Wadson Ribeiro

Bolsonaro é a crise

A crise política que paralisa o governo não dá sinais de melhora. Ao contrário. Os últimos acontecimentos envolvendo declarações do presidente Bolsonaro em relação às manifestações estudantis e à classe política, além do estímulo aos atos em favor do governo no próximo domingo, amplificam a tensão política no país.

Num cenário de crise econômica no Brasil e no mundo, com fortes reflexos para a população mais pobre, as instabilidades geradas pelo governo agravam mais a situação.

Os movimentos políticos de Bolsonaro nos levam a crer que ele testa até o limite o tamanho de sua força e da fidelidade de sua seita. E testa assim também o regime democrático. Com 28 anos de mandatos consecutivos na Câmara, ele não pode se tornar presidente da República e dizer que o país não se desenvolve por causa da classe política. Bolsonaro está querendo se incluir ao lado daqueles que defendem o fim da política, dos partidos e das instituições? Daqueles que defendem o fechamento do Congresso Nacional e do STF? Bolsonaro foi eleito para governar dentro das normas constitucionais vigentes e respeitá-las, não da forma que lhe convém.

Num momento em que pela 12ª vez no ano o Boletim Focus do Banco Central reduz a projeção de crescimento do PIB de míseros 1,45% para 1,24%, que o desemprego alcança 13,4 milhões de brasileiros e que a atividade industrial recua 2,2 % no primeiro trimestre, Bolsonaro se preocupa em estimular manifestações de grupos radicais de direita que vão às ruas contra o que chamam de “centrão” e de “velha política”, leia-se atacar o STF e o Congresso Nacional. Essa atitude, pouco convencional para um chefe de Estado, aumenta a crise entre os poderes e pode mergulhar o Brasil num conflito de maiores proporções.

Em relação às universidades não foi diferente. Após cortar 30% do orçamento de institutos e universidades federais e atacar o papel e desempenho destas instituições, ofendeu grosseiramente os estudantes que foram às ruas para protestar contra os cortes. Ao invés de justificar o contingenciamento pela crise econômica, preferiu atacar os centros de produção de ciência, ir novamente para um confronto e apostar na desestabilização do país. Na visão do governo, todos aqueles que criticam suas posições são inimigos a serem combatidos, numa espécie de guerra permanente.

O próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), rompeu recentemente com o líder do governo na Casa, o deputado Vitor Hugo (PSL-GO), demonstrando a precária relação do governo com o Congresso. A própria Câmara tem chamado para si a agenda da reforma da Previdência, reforma tributária, reforma administrativa, entre outros temas, numa espécie de “semiparlamentarismo”. É a comprovação da falta de unidade política, de força e de credibilidade do governo.

Bolsonaro exerce a presidência como se estivesse na campanha eleitoral. Não se propõe a unir o país. Quer mais uma vez dividir, dessa vez entre a “velha” e a “nova” política, numa polarização que enfraquece a nação. Até mesmo figuras como a deputada estadual Janaína Pascoal (PSL-SP) e outras lideranças e movimentos como MBL, que sustentaram Bolsonaro até aqui, repudiaram a convocação do ato em apoio ao governo. A tendência é a manifestação do dia 26 desgastar ainda mais a relação do governo com os partidos de centro, com o STF e com o Congresso Nacional.

O que ainda sustenta Bolsonaro, mesmo com suas inúmeras arestas políticas, é a promessa de aprovação da reforma da Previdência e com ela o prometido crescimento da economia. Mas a prevalecer a crise econômica e o aumento do desemprego, o mito poderá virar pó e o Brasil aprovar mais um impeachment. Na política, ao contrário do galinheiro, se cisca para dentro e não para fora. E parece que Bolsonaro não aprendeu essa lição, apesar das décadas vivendo de política

* Presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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