Zillah Branco

A falência humana do sistema capitalista

O sistema capitalista entrou em colapso com a perda dos princípios éticos e humanistas que caracterizam a humanidade. Criou uma selva sem natureza, de cimento e aço, que não serve aos seres naturais que habitam o planeta. Aos poucos extende o seu poder destruidor sobre as nações que pretenderam ser soberanas.

A Justiça foi banida deixando em seu lugar sistemas repetidores de leis que perseguem e obrigam os cidadãos a agirem como automatos sem alma; o ensino cortou o diálogo para adaptar os alunos à uma fôrma que servirá à produção prèviamente escolhida pela elite poderosa; o sistema de saúde aplica tratamentos e medicamentos produzidos por laboratórios especializados em armas químicas e substitui o médico por instrumentos eletrônicos; a previdência social torna-se uma dependência do sistema financeiro; as cidades amontoam as famílias em poleiros ou gavetas; os trabalhadores são escravizados e empobrecidos para melhor serem explorados; a solidariedade humana é substituida pela caridade dos que têm mais poder; o transporte é feito em maior velocidade; as músicas são ensurdecedoras; o idioma reduz-se para ceder lugar aos termos técnicos em inglês; os servidores públicos são treinados como robôs para que não pensem nem entendam o que os usuários dizem; os líderes do sistema são autistas imbecilizados para servirem aos desígnios do poder financeiro e militar supremo; as eleições "democráticas" não podem ser realizadas com o candidado escolhido pelo povo.

O Brasil é um rico país miserabilizado. Como ele tantos outros que permanecem neo-colonizados. Os que defendem a sua soberania são atacados por emissários terroristas financiados pela elite dominante do sistema capitalista. Fecha-se o cerco.

A lógica adoptada pelo sistema capitalista exclui qualquer consideração ética e humanista, impondo como realidade apenas a condição financeira para resolver problemas pessoais ou sociais. Isto vemos até nas nações mais desenvolvidas, na Europa, que supomos serem independentes. Esta lógica define as condições da independência para as nações e, dentro delas, nos sectores controlados pelo Estado. São independentes para cumprirem as exigências que o sistema capitalista a todos os níveis. A realidade criada pela dinâmica histórica da vida de um povo foi descartada pelos que aplicam as "ordens" do jogo capitalista.

A lógica dominante no sistema capitalista indica o desempenho exigido.

No artigo (1) Jorge Seabra analisa o sistema de avaliação profissional que vem sendo aplicado na Europa e, portanto, aos países membros da UE que submissamente aderem. Diz ele: "Os trabalhadores não se revoltam por serem avaliados. Revoltam-se contra critérios que servem apenas de pretexto para excluir os menos bem aceites pelas chefias. O actual «sistema avaliador», perverso e empapado de ideologia neoliberal, serve para tudo – menos para avaliar."

"É difícil precisar a data em que a sociedade portuguesa foi atingida pelo novo paradigma «da avaliação do desempenho», que se infiltrou por todos os poros, por todas as frinchas da actividade laboral, extravasando os proletários do campo e da ferrugem, atingindo trabalhadores de escolas, hospitais e centros de Saúde infectando investigadores de humanidades ou de ciências exactas, artistas, empregados dos shopping’s, de agências imobiliárias ou de viagens, vendedores de automóveis ou de latas de conserva. O inimaginável acontece: treinar «avaliadores» como psicopatas".


"Abordando o tema na sua vertente clínica, Christophe Dejours (2), que analisou maus-tratos graves passados na Renault e na France Telecom, numa entrevista dada ao Público de 1/2/20101 (em plena «crise» financeira que acentuou a desregulação do trabalho em Portugal), falou do sofrimento da avaliação, do assédio, do suicídio nas empresas:

«A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, o que altera completamente as relações de trabalho: O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho!...».

"Quanto ao perfil dos que são alvo preferencial da agressão das chefias, Christophe Dejours, precisa:

«São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam a fazê-lo…».

«A ausência de um debate sério sobre o conteúdo e a imposição de «avaliações» irracionais (...) tem mostrado o seu carácter instrumental ao serviço de objectivos alheios à justa valorização do trabalhador e à sua progressão e aperfeiçoamento profissionais.»


