Urariano Mota

Um fascista de plantão

Notícia na Folha de S.Paulo hoje: “O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski decidiu nesta quinta-feira (25) proibir a presença de jornalistas que não sejam da Folha e do jornal El País em uma entrevista com o ex-presidente Lula prevista para esta sexta (26) na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde o petista está preso desde abril do ano passado...

Ao organizar o encontro com Lula, o superintendente da PF no Paraná, Luciano Flores Lima, havia decidido autorizar a presença na entrevista de jornalistas de outros veículos, citando a necessidade de respeitar ‘direitos constitucionais relativos ao livre exercício da profissão e liberdade de imprensa’.”

Antes, o jornalista Narley Resende, no Bem Paraná, havia chamado atenção para o tipo de jornalista convidado pelo delegado federal Luciano Flores: “por decisão do superintendente da PF em Curitiba Luciano Flores de Lima, a PF enviou e-mail convidando para um ‘pré-cadastro’ apenas jornalistas pré-selecionados, como do site ‘O Antagonista’. Repórteres de agências de notícias, como Reuters; e jornais como Le Monde, e diversos outros, acostumados a receber diariamente comunicados da PF, não foram convidados ao pré-cadastro”.

Esse personagem Luciano Flores do Túmulo da Democracia bem merece uma recuperação de recentes feitos. Ele foi um delegado da Lava Jato destacado para abusos contra o maior líder político do Brasil. Em agosto de 2018, a coluna de Mônica Bergamo noticiou que a União havia convocado os principais delegados da Lava Jato para que fossem ouvidos em ação movida por Lula por causa de vazamento de grampos que atingiram dona Marisa Letícia, morta em 2017, e outros familiares do ex-presidente.

“A Justiça concordou com o pedido e determinou a intimação de Igor Romário de Paula, Luciano Flores e Márcio Adriano Anselmo”, informou a jornalista. Pela lei das interceptações, diálogos que não tivessem interesse para as investigações (em si invasivas, muitas delas ilegais) deviam não apenas ser mantidos em sigilo, mas destruídos. No caso do delegado Flores, ele continuou a escuta, o grampo das ligações da família do ex-presidente, até mesmo depois de suspensa a ordem para tal. E divulgou o conteúdo para a imprensa.

Mas essa não foi a sua primeira vez. Ele já foi acusado por procuradores da República de vazar uma Operação que vinha sendo comandada pelo procurador geral Rodrigo Janot. Às vésperas das eleições de 2014, encaminhou diretamente para o ministro Teori Zavascki pedidos de prisão temporária contra parlamentares. Os pedidos foram para Janot que os negou. Em seguida a operação vazou para a imprensa e tudo se perdeu, como informou o procurador Celso Três ao jornal Sul 21, em matéria de 23 de outubro de 2014: Procurador que investiga suspeita de fraude no Pronaf afirma que vazamento “acabou com a operação”.

Em pesquisa ligeira, começam a se ligar episódios denunciadores do caráter fascista do senhor Flores do Túmulo da Democracia. Ele é o mesmo delegado que esteve na casa de Lula para promover a sua condução coercitiva. Pelo relato do Flores..., Lula foi informado de que, caso se recusasse a acompanhar a autoridade policial para prestar esclarecimentos fora de casa, seria então aplicada a condução coercitiva, ou seja, o petista seria levado à força para depor.

Mais adiante, o delegado Flores do Túmulo da Democracia se mostrou despudorado, cruel e cínico em janeiro deste ano, quando faleceu o irmão do nosso eterno presidente. A autorização para Lula participar do velório do irmão era um ato meramente administrativo, conforme a lei. O responsável pela garantia desse direito era o delegado Flores, superintendente da Polícia Federal no Paraná, onde Lula está cumprindo sua injusta e ilegal pena de prisão. Mas ao receber petição da defesa de Lula para o comparecimento ao velório de Vavá, o delegado alegou verbalmente que não tinha condições logísticas e materiais para transportar o ex-presidente até São Bernardo... Tão diferente do dia 4 de março de 2016, quando o mesmo delegado se deslocou em avião da Polícia Federal até São Bernardo, com uma grande equipe da Lava Jato, para submeter Lula a uma condução coercitiva ilegal no aeroporto de Congonhas.

Igual distância, igual arbitrariedade.

Nesta sua última investida, ele tentou de novo torcer a lei como um torturador da ditadura torcia prisioneiros. Desta vez, o ministro Lewandowski o pôs no seu devido lugar. Vamos ter a entrevista do nosso presidente. Mas todo o cuidado é pouco, até mesmo com a segurança pessoal de Lula. O futuro Nobel da Paz está submetido a um plantonista do gênero Flores de Mussolini.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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