Cloves Geraldo

"Rasga Coração" - Por outros caminhos

Drama político do cineasta gaúcho Jorge Furtado põe em cheque militância do pai a partir das experiências do filho como líder estudantil secundarista.

De repente em meio às manifestações estudantis secundaristas lideradas por seu filho Luca (Chay Suede), o velho militante Manguari (Marco Ricca) vê um descompasso entre suas táticas e as que o jovem põe em ação. É o bastante para os dois entrarem em conflito e se agredirem mutuamente. O interregno entre as agitações dos anos de chumbo e as de agora exigem outra forma de se organizar e se manifestar. Como dizia Karl Marx (1818/1883) a história só se repente em termos de farsa. Há de se analisar detidamente o momento histórico e se fazer os ajustes necessários para que os objetivos da almejada revolução sejam atingidos.

Não é outro o teor da discussão, pontuada pela crescente curva dramática, neste intenso drama-político “Rasga Coração”, adaptado da peça homônima do dramaturgo paulista Oduvaldo Vianna Filho (1936/1974). São dois personagens da alta classe média, num entrevero político-ideológico em altos decibéis. Não à toa em plena vigência do Ato Institucional nº 5 (13/12/1968), imposto pela Ditadura Militar (1964/1985), durante o Governo do Marechal Arthur da Costa e Silva (1899/1969), que se prolongou para além de seu mandato (1967/1969. Deve-se considerar que o autor terminou de escrever sua peça no ano de seu falecimento. Portanto no período mais aterrorizante do governo ditatorial civil-militar.

E estendeu-se para além do mandato (30/10/1969/15/03/1974) do imposto General Emílio Garrastazu Médici (1905/1974). O saldo deste fruto da Guerra Fria (1945/1985) e das forças conservadoras nacionais, executado pela ditadura, foram 400 mortos, 20 mil torturados e 7.00 exilados. Isto sem contar o impreciso número de “desaparecidos”, ainda não identificados devido à resistência da permanente estrutura militar. É em meio a este redemoinho nas trevas que se enovelaram os 40 anos entre a militância de Manguari e a de Luca. Neste período sonhos da juventude brasileira acabaram submersos num mar de sangue e corpos dilacerados.

Manguari se aliou aos operários

Não faltou coragem a Vianna Filho, mais conhecido como Vianinha, para contextualizar de forma sub-reptícia, através do movimento estudantil secundarista, a repressão aos jovens de então. O que, na verdade, oprimia todos os segmentos sociais. Principalmente, os ativistas políticos democratas e nacionalistas e, em particular, os de esquerda. Entretanto, o filme recria indiretamente este clima nas palavras de ordem da época: ”O povo unido jamais será vencido”. É o que se vê nas sequências da manifestação liderada por Luca pelas estreitas ruas do Rio de Janeiro de 1974, sob a vigilância dos peemes fortemente armados.

Através de uma narrativa em flashes-backs, o cineasta gaúcho Jorge Furtado (1959) e seus co-roteiristas Ana Luíza Azevedo e Vicente Moreno recriam por contraste a militância estudantil secundarista do jovem Manguari (João Pedro Zappas) e de seus companheiros. A de seu filho Luca e seus companheiros em nada diverge do que ele participou intensamente. E a partir destes dois centros de ação, Furtado contextualiza a vivência de cada um. A de Manguari não se restringia à escola particular classe média onde estudava, estendia-se à adesão dos operários das fábricas. Seus aliados da luta para atingirem concretamente seus objetivos.

Não é outra a intenção dele na sequência em que ele e seus companheiros se prepararam para a manifestação, precedida de preparação de correntes para travar os portões das fábricas. Decorre daí a repressão brutal dos peemes com seus cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo aos jovens ativistas. São nestas sequências, sem quaisquer diálogos referenciais ou antecipativos, que Furtado faz o contraste entre o tratamento dado pela classe média aos seus filhos militantes e a falta de solidariedade dela aos marginalizados companheiros negros-proletários.

