Jaime Sautchuk

Magia do futebol

Com a chegada da Copa do Mundo de Futebol, desta vez na Rússia, a seleção mais vezes campeã se prepara pra um momento único, em que representa um Brasil sem divisões, na torcida. Um momento especial, em que as nações de todos os continentes entram em disputa, mas sem armas, num gesto simbólico de uma globalização carregada de nacionalismos, mas sem xenofobia, em pura paz.

Parte indissociável da cultura brasileira, brasileiríssimo, esse esporte foi por nós importado há pouco mais de um século. Um exemplo de atividade econômica globalizada, numa dialética em que convivem o gigantismo do negócio altamente lucrativo de alguns com o singelo sentimento de amor e predileção de milhões, fonte de alegria e felicidade.

Por mais que tentem, estudiosos e comentaristas pouco conseguem explicar do que é exatamente esse estado de graça.

Alguma fé religiosa sem catecismo, crendice sem misticismo ou pura causa sem partido. Um jogo simples, de fácil compreensão, que todos, de qualquer sexo, cor ou crença, acham que sabem jogar -- talvez esteja aí o mistério.

É bem verdade que a xenofobia e o racismo têm se feito presentes em estádios e outros ambientes do futebol. A jogadores e dirigentes dos grandes clubes europeus, por exemplo, é difícil aceitar que parte de seus elencos tenha passaporte de países pobres de outras partes do mundo e sejam de outras etnias. Pior: que na hora da copa joguem pelas suas seleções.

No entanto, são justamente esses atletas os grandes trunfos dessas equipes, que mantêm olheiros mundo afora e caçam talentos onde quer que eles estejam. Dinheiro não lhes falta e, por outro lado, mesmo no Brasil, as escolinhas de futebol já formam seus plantéis de olho nessa grana estrangeira.

É certo que há nisso um problema, pra eles.

Volta e meia, esses grandes times são desfalcados de seus craques, quando convocados por seus países, como manda a legislação esportiva. Por isso, os negociantes do esporte tentam há décadas valorizar as equipes em vez dos selecionados. Criaram torneios regionais e até globais interclubes, mas não conseguiram emplacar.

Há nos atletas um sentimento de nacionalidade, uma espécie de orgulho por vestir a camisa do torrão natal. O componente não econômico pesa na decisão. Mesmo sendo ricos e apesar de valorizarem o emprego que têm, os jogadores são ídolos nacionais, queridos de suas famílias e prestigiados pelos governos locais. Muitas vezes, notadamente na África e Ásia, são fatores de unidade nacional.

As diferenças socioeconômicas nas sociedades são sublimadas nas ocasiões em que o povo calça chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, e se aproxima da igualdade. Nas arquibancadas ou diante da telinha de TV os sentimentos convergem num sentido só, da busca do gol, da vitória.
O rico capitalista, o trabalhador sindicalista, o desempregado, o sem-terra, o fazendeiro, o intelectual comunista, todos no mesmo balaio.

São incontáveis as teses acadêmicas sobre esse fenômeno. Um dos autores mais respeitados do último século, o historiador e pensador inglês Eric Hobsbawm foi, ele próprio, uma síntese de tudo isso nos 95 anos que viveu. Teórico de Economia, falecido em 2012, estudou também o esporte, profundamente. Rato de bibliotecas, cansou de sentar também em estádios, na torcida pelo seu Arsenal.

Em sua vasta obra, ele menciona o futebol tupiniquim em muitas ocasiões, citando times e jogadores. Ao sociólogo brasileiro Luciano Costa Neto, que traduzia um dos livros dele, Hobsbawm relembra momentos da Copa de 1970 e elogia os craques Gerson e Tostão. Mas diz que uma das grandes decepções de sua vida era a de nunca ter visto Garrincha jogando em algum estádio, ao vivo.

O fato é que o futebol existe como elemento fundamental das sociedades contemporâneas, mesmo naquelas em que esse esporte não tenha se desenvolvido como parte importante das culturas locais. A grande verdade é que nenhuma história do mundo moderno será completa se não levar em conta o futebol.

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.




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