Urariano Mota

A mulher amada no tempo da ditadura

Há um sentimento que unifica mulheres grávidas primeiro. É um anterior coração que bate no peito da gente sem que a consciência organizada o compreenda. Quero dizer, vinha um impacto antigo ao ver a gravidez de Nelinha no Pátio de São Pedro, quando ali conversávamos eu, Vargas e Alberto.

Estava imensa e indefesa a sua barriga, me pareceu. Vargas falava, mas a presença da gravidez de Nelinha era dominante, para todos nós. Hoje eu sei que Vargas melhor levantou a voz para defender a companheira. Depois, houve as manchetes de janeiro de 1973, o retrato de Soledad, a foto esmaecida, enevoada de propósito no laboratório fotográfico da repressão política. Quiseram ofuscar a beleza da guerrilheira para enquadrá-la na face de terrível subversiva. A legenda da foto apagada dizia: “Atuava no Nordeste como agente de ligação de grupos terroristas sul-americanos. Tinha ligação com terroristas brasileiros no Chile”. Vê-la na difamação, ao lado de Vargas, foi um duplo choque. Cambaleei tonto na Ponte da Boa Vista e foi incontrolável o vômito nas águas do Capibaribe. Havia uma ligação terrorista, mas o terror era a confirmação de um trauma, a morte da mulher grávida. Aquele terror antigo, a infâmia da infância, quando a mulher morria por falta de cuidados, em 1973 sofria uma atualização: o assassinato pela repressão política da ditadura. Para mim, houve uma ligação além dos homicídios em cima dos seis militantes socialistas: Maria, Nelinha e Soledad estavam de mãos dadas em diferentes tempos, porque haviam de ser mães. Nelinha sobreviveu, mas disso ainda eu não tinha o conhecimento. As execuções de Maria e Soledad eram claras e unidas. Disso eu sabia na bílis que vomitei até um raio de sangue. Eu não sou um poeta romântico, mas se eu tivesse a sorte de ser um, eu teria composto versos para o céu azul daquela quinta-feira de 1973: “Pai, por que feres o objeto do meu amor terno? Eu sei, queres endurecer o meu coração, deixando em mim um homem tão pequeno quanto a Tua crueldade. Eu me vingarei, Pai, de outra maneira”. E viraria as costas para o céu, porque a consciência ainda não falava.

Estavam proibidas a consciência e sua voz. Não só de um mundo íntimo, de mim para mim, porque o retrato do mal-estar não emergia para a vida clara. Mas também pelo terror político da ditadura. A consciência estava em silêncio porque mais alto falavam Fleury, Médici e a traição de Anselmo. Dos cabos anselmos espalhados, porque sempre há ervas daninhas que prosperam em solo adequado. Vomitei e tive que limpar a boca e os olhos. Havia de me recuperar e seguir para o expediente no trabalho. Havia que parecer jovem normal, limpo, imune às palavras de mudança do mundo. Quanto é amargo trair o íntimo de valor da gente. Receber a pancada e sorrir. É pior que dar a outra face para novo tapa. Lembro que o pior de mim abriu a porta e entrou no ambiente da sobrevivência.

- Bom dia.

Abri a gaveta do birô, lá estava o poema de Drummond que eu lia para me guardar nas horas infernais do expediente: “Na areia da praia / Oscar risca o projeto. / Salta o edifício / da areia da praia ... Era bom amar, desamar / morder, uivar, desesperar, / era bom mentir e sofrer. / Que importa a chuva no mar? / a chuva no mundo? o fogo? / Os pés andando, que importa?... Que século, meu Deus! diziam os ratos. / E começavam a roer o edifício”. Mas nessa manhã o poema foi inútil. A hora não estava para poesia. O tempo era de carnificina e negação até da mínima delicadeza. Baixei a cabeça feito escravo ladino porque entrou um meu algoz. O capitão-do-mato é um velho contador de anedotas, esperto e reacionário. É do gênero de homem que tenho visto se repetir ao longo dos anos. O sujeito que gosta de contar piadas, engatar histórias engraçadas, que escolhe e fala em sequência. Ele tem o dom de fazer rir, de aparecer como a alma da festa, a alegria dos convivas na mesa. Quem o vê despertar gargalhadas, não acredita que seja um indivíduo brutal, capaz da maior vileza. Quem ri de rebentar não crê que o seu maior talento é ocultar o gozo do seu egoísmo. Ninguém desconfia que o cara impagável pode vir a ser o mesmo que apunhala pelas costas, se lhe for vantajoso. Assim era o velho Orlando. Ele desfere o primeiro golpe:

