Zillah Branco

Caravelas e preconceitos

O Brasil de hoje, apesar de golpeado por uma corja de políticos nacionais que "batem as orelhas" para o imperialismo e forçam a destruição das conquistas democráticas introduzidas por Lula a partir de 2003, revela a pujança de um povo que assume a sua consciência patriótica e de trabalhadores. 

As manifestações corajosas das populações mais pobres, em várias cidades do país e outras da Europa, contra o assassinato da vereadora Marielle Franco que, no Rio de Janeiro sob o domínio da Polícia Federal desenvolvia intensa campanha pelos direitos humanos, são a imagem real do despertar do povo para uma luta institucional.

Quinhentos anos de escravidão e de miséria fechando ao cidadão o pequeno mundo da sobrevivência nos limites da família ou mesmo do indivíduo, que era a condição para não contestar o domínio político da nação pelos diversos "donos" que se sucederam no colonialismo até chegar ao moderno "império global", ficaram para trás encerrados pelo último governo do tucano FHC e agora trazido como ameaça pelos renegados golpistas.

A miséria persiste gerida pelo poder financeiro e a politicagem capitalista, o crime organizado é sustentado pelas forças imperialistas e os "vira-latas" nacionais, mas o ser humano brasileiro que compõe a maioria dos 220 miliões de habitantes que trabalham, estudam, improvisam maneiras de sobreviver, descobriu através de Lula quando eleito Presidente que, mesmo tendo sofrido a fome na infância e sem poder alcançar uma formação escolar superior, foi formado pela realidade injusta que o cerca. Esta é a nossa universidade popular. E esta formação somada à honra pessoal vence qualquer modelinho de intelectual formatado pelo sistema capitalista para repetir frases eruditas sem saber pensar por si.

Esta compreensão de que nascemos em um país rico - de solo, subsolo, inteligência, sensibilidade, arte, belezas naturais, solidariedade humana, amor e ternura - que nos tem sido roubado desde o ano 1500 por predadores capazes de abandonar os seus próprios conterrâneos na selva e voltarem com ouro e pedras preciosas para registrarem do outro lado do mundo as suas conquistas de novos territórios. Ao longo dos séculos usaram a nossa riqueza para suprir as suas próprias carências sem reconhecerem que somos "gente", humanos, com valores que foram sendo esquecidos pelos grosseiros e ambiciosos que se vendem por uma migalha de poder. Esta experiência que o povo brasileiro teve em 2003, de um Presidente honrado, com orgulho do seu passado pobre de trabalhador, mostrou que o mundo será melhor quando houver respeito humano, igualdade de direitos para os que são diferentes no gênero, na cor, nas capacidades físicas e nas idéias. Os preconceitos não têm lugar no Brasil, tal como os golpistas e traidores desprezíveis. Podem voltar nas caravelas que os transportaram antigamente.

Não venham os "doutores que combatem a ideologia da liberdade" nos ensinar a lingua e o pensamento das suas elites quadriculadas pelo capital. Os brasileiros compõem a sua língua e o seu caminho político de unidade democrática com a mesma alta qualidade das suas músicas e letras que são traduzidas nos grandes centros culturais das nações ricas pelo mundo inteiro. Conhecemos as nossas carência que são manipuladas por espertos políticos doutorados que elogiam a ingenuidade de quem segue a estrela da dignidade como utopia, e à socapa acumulam o capital para corromper incautos. Sabemos que o atual governo é golpista, que o Estado foi minado por infiltrados da bandidagem imperialista, que a nossa situação geopolítica é cobiçada por Trump e seus colegas mundiais, que a nossa riqueza natural faz inveja a todos, que o poder financeiro corrompeu importantes setores do judiciário, que a privatização da saúde e do sistema de ensino ameaça o futuro dos nossos filhos, que a poluição mata quase tanto como a violência instituida pelo crime organizado, que não poderá haver justiça enquanto o poder nacional estiver nas mão de uma elite "vira-lata" que lambe as botas dos impérios.

Sabemos isto tudo mas sabemos lutar também, conquistar terras para produzir alimentos e construir casas populares, crescer nas favelas e ser eleitos para defender os direitos humanos, fazer cursos superiores e voltar para o convívio com os irmãos indígenas da comunidade onde nascemos levando-lhes a cultura moderna. E somos a maioria dos que trabalham e lutam por uma pátria soberana. Soberana, não duvidem!

Acolhemos com carinho os que vierem lutar ao nosso lado. Já fazemos isto há séculos, ajudando os que emigraram e foram expulsos das suas terras para que a revolução industrial e o sistema financeiro se fortalecesse na Europa expulsando os camponeses pobres. Entendemos as suas línguas através dos gestos de amizade e solidariedade, mesmo sacrificando a gramática. Não fomos formatados para só compreender o vocábulo perfeito. Temos sensibilidade e não preconceitos. Somos como outros povos que também lutam contra a exploração imposta por suas elites "vira-latas".

Lula alterou as regras diplomáticas com a sua simpatia e a sua linguagem popular brasileira, mas sobretudo pela sua tenacidade e respeito humano na luta permanente pela democracia verdadeira. O povo brasileiro vai alterar as regras do poder mundial impondo como valores a ética e a honra ao definir os limites democráticos em lugar das falsidades e os salamaleques que hoje disfarçam a perfídia dos eternos predadores da humanidade que dão o título de "democracia" ao "seu" direito de roubar e fugir à aplicação das leis constitucionais.

* Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.




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