Altamiro Borges

Netflix já é mais popular do que TVs nos EUA

"Os barões da mídia nativa, que idolatram o chamado “livre mercado” e a total desregulamentação da economia, deveriam ficar mais atentos ao andar da carruagem – ou do míssil. Se bobear, o seu monopólio na televisão será substituído em breve pelo monopólio da Netflix".

 Na semana passada, o instituto Wall Street Cowen & Co. divulgou uma pesquisa que deve causar calafrios nos bilionários donos de emissoras de tevê no Brasil, principalmente na famiglia Marinho. Ela mostra que o serviço de vídeos sob demanda já é a plataforma de entretenimento mais popular nos EUA. Ele superou as TVs aberta e por assinatura e até o YouTube. Em maio último, 2.500 estadunidenses responderam a seguinte pergunta: “Quais plataformas você usa com mais frequência para visualizar conteúdo de vídeo na TV?”. O resultado foi estarrecedor. A Netflix conquistou o primeiro lugar com 27% do total dos votos; a TV paga ficou com 20%; e YouTube obteve 11% dos votos.

O cenário mais grave ainda, conforme apontou a jornalista Keila Jimenez do site R-7, encontra-se entre a juventude. “Se olharmos para o recorte da pesquisa de adultos com idades entre 18 a 34 anos, a liderança da Netflix é maior: quase 40% dos jovens demonstraram que o Netflix é a plataforma mais usada para visualizar conteúdo de vídeo em suas TVs – bem à frente do YouTube (17%) TV paga (12,6%), Hulu (7,6%) e TV linear (7,5%)”. E a tendência é que este quadro se agrave nos próximos anos. “A Netflix continua a produzir uma enorme quantidade de conteúdo original. Deve gastar US $ 13 bilhões em conteúdo em 2018, estima a Cowen & Co. No segundo trimestre de 2018, a Netflix liberou cerca de 452 horas de programação original dos EUA, 51% acima do ano anterior, mas um pouco abaixo da produção recorde da empresa de 483 horas no primeiro trimestre de 2018”.

No artigo intitulado “O apetite insaciável da Netflix”, o jornalista Maurício Stycer, do site UOL, também corrobora a ideia de que a situação da mídia tradicional tendem a piorar nos próximos anos. “A capa da revista The Economist desta semana recria o famoso letreiro de Hollywood, instalado no alto de uma montanha na região de Los Angeles. No lugar das nove letras que formam a palavra que virou sinônimo de indústria de cinema, a publicação estampa as sete letras da marca que hoje encarna a sua nêmesis, a Netflix. A empresa, na visão da revista, se tornou uma indústria em si. Vários números sustentam essa ideia. A Netflix vai gastar entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões (de R$ 47 bilhões a R$ 51 bilhões) em 2018, mais do que qualquer estúdio gasta com filmes ou canais de TV investem em programação (excluindo esportes). Seus assinantes receberão 82 filmes em um ano, enquanto a Warner, o maior estúdio americano, vai lançar 23”.

“A Netflix está produzindo ou adquirindo os direitos de 700 programas de televisão, nos mais diferentes gêneros. No momento, está atuando como produtora em 21 países, incluindo Brasil, Alemanha, Índia e Coreia do Sul. Hoje ela tem 125 milhões de assinantes, o dobro do que tinha em 2014, e mais da metade deles fora dos Estados Unidos. A empresa tem valor de mercado de US$ 170 bilhões (R$ 669 bilhões) – maior do que a Disney. Dados de setembro de 2017 indicam que o consumo da programação da Netflix, via streaming, ocupa 20% do total de banda larga do mundo... A revista compartilha a previsão de um instituto de pesquisas segundo a qual a Netflix pode chegar a 300 milhões de assinantes em 2026”.

Os barões da mídia nativa, que idolatram o chamado “livre mercado” e a total desregulamentação da economia, deveriam ficar mais atentos ao andar da carruagem – ou do míssil. Se bobear, o seu monopólio na televisão será substituído em breve pelo monopólio da Netflix. A conferir!

*  Jornalista e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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