- Pegaram uns terroristas hoje. Vocês viram?

Eu sei, fala a todos mas se dirige a mim. Sou capaz de sentir que ele fala e me aponta com o queixo, pois me encontro na máquina de escrever com os olhos fitos em lugar nenhum. Não consigo me concentrar na guia de material, que devo copiar para o formulário. A minha voz está contra mim. Aliás, tudo em mim, tudo que é sobrevivência é o meu contrário. Eu não sou aquele que se encontra na sala, como ar-condicionado rugindo alto feito motor de carro de praça em 1970. O velho, o feitor, se aproxima, eu sei pela repugnante mistura de perfume barato e cigarros.

- A puta era até bonitinha – ele fala. - Carinha de anjo, mas terrorista. Você viu? – E toca o meu ombro tenso. Não o escuto, bato a esmo na máquina. Tenho que me concentrar para não escrever “Maldito. Maldição. Mal do mundo. Mal de porcos. Foda-se” . E vem um novo toque, mais firme, como uma intimidação:

- Viu ou não viu as carinhas de puta? Você.

Então levanto a custo o queixo e vejo um indivíduo de olhos verdes, cabelos brancos, boca murcha e sinais de animal velho na cara. Ele sorri, mas sei que o sorriso é ofensa, escárnio, gatilho apontado. E respondo, na altura da minha covardia:

- Eu? – “Darás a tua vida por mim?”, penso. – Não vi o jornal hoje.

- Não viu?! – O escarnecedor volta. – Eu tenho aqui na pasta.

“Meu Deus, o que será de mim?”. O velho abre a pasta que ele carrega. Dela retira o jornal, que abre na primeira página.

- Aqui. – Com o dedo seboso aponta Soledad. Com o dedo seboso aponta Pauline. Como dedo seboso aponta Vargas. Com o dedo seboso aponta as fotos dos seis socialistas mortos. Volta para Soledad. – Está vendo?

Eu olho e mudo a vista. Eu vejo e baixo os olhos. Não sou um homem. Me sinto menos que um cachorro castrado. É doloroso fitar o rosto de Soledad, aquela a quem beijei na casa de Marx. Olho e baixo os olhos. O velho parece notar minha aflição.

- A puta era até bonitinha, não era?

“Darás a tua vida por mim?”. Fico em silêncio. Para quê? O velho estende o jornal e lê em voz alta para todos:

- “Seis terroristas mortos no Recife. Seis terroristas mortos foi o principal balanço do desmantelamento de um congresso da organização Vanguarda Popular Revolucionária, cujos elementos comandavam, do Recife, os demais integrantes do Norte e Nordeste. Entre os terroristas mortos estavam duas mulheres...”. Aqui e aqui – aponta.

A tudo eu escuto com a cabeça baixa. Por mais que eu não queira, esse meu comportamento é digno de suspeita. A meu redor os funcionários se levantam, concordam, se movimentam em órbita para o espetáculo. Seis terroristas mortos! Eu estou sentado, diria melhor, agachado, enquanto as hienas cercam a carniça.

- Terroristas... quem diria?

