Urariano Mota

O Mecanismo, José Padilha - Qual o limite da arte?

Para evitar qualquer suspense artificial, respondo logo: não existe, não pode nem deve existir qualquer limite para a expressão artística. Admitir o contrário seria o mesmo que pôr limites à aventura e ventura do pensamento humano.

Isso posto, vamos ao que hoje no Brasil se confunde com esse princípio universal: a discussão da série O Mecanismo, de José Padilha, que reclama de censura à sua grande obra. Escrevi a frase e me arrepiei com o nível dos que assaltam a vida brasileira nestes dias. Notem bem, reclama-se para a série o status de obra de arte, e por isso ela não mereceria qualquer reparo à sua invenção. Salve. Parafraseando o Barão de Itararé, este é o Estado a que chegamos. Isto é, com propaganda massiva a se opor aos movimentos democráticos que reclamam liberdade para Lula, o senhor José Padilha declara que a sua obra não está obrigada a respeitar história, fatos e pessoas políticas. Pois que é um criador, um artista do cinema.

Então devemos ir a uma discussão anterior, que pela fumaça criada não tem se mostrado à vista. O Mecanismo é arte ou propaganda contra pessoas sob tiros? E aqui nem recorro ao conceito da filosofia para a arte, que vem desde a Poética de Aristóteles. Nem vou me referir às mais altas exigências do grande Tolstói. Não. Ao rés do chão, me refiro à minha própria experiência de apaixonado admirador de toda expressão artística.

O que move os personagens deve ser ou deveria, a afirmação de humanidade em um mundo profundamente inumano. Eles lutam e enlutam com a boa e má luta. Mas não podem perder a verossimilhança, que faz o personagem ganhar, parecer verdade para todos nós. Portanto, não é justo nem legal que se confundam pessoas, tempos e lugares como o cineasta reclama para a sua “liberdade artística”. A Lula o que é de Lula. A Dilma o que é de Dilma. Isso devia ser básico. A verossimilhança nos liberta pela possibilidade que teremos em aprofundar a vida, ao nível da nossa observação e experiência. De todas as maneiras. Os personagens são indivíduos que impressionam e falam sem usar estas palavras: "a nossa vida é curta. Por que diminuí-la ainda mais?". Isto é, por que torná-la menor que as nossas necessidades animais? Eles também possuem pecados, alguns mortais, cabeludos, porque assim somos feitos, de pecado, carne, egoísmo, generosidade e sexo. O que é bem diferente de misturas falsas, de fake film.

E o que dizer da arte do cineasta Padiha? Ele é autor de barbaridades que mais parecem vir de um troglodita no cinema. “A ideologia está ajudando a miséria brasileira” é uma das suas pérolas. Há outras, mais específicas para a sua mais nova criação. Assim comentou ele sobre a crítica da ex-presidenta Dilma: “O Mecanismo é uma obra-comentário. Na abertura de cada capítulo está escrito que os fatos estão dramatizados, se a Dilma soubesse ler, não estaríamos com esse problema”. É uma fala de ódio e preconceito explícito do grande artista Padilha.

É claro que não temos a santa ingenuidade de crer que o cineasta José Padilha, ao fazer séries para a Netflix, pensa no cinema de Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho, Silvio Tendler, Vladimir Carvalho. Ou na arte de Glauber Rocha. Longe de nós tamanha heresia. Aquelas tomadas, aquelas visões à beira do delírio, aquela fotografia, aqueles ângulos, aquela música, aquele Antonio das Mortes que fazia Buñuel saltar da cadeira do cinema, não. Melhor acreditar no mais baixo.

Um criativo militante de esquerda postou nestes dias no Facebook: “Cuidado. Se rolar a nossa guerra civil, quem vai pintar o nosso Guernica não é o Picasso, mas o Romero Britto”. Isso dá bem a diferença entre arte e figuração. Adaptando a frase para os filmes, podemos dizer que para a guerra civil no Brasil não teremos um Serguei Eisenstein e seu Encouraçado Potemkin. Não. Teremos para a nossa arte O Mecanismo e José Padilha. O que é tragicômico.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”




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