Marcos Verlaine

A dispersão como tática do governo

Toda vez que o presidente estiver em situação de defensiva semelhante às ocorridas nas manifestações do Carnaval mobilizará seu “exército” e apontará um biombo para dispersar e desviar a “atenção das questões centrais” do País.

 O Carnaval de 2019 foi um dos mais politizados dos últimos tempos. Massas de foliões, espontaneamente, saíram às ruas em todo o Brasil, e, entre as folias e esbornias carnavalescas, entoaram uníssimos protestos contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Trata-se de novidade, pois nenhum outro presidente, em início de mandato, projetou-se tão negativamente quanto o novo inquilino do Planalto.

Diante dos protestos que ganharam as ruas do País, Bolsonaro reagiu, no sábado (2), com crítica pesada e inusitada à festa mundana, que é uma instituição no Brasil. Divulgou tuíte crítico à festa popular, com vídeo em que apareciam 2 jovens em cenas escatológicas e obscenas registradas durante a folia de um suposto bloco de rua em São Paulo.

O objetivo do presidente, diante da oposição que se manifestava nas ruas foi passar, com o vídeo pornográfico, visão generalizada que o Carnaval (oposicionista) é uma festa devassa, a fim de mobilizar seus apoiadores mais fiéis em sua defesa e contra as manifestações.

A partir daí, até o presente momento, este tem sido o assunto das redes e da mídia, com críticas e ataques à atitude do presidente e também defesa em relação à crítica que Bolsonaro fez ao Carnaval e os isolados excessos dos foliões nos blocos de rua Brasil afora, e, consequentemente, às manifestações oposicionistas.

O tuíte não foi algo sem propósito ou ato impensado ou mesmo espontâneo, sem estratégia. Pelo contrário. Foi resposta friamente planejada diante dos ataques que sofria nas ruas do País. Com isso, mobilizou seus apoiadores mais fiéis, o núcleo “ideológico-diversionista”, que o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Silvio Almeida, chama de “exército de Brancaleone”. Esse “exército” acredita em tudo que foi propagado na campanha eleitoral e se mobiliza para defender essas crenças, por mais absurdas que pareçam ou sejam.

Núcleo ideológico-diversionista

Este núcleo, segundo o professor Silvio Almeida, em seu artigo “Sobre política, distração e destruição”, “Serve apenas para manter o moral da ‘tropa’ em alta, dando representatividade e acomodação psicológica a quem realmente acredita que o Brasil é socialista, que existe ideologia de gênero ou que a terra é plana.” Este é o núcleo 1.

“Serve também para causar indignação e tristeza nos ‘progressistas’ e, assim, desviar a atenção das questões centrais manejadas pelos núcleos 2 [policial-jurídico-militar, sob o comando de Sérgio Moro e os militares alojados no Palácio do Planalto] e, especialmente, pelo 3.” Este é o núcleo comandado por Paulo Guedes.

Qual o foco?

O tuíte parece que funcionou e mobilizou, nas redes, um “exército” em defesa do presidente, mesmo diante de situação de franco enfraquecimento prematuro, com as maciças manifestações espontâneas contra o seu governo e, em particular, contra sua figura, em tão pouco tempo de mandato.

Assim, o assunto deixou de ser as manifestações e a prematura impopularidade de Bolsonaro, e passou a ser o tuíte e suas prováveis consequências, diante da aparente inconsequência escatológica do presidente recém empossado.

Será sempre assim. Toda vez que o presidente estiver em situação semelhante mobilizará seu “exército” e apontará um responsável pelo problema para dispersar e desviar a “atenção das questões centrais” do País. Esse exemplo do vídeo é perfeito e mostra que o governo não está para brincadeiras, pois sua agenda tem padrinhos poderosos — o mercado e o capital — dispostos a qualquer coisa para viabiliza-la. Com ou sem Bolsonaro na Presidência da República.

Essa agenda envolve a sofisticada, complexa, profunda e extensa reforma da Previdência, em tramitação na Câmara dos Deputados, que entre outros objetivos, retira o atual Sistema Previdenciário da Constituição, cria regras mais duras para acesso à aposentadoria e outros benefícios sociais e pode até levar à privatização da Previdência Pública.

Isto porque, no texto da PEC, o governo propõe o regime de capitalização inspirado no falido modelo chileno, criado no início da década de 80, ainda sob a ditadura de Pinochet. Leia também Reforma da Previdência: modelo chileno é alerta aos brasileiros

Um dos objetivos da reforma de Bolsonaro “é a privatização da Previdência Pública, mediante instituição de novo regime de Previdência, organizado com base em sistema de capitalização, na modalidade de contribuição definida, de caráter obrigatório para quem aderir, com a previsão de conta vinculada para cada trabalhador e de constituição de reserva individual para o pagamento do benefício, com ‘livre escolha’ pelo trabalhador da entidade e da modalidade de gestão das reservas, assegurada a portabilidade”, explica em artigo o diretor licenciado de Documentação do DIAP, Antônio Augusto de Queiroz.

As oposições de esquerda — de todos os matizes — o pensamento progressista, democrático e popular necessitam construir uma unidade e ter foco, sem dispersão. É preciso centrar as atenções nas ações do núcleo econômico do governo, comandado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de onde parte e partirá as principais mudanças, em desfavor do povo e do Estado brasileiro.

* Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



Publicidade

TEXTOS DESTE +

OUTRAS COLUNAS