Cloves Geraldo

"As Herdeiras"

O amor em tempo de ocaso

Centrado na decadência de duas burguesas na terceira idade, filme do paraguaio Marcelo Martinessi faz da paixão a única saída para uma delas.

Eis um filme para se assistir como um melodrama que aos poucos nos envolve na decadência financeira e no ocaso da vida do casal de lésbicas paraguaias. Já na terceira idade, elas expõem a sensação de que foram tomadas pelo tédio e a paixão já não as envolvem. Vê-se isto quando Chiquita (Margarita Irun) se aproxima de Chela (Ana Brun) e esta se mantém fria. O ambiente de luz baça em que vivem entre móveis antigos em tons marrons, no qual destoam apenas o piano e as pinturas, reforçam esta impressão. Não só os anos pesam, mas também a mesmice da relação.

Não à toa o roteirista e diretor deste “As Herdeiras”, o paraguaio Marcelo Martinessi (Assunção, 1973), lhe dá o ritmo de um bolero. O vazio é cortante, os movimentos substituídos por gestos e olhares inconclusos. As frases, ditas pela metade, são o bastante para se entenderem. Mesmo a madura empregada afro-paraguaia, Pati (Nilda Gonzalez), se desloca do ritmo delas. É neste clima que Martinessi tece seu tema central: o impasse da paixão na terceira idade e como ela pode ser revigorada em outras circunstâncias que reafirmam o dito: um amor findo só se cura com outro.

Assim, quando Chiquita é presa por sonegação de impostos, a vida de ambas entra num turbilhão que reflete a decadência já prenunciada. Este é fio condutor da história, cuja narrativa se desdobrará em três subtramas: I – as visitas de Chela a companheira na penitenciária; II – a solidão de Chela no apartamento do casal; III – as surpresas que o viver em outro ambiente social lhe reserva. Não à toa, Martinessi muda o leque narrativo, estruturado desde o início como algo inevitável, pessimista, para um universo mais amplo e solar. A partir daí ela terá de se situar para viver.

Filme trata apenas do universo das lésbicas

É quando a narrativa ganha outra conformidade, pois Martinessi trata apenas do universo das lésbicas. Porém, menção alguma faz à tendência sexual do casal Chiquita/Chela. Prefere a sutileza, um carinho aqui, outro ali. As duas parecem duas amigas a compartilhar o mesmo teto. Reação alguma se vê da parte de Chela quando Chiquita é presa por sonegar imposto. Ou mesmo quando a visita na penitenciária. Prefere interiorizar a dor e a perda momentânea dela. Há em seu comportamento a tendência ao incontornável.

Com esta opção dramática, Martinessi prepara o espectador para as mutações que Chela irá sofrer na segunda e terceira parte da narrativa. A prisão da companheira, tornou-a cada vez mais solitária. Às vezes a visita ou se encontra com uma ou outra amiga. Prende-se mais às conversas com a doméstica Pati sobre os móveis, piano, pinturas e pratarias listados para venda e quitação da dívida com o fisco em razão da sonegação de impostos por Chiquita. Devido a isto, sua casa torna-se um vai-e-vem de potenciais compradores. A cada hora importante peça em sua vida deixa um vazio.

Como sempre nestes impasses, roteirista e diretor tendem a introduzir um personagem de fora, secundário, ligado ou não ao principal, para solucionar o impasse narrativo. Aqui Martinessi se vale da idosa Pituca (Maria Martins), amiga de longa dala do casal Chiquita/Chela. Vivaz, de língua afiada, ela destila fel contra outra amiga, por esta suportar a traição do companheiro e viver com ele “apenas pelo dinheiro”. Mesmo assim, Chela passa a levá-la à reuniões e jogos de carta com seu grupo de idosas amigas e termina por se tornar uma espécie de motorista dela.

Chela se apaixona pela desconhecida

Este fato, a mudar os rumos da narrativa, se estende a outro mais significativo. Logo na primeira vez que sai de seu casulo, Chela vê à distância uma jovem de bermuda azul, que logo desaparece. Não sabe quem é, nem lhe viu o rosto. Só parte do corpo de frente. É uma breve sequência, de segundos, quase um flash, mas o suficiente para atiçar seu desejo. Torna-se então uma obsessão, mantida por ela sem qualquer manifestação. Seu próprio comportamento introspectivo ajuda-a a mantê-lo submerso.

A construção dramática de Martinessi, a partir deste redespertar amoroso de Chela, é exemplar. Se antes, ele usa a sutileza para construir a personagem, o mesmo ocorre com a mudança. Vai num contínuo, o espectador não se dá conta de quem se trata. Angy (Ana Ivanova) é quase quarentona, que transpira erotismo e sedução. Veste-se de bermuda e uma blusa a lhe expor. Sua fala é de quem sabe envolver, busca a intimidade sem gestos ou avanços. Chela se deixa envolver, leva-a para um lugar e outro, inclusive a mãe para tratamento em hospital. Angy age como amiga.

Elas, porém, já não vêm razão para tal distanciamento. Em duas bem construídas sequências, Martinessi confirma o quanto acertou neste seu longa-metragem de estreia, Na primeira, como se quisesse fazê-la relaxar, Angy ensina Chela a fumar um cigarro. Numa atitude juvenil, ela se mostra capaz de desfrutar o proibido. Riem. São duas garotas sapecas. E na segunda, elas se usam mutuamente: Chela por aceitar ir a outra cidade só para ficar com a amada; Angy por ter a chance de deixar-se ver, ao lhe explicitar sua relação com o namorado em picantes e eróticos detalhes.

