Elder Vieira

Documento de identidade

Devo admitir: levo uma vida de gado. E, lançando um olhar retrospectivo, concluo que sempre levei. Das cinco décadas percorridas desde o nascimento, raros e curtos foram os interregnos em que estive apartado do cotidiano do rebanho.

Não há dia útil em que não me erga às seis horas, arrumo menino, alimento menino, deixo menino na escola e embarco no primeiro de meus tormentos: o busão. Resigno-me a ir nele chacoalhando em pé para não ter que encarar dez a quinze minutos de ladeira até o segundo tormento: o metrô. Luto para nele entrar e nele permanecer com os dois pés no chão - tal é o aperto que, erguer um deles, é ir qual saci até a próxima parada.

O metrô é um duplo tormento. Pego dois. Desembarco na Sé para baldear para a linha Leste-Oeste e travar a mesma batalha para entrar e não sufocar. Os corpos vão colados, o sujeito sem ter onde segurar. E tome espanada de cabelo no nariz, cutucão de bolsa nas costas, pisão no dedão inflamado, cotovelada. E o desodorante, doce que só jujuba, que faz o nariz do cristão encadear uma seqüência incontrolável de espirros? E, no extremo oposto, a falta de desodorante de certas axilas? A gente é capaz de jurar que de algum cano vaza gás.

Depois de ser expelido na estação, acompanho o fluxo de ancas rumo à rampa de saída. Ao fim dela, dou de chofre com o ar empesteado do cheiro de fezes, urina e comida estragada. Gente largada nas calçadas, trapos sujos, olhos baços, assedia as reses que vão para o seu abate diário. Cada uma rumina um não e estuga a marcha para não perder a hora de bater o ponto.
Ponto marcado, inicio a faina de servidor público: montar processos, despachar memorandos, elaborar planilhas, atender contribuintes. No balcão do comércio do outro lado da rua, a garçonete também toca sua rotina, assim como o caixa do banco, o funileiro defronte, a atendente de telemarketing, a enfermeira, o motorista do ônibus que nos trouxe até o metrô e operador de trem que nos conduziu até nosso destino, o mecânico de alguma oficina ou o operário de uma grande fábrica em algum canto do Brasil ou do Orbe.

Dali a oito, dez horas, deixaremos todos os nossos postos de trabalho para fazer o trajeto inverso, pontuado dos mesmos percalços da vinda, e chegar em casa só o pó para depositar a carcaça exausta na cama. Antes, porém, cuidar do menino, ouvir suas histórias, aplacar seus medos, afagar suas tristezas, rir das peraltices e do inusitado das ideias, e pô-lo a dormir. Somente então, banhar, mastigar algo e estirar-se no colchão - porque, amanhã, tem mais hoje.

A cabeça pousada no travesseiro, ao fazer o balanço da jornada, será assaltada por renitentes porque irrecusáveis perguntas: Quanto mais de músculos e tendões e ossos será necessário moer todo dia para alimentar um punhado de ricos? E até quando se deixarão moer?

Antes de mergulhar completamente no deserto de seu sono, ouve a uma voz de menino a sussurrar:

- A verdadeira questão é: para quem mesmo temos falado?

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983




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