Janaína Silveira

China: 40 anos de reforma, abertura, adaptações e criatividade

A China comemorou em dezembro os 40 anos de reforma e abertura, a política que catapultou a economia do país então majoritariamente rural e agrário em 1978 ao posto de segunda no ranking mundial. No Brasil, ainda que o período fosse de atenção à chegada do novo governo, ainda assim houve boas análises na mídia por aqui. O tema, no entanto, não se esgota.

Há debates intensos tanto no que se refere ao que motivou tal crescimento quanto a suas consequências e atuais desafios. Nenhum destes vieses tem explicação trivial, e a própria natureza do Estado chinês e de sua condução econômica convida à reflexão. Somado a isso, para quem acompanha a China, não é novidade que muitas das previsões – principalmente as que indicavam queda – falharam.

O desenvolvimento chinês desde a política de reforma e abertura é tão intrigante quanto vigoroso: nestas quatro décadas, o Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassou os US$ 12,8 trilhões, atrás apenas dos Estados Unidos. A China tem as maiores reservas internacionais do globo, que ultrapassam os US$ 3,1 trilhões, e contribuiu em 2017 com cerca de 30% do crescimento global. É ator fundamental em processos decisivos no mundo, tais quais ambiente, globalização e defesa. Ainda estima-se em 700 milhões o número de pessoas que retirou da pobreza.

O desenvolvimento econômico peculiar da China é palpável tanto para o pesquisador que observa os números quanto para o turista em visita a uma grande metrópole, com Beijing, Shanghai, Guangzhou ou Hangzhou. Se nos anos 2000 eram os guindastes por toda a parte que anunciavam a construção de uma nova China, agora são os smartphones como meio de pagamento que saltam aos olhos e dão pistas sobre mudanças estruturais da economia chinesa, em que serviços e consumo ampliam a contribuição no crescimento. A sociedade que praticamente já abandonou o papel-moeda enriqueceu.

O país ganhou um peso econômico que se sobressai à fama de fábrica do mundo notabilizada nos anos 2000 e de crescimento acelerado a dois dígitos via obras de infraestrutura e de urbanização. Tais características, claro, não são desprezíveis: são estas inclusive que fizeram da China um motor global graças às vultosas compras de commodities – onda em que o Brasil surfou sem percalços até meados desta década. É parte deste processo também a dependência tecnológica de outros países, quando a China fabricava produtos de alta tecnologia, embora sem deter o know-how para produzir componentes essenciais, casos de chipsets, por exemplo. Tal cenário mudou: se em 1992, os produtos não industriais e de baixa tecnologia perfaziam 65,7% das exportações chinesas, em 2017 este era o perfil de apenas 28,6% das exportações, segundo a UN Comtrade.

Com o processo de catching-up atestado por dados, o desejo do governo é que mais e mais componentes de alta tecnologia passem a também ter o selo Made in China. Tanto que o termo é nome de política oficial de Beijing, a Made in China 2025, que lista 10 setores preferenciais para o incremento tecnológico, a saber: tecnologia da informação e inteligência artificial, robótica, aeroespaço e equipamentos, tecnologia naval e equipamentos, trens de alta velocidade, veículos e equipamentos movidos a novas energias, geração de energia, biofármacos e produtos médicos e implementos agrícolas. Neste guarda-chuva de manufatura tecnológica está também uma política ambiciosa de conteúdo nacional – e de campeões nacionais – a fim de que a China produza até 2025 70% do conteúdo.

A China é também grande receptor de investimentos estrangeiros – muitos dos quais significam trocas importantes de tecnologia – e é investidor em outros países, com peso notável na África do Sul, mas pegadas também robustas na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Tal perfil a lançou em programas ousados, tal qual a Iniciativa do Cinturão e Rota, um manancial de projetos financiados pelos chineses em diferentes países para a construção de infraestrutura física e digital. Acredita-se que o que alguns chamam de diplomacia do crédito possa injetar US$ 1 trilhão em projetos ao redor do globo.

Só no Brasil, nos últimos 10 anos, estimam-se em mais de US$ 55 bilhões os investimentos chineses em setores que vão da infraestrutura à agricultura, passando por digital. Os dados são do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Vale notar, no entanto, que de 2017 para 2018 houve uma queda de 75% nos investimentos chineses no Brasil, saindo de US$ 11,3 bilhões para US$ 2,8 bilhões. O setor energético, que não teve grande aporte, é tido como um dos motivos para a retração, embora não o único.