Vida do casal burguês muda

Contudo, Martinessi não se descuida da sub-trama na qual Chiquita e Chela ainda se relacionam. Porém, a relação amorosa entre elas esfriou e a frequência das visitas diminui. A sequência em que a acuada prisioneira lhe pede para abrir o portão do corredor da prisão o confirma. Não porque não queira, sua atenção não está mais voltada para a companheira, prefere se ater a sua atual paixão. E assim se retira antes de visitá-la. Sozinha, ela aprende a ganhar seu sustento com o seu carro, embora não tenha carteira de habilitação. Pouco se atém a Chiquita e a perda de status.

De casal de lésbicas burguesas, atentas ao que herdaram da família, vivendo uma para a outra, elas se afastam por razões opostas. Da prisão Chiquita delegou a sua advogada o controle da venda dos móveis e pinturas e o piano. Deles deve sair o dinheiro que irá quitar as dívidas do casal com o fisco. Os interessados em comprá-los surgem como abutres, após a carniça ser espalhada pelo estreito espaço da sala. Ela se inquieta só quando, por fim, o piano, que reforça sua paixão pela música clássica, é levado, na sua ausência. Só a relação com Angy evitou suas lágrimas.

Martinessi joga com sua paixão por Angy todo o tempo. Principalmente na sequência em que elas ficam sozinhas no apartamento e começam a ficar próximas. Chela a cada olhar, cada frase, entra numa espécie de transe que se torna incontrolável. Angy, perspicaz, se deixa seduzir, espera que ela, finalmente, se exponha. Também ela se contém. São duas mulheres de classes diversas. Uma burguesa, outra proletária. A uni-las apenas a paixão. Chela vê-se desnorteada, é muito forte a atração exercida pela charmosa e sensual morena diante dela. E então escapa.

Filme trata da paixão na terceira idade

O importa nesta relação é a leveza com que Martinessi estrutura as sequências e as cenas. No início, quando Chela e Angy começam a sair juntas, predomina a relação platônica, que evolui para o erotismo. Ele é provocado pelo jeito como Chela se detém em Angy, motivada pela forma como a amada se mostra. O erótico neste “As herdeiras” advém não da entrega, se concentra no desejo. É o bastante para o espectador sentir o quanto a sensibilidade e o refinamento de Martinessi evitaram indevidas cenas explícitas, chamariz de público. Resta o amor de uma pela outra.

Outra questão, talvez a mais importante, é que Martinessi trata da paixão na terceira idade. A relação do casal Chela/Chiquita tratada por ele em poucas sequências, ainda que de forma sútil, havia caído no tédio. Bela e em forma aos 66 anos não se retrai. Deste modo, o que parecia ser uma tragédia a levá-la à derrocada, causada pela sonegação e a prisão da companheira, acaba lhe abrindo caminho para seu renascer amoroso. Torna-se ativa, disposta a ir ao encontro de Angy. O que significa redescobrir a vida, longe da decadente vida burguesa e de Chiquita.

Estas mutações se evidenciam à medida que a sala do apartamento do casal Chiquita/Chela se esvazia, com a venda do que ali havia. E, além disso, simboliza o fim da relação do casal. Em contraponto, o vazio é preenchido pelo evoluir da relação Chela/Angy. Decorre daí a pergunta crucial feita pela agora amada, num instante de dúvida da idosa: é isso que você quer (Chela)? Seu caminhar para a rua fecha as duas subtramas de forma inteligente. A derrocada de Chiquita, representa seu reviver. As duas subtramas finalmente se fundem. É o resultado da montagem dialética bem encadeada por Martinessi e seu montador/editor Fernando Epstein.

Perla emociona ao cantar bolero “Onde Estás Agora”

Como um filme é um todo, Martinessi se revela grande criador de envolventes climas dramáticos, reforçados pela fotografia a cores de Luís Arteaga. O que contribui nas sequências finais para a tensão de Chela, na instigante interpretação da Ana Brum, Urso de Prata de melhor atriz no 68º Festival de Berlim. Nos dez minutos finais do desfecho, não são os diálogos que matizam seu desnorteio enquanto caminha em direção ao seu objeto de desejo, mas suas expressões, olhares e movimentos. Ela passa a sensação de que precisa de Angy para se libertar do que a aprisiona.

É o que fica matizado pela ardente voz da cantora paraguaia-brasileira Perla (1951), ao enfatizar a paixão com os versos do cantor e compositor romântico baiano Anísio Silva (1920/1989) no bolero Onde Estás Agora (1959). “Onde estás agora. Meu coração chora. Quero estar contigo. Quero dar-te um beijo. Matar meu desejo. Estar perto de ti (...)”. Um romântico e instigante fecho para um filme que trata a tendência sexual na terceira idade com leveza e otimismo, longe dos preconceitos, bloqueios e resistências impostos pelos homofóbicos e conservadores.

As Herdeiras. (Las Herederas). Drama. 2018. 98 minutos. Paraguai/Alemanha/Uruguai/Noruega/Brasil/França. Edição: Fernando Epstein. Fotografia: Luís Arteaga. Roteiro/direção: Marcelo Martinessi. Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, Maria Martins, Nilda Gonzalez.

* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".




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