Camargo soltou o filho, mas deixou a jovem afro presa

Enquanto, o jovem Manguari era levado para casa, depois de um conchavo de seu pai Camargo (Anderson Vieira Cruz) com o delegado, seu companheiro afrodescendente era torturado na prisão pelos peemes. Sem que ninguém ao menos tentasse livrá-lo do terror do cárcere. Inclusive seu amigo músico (Georges Sauna Clorde) ainda consegue se livrar da prisão, mas não se vê mais o afro. Estas sequências referenciais se repetem com Manguari e Luca, quando este se vê acuado e preso pelos peemes, durante uma manifestação de rua dos secundaristas nos anos 70. Desta vez é a afrodescendente Talita (Cinãndrea Guterres), uma das líderes do movimento, que acaba largada na cela.

Os tempos, porém, são outros. A luta a fez amadurecer. Ela se insurge e se faz respeitar, mesmo perante o cinquentão Mangari (Marco Ricca). Tem a exata visão de sua importância e se faz ouvir. Ainda que Luca se veja acuado pelo pai, ao tentar demovê-lo da ideia de largar a escola. Se antes sua vontade era se tornar médico e ir para o interior atender os pacientes carentes, ao invés de se enriquecer nos hospitais e em sua clínica num grande centro, ele agora tende a seguir outro rumo. Daí o choque entre ele e o pai às vistas da namorada Mil (Luíza Arraes). Então as divergentes concepções de pai e filho afloram com violência.

A exemplo do pai Camargo, Manguari procura controlar o futuro do filho. E direcionar sua concepção de movimento político-ideológico. Menciona inclusive a necessidade de ele fazer alianças para atingir seus objetivos políticos. Para na hora do confronto, ele, como pai, interceder junto aos seus poderosos amigos para livrá-lo da cadeia. É uma concepção retrógada e pequeno-burguesa. Nesta altura seu fraseado se tornara repetitivo, sem sustento na realidade. Enquanto, Luca, chateado com suas interferências, diz estar disposto a pôr (todas as estruturas) abaixo. “Não é só (fazer) a revolução política, é preciso revolucionar tudo”, afirma ele.

Nena alegra Manguari e vigia o filho Luca

Mesmo mantendo sua narrativa neste eixo central, Furtado dota-o de subtramas que reforçam o comportamento pequeno burguês de Manguari e sua companheira Nena (Drica Moraes). Ela é a dona de casa disposta a fazer tudo para alegrar o companheiro e vigiar as mínimas ações do filho. Tal é sua vigilância que chega a confundir o sexo da pessoa com a qual ele divide o quarto em certa noite. É hilariante, ela apressa Manguari a interceder e ele se vê num impasse. A pressão, os gestos e a correria dela não lhe permitem ter noção do tipo de companheira que há décadas divide com ele o mesmo espaço. Sem se ater à forma como ela negligência o filho.

Não bastasse isso, numa escancarada crítica ao outrora insurgente líder estudantil, Furtado o constrói como o voyeur, a espreitar a vizinha que para ele se despe. E não se furta, além disso, de mostrá-la ao filho. De qualquer forma não é de tudo hipócrita. Leva o espectador a lembrar-se dele mais como o jovem que sustentou o paupérrimo músico sem teto, dando-lhe um lugar para morar e o socorrendo num instante de aguda doença. Isto numa interpretação superlativa do ator George Sauna Clorde, como o fragilizado Bundinha. Às vezes, ele dava a impressão de ser gay, noutra era satírico, gozador e heterossexual, como na ótima sequência em que seduz a própria jovem Nena (Duda Meneghetti) e se mostra como é.

Eis um filme que, à sua moda, procura fazer uma crítica aos velhos militantes estudantis, vendo-os como encastelados no poder central. Manguari vê o mundo através das janelas de seu big-apartamento em Copacabana e ainda com a visão de seus tempos secundaristas. O contraste é feito por Furtado através do filho Luca, que se revela e procura seguir em frente à sua moda e de acordo com o momento histórico atual, que exige outro tipo de movimento e militância. O modo como segue seu caminho demonstra o quanto está disposto a engendrar suas próprias ideias. Trata-se de um bom princípio. Os anos a despontar exigirão muita luta.

Rasga Coração: Drama-político. Brasil. 2018. 113 minutos. Música: Maurício Nader. Montagem: Giba Assis Brasil. Fotografia: Glauco Firpo. Roteiro: Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Vicente Moreno. Direção: Jorge Furtado. Elenco: Marco Rica, Drica Moraes, Chay Suede, George Sauna Clorde, Cinãndrea Guterres, João Pedro Zappa, Luíza Arraes, Duda Meneghetti,

Assista ao trailer:

* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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