João Quartim de Moraes

 A Engrenagem

 Um companheiro e amigo, excelente conhecedor da política italiana, reforçou meu comentário “Arremedo de justiça”, frisando que a “farsa” que condenou Battisti à prisão perpétua é “inegável e tosca”: ele “foi acusado de assassinatos cometidos na mesma hora em duas cidades diferentes”.

Fui atrás dessa acusação, que pressupunha sobrenatural ubiquidade. Não tive dificuldade em encontrar uma página inteira da Folha de SP (p. A6) consagrada ao caso, com data de 30 de janeiro de 2009, quando o STF estava discutindo o pedido de extradição encaminhado pelo governo Berlusconi. O jornal começa papagaiando os comunicados oficiais do governo italiano: “foi assegurado amplo direito de defesa ao longo dos processos judiciais”. Mentira: os advogados de “defesa” foram designados proforma pela máquina judiciária, baseando-se em procurações mais tarde consideradas falsas em perícia realizada na França: ao fugir, Battisti deixara folhas em branco assinadas, que foram preenchidas anos depois com nomes de advogados que defendiam diversos dos acusados, indicados pela liderança dos (isto é, pelos delatores premiados). O advogado designado para “defender” Battisti admitiu que jamais falou com ele, não podendo, pois, contestar as novas acusações imputadas pelos delatores premiados, os quais responsabilizaram o ex-companheiro, que estava refugiado na França, por quatro crimes de morte. Julgado à revelia, Battisti foi condenado à prisão perpétua.

Na referida página da Folha há um quadro resumindo os quatro crimes imputados ao deportado. O 2º e o 3º crimes têm a mesma data: 16 de fevereiro de 1979. Um ocorreu em Mestre, outro em Milão, a 267 km. de distância. O jornal não indica o horário dos crimes, mas ambos ocorreram à luz do dia. Seria demasiado grotesco dizer que Battisti participou de dois homicídios simultâneos. Por isso acusaram-no de ter sido apenas um dos mandantes do 3º crime. As “provas” são todas testemunhais e os nomes dos acusadores nos quatro crimes coincidem em larga medida. Eles descarregaram no foragido a carga mais pesada, sendo por isso premiados com o alívio de suas próprias penas.

No mesmo dia 30 de janeiro de 2009, irritado com o ministro da Justiça Tarso Genro, que atribuíra os insistentes pedidos de extradição de Battisti formulados pelo governo Berlusconi ao ambiente dos “anos de chumbo” que persistiria na Itália, o deputado Ettore Pirovano, do movimento fascista Liga Norte, declarou que “O Brasil é conhecido por suas dançarinas e não por seus juristas”. “Dançarinas”, claro, era um eufemismo para prostitutas. Que seja esse o aspecto pelo qual o Brasil é conhecido por italianos (e outros europeus) cafajestes, como o tal Pirovano revela duas misérias. A das tristes e pobres “dançarinas” nossas compatriotas e a dos estrangeiros safados que lotam voos fretados para fazer “turismo sexual” por aqui, muitas vezes com menores de idade.

Em 31 de dezembro de 2010, seu último dia no exercício da presidência, Lula concedeu asilo a Battisti. Porém, os fascistas mais aguerridos d’aquém e d’além mar tinham inscrito o asilado no rol de seus acertos de conta. Ao evocar dez anos atrás os fantasmas dos “anos de chumbo” para explicar a sanha punitiva de Berlusconi, Tarso Genro pressupunha, com otimismo, que os fantasmas eram apenas fantasmas. Engano: eles estão vivos e acertando contas.

* Professor universitário, pesquisador do marxismo e analista político.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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