João Quartim de Moraes

Pela unidade antifascista

A percepção da grave ameaça fascista no processo eleitoral em curso vem mobilizando as forças vivas da consciência democrática nacional, empenhadas em barrar o caminho do candidato que faz apologia da tortura, dos assassinatos em massa de militantes de esquerda, da opressão das mulheres, de todas as modalidades de obscurantismo cultural. 

Exemplo vibrante dessa mobilização foi proporcionado pela rápida e amplíssima repercussão do movimento “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, que em 29 de setembro levou às ruas, em grandiosas manifestações por todo o Brasil, o clamor: “Ele Não!”

A perspectiva de derrotar a barbárie nas urnas está ao alcance das mãos. É possível vencer essa batalha decisiva. Mais difícil e mais longa será a luta para suprimir a dinâmica política perversa que permitiu a um defensor de fuzilamentos em massa e admirador de abominações éticas como o torturador Brilhante Ustra galgar elevados patamares de intenção de voto. Como se ativou tamanha degenerescência ideológica?

Recordemos os fatos. Em 10 de junho de 2013, cerca de cinco mil manifestantes vinculados ao Movimento Passe Livre de São Paulo foram agredidos com estúpida violência pela Policia Militar (PM) de SP, a mando de Alckmin. A indignação suscitada pelos relatos e imagens dessa estupidez policial, largamente ecoados nas redes sociais da internet, levou muito mais gente às ruas, a partir do dia 13, em solidariedade aos manifestantes agredidos e em defesa do direito imprescritível de se reunir para fazer valer suas reivindicações. Entrementes, o cartel mediático, que até então vinha justificando a pancadaria distribuída pela PM, mudou de alvo. Bem menos por solidariedade com os agredidos do que por ter percebido que as manifestações poderiam trazer considerável prejuízo político ao governo federal, TVs e imprensa empenharam-se em “pautar” o movimento, apontando itinerários, mostrando os cartazes mais convenientes para condenar “a” corrupção, “os” políticos e “os” partidos em geral. No dia 20, quando os estudantes juntaram-se na Avenida Paulista para comemorar seu êxito parcial (suspensão do aumento das tarifas de ônibus), encontraram uma “pauta” inesperada, mas perfeitamente organizada: bandos fascistas decididos a tomar conta da manifestação. Registramos o depoimento de uma jovem jornalista que assistiu a essa operação:

Fiquei HORRORIZADA com o que vi na Paulista na quinta-feira passada (dia 20 de junho). Os partidos escorraçados da manifestação, descendo pelas transversais da avenida e seus militantes baixando bandeiras. Tudo isso provocado por uma turba de alguns milhares de idiotas despolitizados que cantavam "sem partidôoo", "sem bandeiráaa", "eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" e outras coisas como "mensaleiros", com uma linha de frente composta por 200 homens, só homens, de cabelo raspados e marombados que tentavam agredir fisicamente, o tempo todo, militantes de todo e qualquer partido ou movimento social. Vi uma bandeira da UNEAFRO sendo queimada [...].

Assustou-a, além da agressividade desses “poucos nazistas e skinheads”, “a turba imbecil que acabava (lhes) dando lastro”. Aí está o nervo da questão: as tropas de choque da reação tinham base de massa.

Bem se sabia que as forças de direita estavam decididas a jogar pesado para ganhar as eleições de 2014. Mas a dinâmica social antecipou-se aos calendários institucionais: desde o final do primeiro semestre de 2013, num bom número de centros urbanos das regiões mais ricas do país, as mãos e gargantas da direita dominaram as ruas e os espaços sonoros adjacentes, com o apoio estridente da burguesia batedora de panelas. A difícil reeleição da Dilma à presidência operou-se na contra mão dessa vaga de histeria anti PT. Mas a direita acumulara reservas estratégicas suficientes para retomar a ofensiva, ocupando os espaços públicos com grandes, sucessivas e raivosas manifestações, agora visando a derrubar a presidente. Atingido esse objetivo com o golpe parlamentar de abril 2016, o vice Temer, guindado à presidência, seguiu docilmente as diretrizes do consórcio golpista, o que lhe valeu níveis inéditos de rejeição popular.

As eleições parciais de 2016 ainda refletiram o impacto da onda reacionária dos anos anteriores, mas ao se colocaram na linha de frente da resistência às medidas anti sociais e anti nacionais do governo espúrio, os partidos de esquerda voltaram a avançar enquanto os partidos do centro e da direita comprometidos com Temer recuavam a olhos vistos. Entretanto, o vírus fascista disseminado pela tenaz intoxicação reacionária promovida pelo cartel dos donos da notícia e alimentada pelo facciosismo da máquina Lava Jato favorecera a ascensão do Chefe das forças sombrias. Dois fatores lhe permitiram tornar-se uma grande ameaça eleitoral: (1) a escandalosa farsa da condenação, literalmente “a jato”, de Lula na segunda instância, de modo a impossibilitá-lo de disputar uma eleição na qual, de longe, ele era amplo favorito e (2) o fracasso dos candidatos dos partidos da direita e do centro (PSDB/DEM, MDB).

Essa perigosa conjuntura eleitoral impõe às forças democráticas e socialistas uma ampla unidade antifascista. Seria quimérico esperar que esse espírito unitário prevalecesse claramente no primeiro turno. Coloquemo-nos no ponto de vista de um defensor da candidatura Ciro Gomes. Ele é um excelente polemista, defende um programa progressista consequente, com ênfase num plano nacional de desenvolvimento e dispõe de uma expectativa de votação no segundo turno melhor do que a de Haddad. É compreensível que nosso "cirista" sinta alguma amargura ao constatar que são baixíssimas as probabilidades de que seu (bom) candidato chegue ao segundo turno. Mas sabemos todos que, sem os votos de Ciro, não derrotaremos o nazistão.

* Professor universitário, pesquisador do marxismo e analista político.




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