Jaime Sautchuk

 Mais Médicos perde

 Foi aberto esta semana o edital pra contratação dos 8.517 médicos que irão substituir os cubanos no programa Mais Médicos, com prioridade aos brasileiros e estrangeiros que tenham registro profissional do CRM.

Em seguida, em outro edital, serão chamados os médicos brasileiros formados no exterior, que, segundo MEC, na maioria obteve diplomas no Paraguai e na Bolívia, onde as regras de ingresso na universidade são mais tênues.

Nas muitas faculdades particulares paraguaias não há exame vestibular. Muitas delas, em cidades fronteiriças, já foram criadas de olho no público brasileiro. Em Pedro Juan Caballero, por exemplo, vizinha a Ponta Porã (MS), com fronteira seca, há sete dessas formadoras de médicos, com preços vantajosos, quando comparados aos das brasileiras. Lá, a mensalidade é de R$ 700,00 a R$ 1.000,00, enquanto, aqui, é de R$ 4.000,00 pra cima.

Quase 10% da população de Pedro Juan, de 115 mil pessoas, é de brasileiros, que têm forte peso na economia local, em especial no comércio varejista e no mercado imobiliário. Em Ciudad del Este, Presidente Franco, vizinhas a Foz do Iguaçu, e outros centros ocorre fenômeno parecido, com intensidades vaiáveis.

Na Bolívia, há muitas décadas é Santa Cruz de La Sierra que se apresenta como “cidade universitária”, atraindo estudantes brasileiros de todas as regiões e não apenas na área da Medicina. Tem universidade pública e, hoje, é a maior cidade boliviana, situada na planície, a uns 400 km da fronteira, região tradicionalmente ocupada por ruralistas brasileiros.

Uma grande desvantagem é a de que a Medicina desses dois países não é tão bem cotada quanto à cubana no ranking da Organização Mundial de Saúde (OMS).

CUBANOS

Grande parte dos profissionais da Medicina no Brasil é assim: bem de vida, estuda em escolas particulares e cursinhos caros pra entrar em universidade pública, que é melhor, e ocupar a vagas sem pagar

nada. No curso, escolhe logo uma especialidade, quer distância da clínica geral.

Quando se forma, não vai estagiar em locais distantes, ainda que pra ressarcir o custo dos estudos, pois prefere a vida boa das cidades, em clínicas privadas ou consultório particular. Nem conhece o corpo humano – se é cardiologista, não sabe onde está o fígado.

Na atividade médica, quase sempre mantém acertos com laboratórios e fatura uma grana pra receitar medicamentos, nem que pra isso tenha que inventar doenças nos pacientes. Sendo obstetra, nunca faz parto natural, pois normalmente toma mais tempo e consome menos medicamentos.

O programa Mais Médicos, por sua vez, funciona com voluntários nacionais e estrangeiros, espacialmente os mais de 8.500 cubanos, mundialmente reconhecidos como os melhores, mais completos. Eles têm formação generalista, própria ao atendimento profilático, em casa, muito mais eficaz.

Eles vieram pra cá pelas mãos da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e estão indo embora porque o presidente eleito falou um monte de asneiras a respeito deles. Assim, pelo menos 700 municípios brasileiros voltam a ficar sem nenhum médico.

É interessante notar que esses profissionais não estão localizados em grandes quantidades nas regiões Norte e Nordeste, como a grande mídia tenta fazer crer.

As cinco unidades da federação com maior concentração de cubanos do Mais Médicos, pela ordem decrescente, são: São Paulo (1.394), Bahia (822), Rio Grande do Sul (617), Minas Gerais (596) e Pará (537).

Já as cinco com menores quantidades são Acre (102), Sergipe (94), Amapá (73), Roraima (66) e Distrito Federal (20).

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Portal Vermelho



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