Cloves Geraldo

"Gloria Bell": Lições da meia idade

Entre a mulher liberada e o homem preso ao passado conjugal, cineasta chileno Sebastián Lelio expõe os impasses da paixão na meia idade.

Em narrativa com duplo olhar sobre a mulher e o homem de meia idade, cineasta chileno Sebastián Lelio (08/03/1974), volta ao seu tema costumeiro neste “Gloria Bell”. Enquanto ela se adapta às mutações amorosas, ele hesita entre sua família e a nova paixão. A fragilidade da relação, deste modo, não está na cinquentona Gloria (Julianne Moore), mas nele, Arnold Tener (John Torturro). O único traço a identificá-los, sem tensão, é serem divorciados. É com estes fios dramáticos que Lelio, roteirista/diretor, constrói um clima intimista, às vezes cômico e surreal.

A exemplo da Glória (Paulina Garcês) do filme homônimo, de 2013, Lelio traça o perfil da mulher madura livre para encontrar o parceiro, se não o ideal, mas pelo menos atinado às suas carências. O complicador no encontro da liberada Gloria com o x-fuzileiro naval de poucas palavras está no fato de tudo ser novo para ele. Enquanto ele se divorciou há um ano, a desinibida funcionária de escritório está solteira há doze anos. Se encontraram, como a Gloria da obra anterior, num bar, onde solitários buscam seus pares. E pelo menos se entretiveram um com o outro.

A química entre eles não é instantânea, decorre mais do carisma e da interpretação dos grandes atores Julianne Moore (03/12/1960) e John Torturro (28/02/1957). Ela transborda vida, está pronta para a nova experiência, não impõe barreiras. É o que, talvez, o cative, obtendo dela toda a atenção. Principalmente porque Lelio estruturou-os como personagens diferentes, não antagônicos. Percebe-se pela interpretação interiorizada de Torturro e desinibida de Moore.

Notadamente quando os dois estão sós no apartamento dela e o inesperado se interpõe, tornando angustiante e distanciada a interação entre eles.

Gloria é criatura da liberação feminista

Lelio se mostra um mestre na construção de climas e interiorização de sentimentos. O exposto por Arnold a Gloria, noutras circunstâncias, seria o bastante para ela não levar adiante o relacionamento com ele. Eis aqui a avançada visão feminista do diretor/roteirista. Gloria é criatura do movimento de liberação feminina dos anos 60, cujo ápice, mesmo com as persistentes barreiras machistas e patriarcalistas, ocorre no século XXI. Ela sabe das fragilidades e limitações do homem para estabelecer uma relação igualitária. E dado a este avanço não rompe logo o relacionamento.

O que Arnold lhe revela é não ter ainda superado o vazio pós-divórcio. Ainda mais por ter duas filhas que não cessam de ligar para ele, exigindo sua presença. Esta dependência irá pontuar toda a narrativa, centrada numa história essencialmente feminina. É o olhar de Gloria que dá ao espectador o sentido do que ela suporta e a validade da decisão de nada exigir dele. O ser forte, lúcido, sensível e experiente aqui é ela. E na citada sequência, sequer clama ou lhe impõe restrições. Simplesmente por entender a dificuldade de ele romper de fato com as filhas mesmo adultas.

Não bastassem estas ótimas construções dramáticas, Lelio escapa aos clichês do machão. Arnold se penitencia por suas inoportunas saídas. Mesmo em instantes de intimidade com Gloria ou num ambiente onde se divertem. O espectador oscila entre a tensão, a repulsa às atitudes dele e o seu medo de enfrentar a realidade. Gloria, pelo contrário, se mantém tolerante, não lhe dá um ultimato. Tampouco deixa de atentar para as impossibilidades do relacionamento. Percebe o quanto ele está preso à uma relação que persiste devido apenas ao “jogo feito pelas filhas dele”.

Arnold tem ciúme de Gloria Bell

Existe, por outro, outra faceta de Arnold desconhecida por Gloria. Dá-se justamente na festa familiar no apartamento de seu ex-companheiro Dustin (Brad Garrett) e da atual companheira dele, onde estão seus filhos Peter (Michael Cera) e Annie (Caren Pistorius). Eles se divertem e comentam passagens de suas vidas em comum. A aberta e amigável relação dela com eles termina por inquietar Arnold. Tomado pelo ciúme, ele não demora a se apoiar nas exigências das filhas para deixá-la para trás. É o instante em que Lelio expõe o machismo e a inconstância dele.

De novo, cabe a ela se mostrar mais tolerante do que ele. Não por deixar de fazê-lo explicitar em detalhes o que na verdade o leva a se escorar nas filhas para distanciar-se dela. Tem também seus limites e não os esconde. Contudo, também ela tem a perder, pois Arnold adquiriu importância em sua vida de cinquentona. Lelis, deste modo, não demoniza Arnold nem reforça a tendência de Gloria à conciliação. Há algo maior entre eles que deve ser preservado. Eis a validade deste “Gloria Bell”. Nem todos os homens são predadores. Alguns, como Arnold, podem avançar.