A China mesma passa por ajustes em sua economia, e a expectativa é de que em março anuncie um novo patamar de crescimento, entre 6% e 6,5%, abaixo da meta de 6,5% que adota desde 2013. São tempos de retração em exportações e importações, que sinalizam reação à guerra comercial que já se arrasta por meses com os Estados Unidos, e uma retração no mercado interno, foco dos esforços pós-crise de 2008. Junto a um vigoroso pacote de estímulo da ordem de US$ 685 bilhões, o consumo interno – e o aumento da renda dos chineses – foi o queridinho na contenção aos danos da crise global. Na esteira daquela estratégia, veio o medo da alavancagem excessiva e da sombra de débitos regionais que poderiam pressionar o crescimento do país como um todo. É bastante claro que a velocidade da máquina chinesa diminuiu, mas nenhum pouso forçado, como chegou a ser anunciado, se confirmou.

Agora, é o ambiente privado que recebe atenção, numa China que se apresenta mais aberta aos negócios, sejam estes nacionais ou estrangeiros, pelo menos em esforços da burocracia e regulações estatais. Entre as críticas à condução da política econômica atual está a suposta preferência às estatais na obtenção de créditos e subsídios, e daí mais dificuldades para o ambiente privado, processo esse que não é novidade. É, aliás, um dos motivos do surgimento de uma criatividade financeira peculiar à China, que deixava a descoberto, na maior parte dos casos, pequenas e médias empresas. É deste arcabouço que o sistema de bancos sombra tomou fôlego e, antes que seja visto como algo ilegal, vale dizer que eram instituições, algumas vezes ligadas a bancos tradicionais, que proviam serviços financeiros a uma gama maior de atores. Com o advento da internet e da tecnologia digital, são parte importante do boom das fintechs chinesas, estrela da economia digital da China, tão vibrante quanto local. Devido a amarras regulatórias, dentro e fora da China, a maior parte das gigantes da tecnologia financeira da China atua apenas em território nacional.

É, aliás, este um ponto crucial para se entender a China em seus 40 anos de reforma e abertura. Dependente de uma economia globalizada, e atuando como catalisadora e agente em grande parte da formação das cadeias globais de valor, a China é também modelo de desenvolvimento localizado, em que suas práticas e suas regulamentações e instituições são não apenas peculiares, mas muitas vezes herméticas. Uma das características mais interessantes do processo chinês é o caráter de experimentação a que o país recorre – as zonas econômicas especiais do início da indústria leve chinesa eram apenas quatro no início da década de 1980 – e o quanto prestam atenção ao aprendizado e à experiência, num processo criativo pautado não só por desafios inerentes a um país continental cuja população equivale a quase um quinto do total mundial e em que as políticas precisam ser efetivas para que o Partido Comunista da China mantenha o apoio popular, mas pela velocidade. Seja pelo quadro global, seja por desafios internos, as mudanças chinesas têm sido tônica. A economista Yuen Yuen Ang fala em uma improvisação dirigida no processo de desenvolvimento chinês quando se refere ao poder de adequações e reinterpretações locais – e que podem ser setoriais e autárquicas – e que, talvez, sejam o mecanismo amortecedor de impactos provocados pelo ambiente externo.

Tendo este pano de fundo, pode-se dizer que o processo de reforma e abertura chinês é contínuo e mutante, tendo em vista a adaptação a novos cenários e a busca pela atencipação de riscos. Não só a hegemonia do Partido Comunista da China está em jogo, mas a sua própria legitimidade. E 2019 não é um ano qualquer, é, sim, o ano em que a República Popular da China comera o 70º aniversário e véspera daquele em que o próprio partido celebrará o centenário. É, pois, um momento em que um outro modelo de desenvolvimento quer celebrar seu sucesso.

* Jornalista, viveu em Beijing de 2007 a 2013, para onde viaja com regularidade. Escreve para a agência de notícias chinesa Xinhua e para a plataforma online XinhuaNet. Autora do guia China: O Melhor de Pequim e Xangai.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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