Eu, para ser um homem moral, deveria me levantar, fazer comentários, atiçar a dança sobre os cadáveres dos socialistas. Assim age o patriotismo em 1973. Eu, para ser um homem digno de mim, deveria erguer a minha voz, denunciar os crimes e torturadores na ditadura. Mas estou aterrorizado. Poderei ser o próximo, porque já chegaram muito perto de mim. Sou amigo de Vargas, conheço Nelinha, vi Soledad, com ela esteve o meu coração. “Se eu fosse um homem...”, não consigo completar o pensamento. A minha luta agora não é nem para ser um homem. A luta mais urgente é secar as lágrimas dos olhos que vão me trair e me jogar às feras. Se não participo da carniçaria cívica, devo pelo menos não me mostrar solidário aos iguais da minha convicção. Mas é torturante, é de enlouquecer o fio da navalha onde tento me equilibrar. Por mais que não queira, o meu comportamento é suspeito. Enquanto me mantenho em comprometedor silêncio, todos falam dos companheiros:

- Terroristas. Quem diria? Tem que matar mais.

- Querem fazer do Brasil uma Cuba. Só matando.

- Trocaram tiros com a polícia. Olha só o atrevimento.

“Meu Deus, por que não me entrego? Por que não falo o que eu sei? Mas como, vou ser morto também, virar terrorista”. O velho patrioteiro continua:

- Vocês se lembram da bomba do aeroporto de Guararapes? Tem que matar mesmo esses bandidos. Terrorista não se prende, se mata. Terrorista não tem cura.

Ele olha agora para mim. Sinto que os outros o acompanham, se voltam contra a minha pessoa. O meu gesto de coragem é recusá-los com a vista, que desvio para o jornal. As fotos são a minha cara.

- Moça tão bonitinha... – o velho fala. – Desencaminhando os filhos da gente para o terror. – E olha para mim: - Mata!

“Eu a quero como um homem sozinho quer o seu amor”, penso. E resmungo, no limite:

- Os jornais mentem muito. – E continuo na cabeça o poema que não escrevo: “Eu a quero como um homem sozinho. Eu a quero com a ternura e ódio de um covarde cujo amor é segredo”. O poema que não escrevo se inscreve em meus olhos. E dilato as órbitas para secar a minha condenação. O velho me pergunta:

- Hem? O que você disse?

Eu quis responder com voz alta, à meia altura do meu sentimento: “eu disse que os jornais mentem muito”. Falando assim, falaria menos do que deveria: “É tudo mentira. As notícias são uma farsa criminosa. Matam a melhor juventude do Brasil”. Mas fiquei a balbuciar palavras inverossímeis:

- A - sim... tende? Assim...

- Assim o quê, rapaz?

- Assim.. ah... o jornal de hoje tem o resultado do vestibular.

- Vestibular que nada. O vestibular de hoje é a morte dos bandidos. – No que foi acompanhado por um idiota de plantão:

- Isso mesmo. Se eles estudassem, se fossem gente direita, não estavam mortos. A polícia não mata um jovem de bem.

Era tão estúpido e esmagador, que sorri amargo três vezes, assim como Pedro negou três vezes a Jesus. Sorri de imbecil, sorri da minha desgraça, sorri como um adulador sorri. Os três sorrisos unificados em um só, o da infâmia de desejar sobreviver em paz, não importava como. Sorri. E para não sorrir indefinidamente da minha abjeção, tive a infelicidade de completar com o máximo de coragem:

- Jornal exagera um pouco. Algumas vezes temos que dar uns descontos.

Para quê disse isso? Recebi pelos peitos:

- Mas eles eram terroristas, não eram? Isso é mentira?

“Jesus respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem que tu me tenhas negado três vezes”. Então baixei a cabeça e procurei bater à máquina. As denunciantes lágrimas insistiram em voltar aos meus olhos.

- Eles eram ou não eram terroristas? – O velho tornou.

Pude sentir que ele me entregava à roda de funcionários em pé. Em primeiro lugar, eu era a voz que não estava no júbilo e felicidade dos seis assassinatos. Em segundo, “se você não está de acordo conosco, é porque é igual a eles”. As teclas da máquina ficaram embaciadas, as letras perderam a sua nitidez. Balancei o queixo em discreto assentimento. Não importa quão suave, o gesto significou “sim, eram”. E me levantei, e fui entre as trevas até o banheiro.

*Do romance “A mais longa duração da juventude”

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”




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