Na verdade, Lelis discute, sem teorização, o direito e a necessidade de a mulher e do homem, sendo mãe e pai, continuarem a conviver e educar os filhos. E mais do que isto. Ao fazê-lo contribuem para seu próprio equilíbrio emocional, afetivo e amoroso. Em 101 minutos, o espectador tem ideia do esforço feito por Gloria nos instantes em que tudo poderia terminar. E justamente nas sequências finais, quando o impasse se estabeleceu. Ela, sim, entendia as fragilidades e as razões dele para não perder a relação com as filhas no momento em que elas precisavam mais.

Mulher não é só a companheira

O centro desta dualidade não é só este. Gloria sabe das carências amorosas de Arnold e do que terá de fazer para ele não entrar num caminho sem volta. Também ela precisa dele. A esta altura lhe cabia encontrar a saída para não crucificar a ambos. Então se vale de sua experiência e sensibilidade para ajudá-lo, e a si própria, a superar os obstáculos. Com este recurso mais reflexivo que imagético, Lelis dá conta de seu tema neste “Gloria Bell”. A mulher não é só a companheira é o ponto de equilíbrio numa relação amorosa e conjugal. Afinal a relação é a dois.

Arnold não errava ao procurar suprir as carências das filhas e Gloria ao tratar seu ex-Dustin como amigo mesmo tendo se divorciado dele. Não significa que tenha de se manter distante ou não rememorar os instantes felizes que tiveram juntos. Afinal da relação deles nasceram dois filhos e um neto. Enquanto se adapta à vida de divorciado, Arnold terá de construir sua vida com Gloria e conciliar o passado com o presente. Sua irritação com a alegria dela pelas felizes rememorações resultou em ciúme. Este é, sem dúvida, um dos motivos do feminicídio, pois escapa a qualquer razão.

Ao construir sua narrativa neste caminho, Lelis permite o espectador refletir sobre o que vê na vida real. Ainda mais no Brasil onde a mulher sofre a todo momento o risco de ser assassinada pelo simples fato de ser do sexo feminino. Apenas até o dia 19/02/2019 o número de mulheres assassinadas por seus companheiros chegou a 129 e o de tentativa de homicídio a 67, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Os motivos se repetem: violência, racismo e machismo. É o horror!

Paixão cede lugar ao equilíbrio

Este “Gloria Bell” tem o clima de inconclusas relações entre dois maduros personagens reforçadas pelas imagens em ambientes fechados em luz baça da diretora de fotografia Natasha Braier. O que reforça a construção intimista de Lelio. São dois cinquentões numa etapa de suas vidas em que a paixão se mescla ao equilíbrio. Quem dita as ações é Gloria, não Arnold. O comportamento dele em dadas cenas é o de quem entrou em catatonia. Isto demonstra o controle que Lelio mantém sobre os atores e os personagens. Nenhum deles pode destoar do que ele estruturou.
Nesta sequência de filmes sobre a mulher do século XXI, Lelio mostra sua tendência de discutir o papel da mulher na meia idade. Etapa da vida em que lhe são “negados” certos prazeres da juventude, compensados pela maturidade e o equilíbrio. Sobretudo pela forma de ampliá-los ao unir sedução e prazer. Se em “Gloria” (2013) ela buscava ter liberdade para viver ao seu modo e escolher seus parceiros, neste “Gloria Bell” não quer apenas companhia, mas o parceiro que lhe dará tranquilidade.

Faz parte deste duo de obras o polêmico “Uma Mulher Fantástica (2017)”, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2018. De forma corajosa e inteligente, Lelio aborda o universo transexual, centrado no sonho da garçonete Marina (Daniela Vegas) que sonha ser cantora. Sua relação com o idoso Orlando (Francisco Reyes) lhe vale todo tipo de humilhação e perseguição da família dele. É o tipo de filme que desvenda a multiplicidade de obstáculos impostos pela conservadora sociedade burguesa para ela alcançar o que realmente almeja sem qualquer ajuda.

Abandono constante incomoda Gloria

Difícil se alhear ao modo de Lelio desenvolver sua história em “Glória Bell” através de entrechos ao encadear sua narrativa. O sentido de cada sequência em cenas curtas se dá pela reação dos personagens a um fato externo. É o caso dos repentinos e constantes abandonos de Gloria por Arnold, quando estão no apartamento dela. É o passado a ditar a duração dos momentos deles juntos. O que a incomoda, pois demonstra o que as filhas representam para ele. Ainda mais na ótima interpretação interiorizada e sofrida de John Torturro, como o carente divorciado. É como se o homem do século XXI não soubesse reconstruir sua vida a dois.


Gloria Bell. (Gloria Bell) Drama. EUA. 2018. 101 minutos. Música: Mattew Herbert. Montagem: Soledad Salfate. Fotografia: Natasha Braier. Argumento/história: Gonzales Meza. Roteiro/direção? Sebastián Lelio. Elenco: Julianne Moore, John Torturro, Michael Cera, Brad Garrett, Caren Pistorius.



* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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