Segundo Dejours há técnicas organizadas com o apoio de psicólogos para ensinar chefias e responsáveis de recursos humanos a fazerem o assédio. E cita um exemplo:

«No início de um estágio de formação em França, cada um dos quinze participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. No fim, o director do estágio deu a todos a ordem… de matar o seu gato». Catorze mataram o gatinho e a única participante que se recusou, adoeceu e foi tratada por Christophe Dejours que, assim, ficou a conhecer o caso. «O estágio era para ser impiedoso, uma aprendizagem de assédio», explica o psiquiatra."

A lógica apresentada na formação profissional, economicista e desumana, é a que se exige aos trabalhadores com contratos precários. Isto verificamos hoje em muitos sectores das instituições do Estado, incluive às da área de atendimento social, onde é maior o número de trabalhadores precários. O objectivo de tornar o trabalhador "impiedoso" é fundamental para anular a sensibilidade humana e, portanto, de pensar sobre os efeitos negativos que vão produzir sobre o "outro" (seja o colega ou o utente do serviço onde trabalha).

Isto explica a quantidade de trabalhadores burocratas que são insensíveis às alegações dos utentes aos quais são impostas condições inaceitáveis. Os exemplos são muitos: hospitais efectuam cobranças sem fundamento legal, dão indicações imprecisas do lugar onde o utente deverá aguardar uma consulta, indicação de outro estabelecimento para obter exames prévios; serviços de finanças que não explicam quais os direitos do utente ou dão orientações orais que mais tarde serão negadas, fazem ameaças de expoliação dos bens pessoais para pagar uma multa que o utente não tem como pagar; serviços de segurança social que não apresenta as informações sobre o tempo de trabalho cumprido pelo utente ou elimina dados referentes a países conveniados, transfere um utente desempregado que tem alta por doença para o fundo referente ao do seu (inexistente) trabalho que ao ser esgotado fica suspensa o seu pagamento, e assim por diante...para não falar nos que atendem por telefone (call center) transmitindo as imposições limitativas aos benefícios que o utente necessita. O filme inglês "Eu, Daniel Blake" mostra claramente esta situação na Inglaterra, que hoje se expande por todos os países que se associam à UE ou que adotam o seu modelo neo-liberal.

São conhecidos os relatos médicos sobre trabalhadores que depois de praticarem as imposições patronais para não perderem o emprego, entram em depressão por contrariarem a sua própria ética e solidariedade humana, e muitos se suicidam desesperados.

Um cidadão que se solidariza com os trabalhadores na luta pelo direito ao trabalho fica em dúvida se deve ou não denunciar as suas falhas que dificultam o atendimento aos utentes. Mas, sabe que o trabalhador que cumpre uma determinação criminosa (matar o gatinho ou impedir um socorro) deverá adquirir consciência da sua carência ética como respeito à sua função social. O combate ao oportunismo impõe-se.

O governo de Portugal informa que as vítimas de incêndios nos campos, que foram imensos em 2017, só receberão apoio financeiro para reconstruir a sua habitação se mudarem para perto de povoações densas onde existirá protecção civil por bombeiros. A medida é a da capacidade financeira de agir e a incapacidade de obrigar os proprietários das florestas de as protegerem. Ou seja, reconhecem que o governo é incapaz de gerir a produção florestal e programar a defesa da agricultura e pecuária necessárias à alimentação nacional. É a perspectiva capitalista de colocar os cidadão apertados nas cidades e entregar a produção rural às grandes empresas privadas. Aos poucos esvaziam as funções de gestão social e deixam os cidadão entregues à responsabilidade de empresários. A democracia foi desfeita assim como as forças produtivas que ficam fora do âmbito governamental. Só sabem organizar empresas, a lógica não abrange questões humanas. Por isso apostam na substituição de "gente" por robôs.

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Notas:

(1) "Revisitação à perversidade da «avaliação de desempenho»", (https://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/node_aberto_vp768/public/assets/img/tim_1.jpg?itok=ql4h7sUP)

(2) Psiquiatra, psicanalista e director do Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção do Conservatoire National des Arts et Métiers, de Paris

* Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.




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