terrena. Ela não recua ou se deixa pressionar. O jovem casal não se refere a si mesmo, mas a ela devido ao revelado por Brian. E deixa antevista a razão de ele ter se tornado o que foi por longo tempo. Muito mais por ela ter transformado a vida de três entes queridos num verdadeiro inferno. E nem por isso, ela agora se penitência.

Não é demais ver nisso a discussão em torno do pecado e de suas consequências. A esta espécie de danação da qual os dois jovens buscam retirá-la, Diane responde de forma a mostrar que inexiste a fé introjetada. “Já tenho minha igreja”, ela diz. “Mas a mossa pode fazer melhor (citação não literal)”, retrucam eles. Sua resposta reflete o quanto estava atenta à armadilha para a qual pretendiam atrai-la. “(Vocês) substituíram um vício pelo outro” retruca Diane. É como repetisse Karl Marx que disse: “A Religião é o ópio do povo”. É o instante de reflexão estimulada por Jones, num drama sobre a dedicação da idosa aos desvalidos, sem a pretensão de aumentar seu rebanho de destituídos pelo Capital (1818/1883).

“Cada um seguirá seu caminho ao infinito”

Este profundo mergulho na multiplicação de igrejas e crenças levam Diane à refutação e à realidade ao ocupar a cadeira junto ao balcão de um bar. Como qualquer mulher liberada do Terceiro Milênio, seja jovem, madura ou na terceira idade, ela se põe diante de um copo de uísque. Homem algum, tampouco o balconista, lhe prestam atenção. Fica ali entregue a si mesmo, distante do que poderia bloquear suas escolhas e o livre arbítrio que a tornou voluntária para ajudar os desvalidos, sem qualquer interesse senão amenizar suas carências de atenção e sobretudo de viver sem fome e num teto onde possa sobreviver como ser humano.

“A vida de Diane” é, sem dúvida, um filme realista a estimular a reflexão sobre a urgência de tratar do ser humano em vida. A morte se encarregará de devolvê-lo à natureza. Para isto é preciso de milhões de Dianes para não misturar crença com manipulação religiosa. Cada um seguirá seu caminho em direção ao infinito, seja com fé ou não, como lhe é de direito. Forçá-lo a seguir caminhos sem fim é mais do que prendê-lo numa redoma onde verá apenas um lado das nuvens. Cada hora, elas assumirão formas reais ou imaginárias. É hora de separar o real do ilusório.

A Vida de Diane (Diane). Drama. EUA.2019. 1h35. Música: Jeremiah Bornfield. Montagem: Mike Selemon. Fotografia: Wyatt Garfield. Roteiro/direção: Ken Jones. Elenco: Mary Kay Place, Jack Lacy, Estelle Parsons, Deirdre O´Connelll, Andrea Martin.

* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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