Urariano Mota

O rosto da mulher soviética na guerra

Do livro “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, copio:

“Estávamos atravessando a Prússia Oriental, todos já estavam falando da Vitória. Ele morreu ... Morreu instantaneamente ... Pelos estilhaços ... Morte instantânea. Em um segundo. Me informaram que o corpo tinha sido trazido, corri para lá ... Eu o abracei e não deixei que o levassem. Para enterrar. Na guerra, faziam os enterros logo em seguida: no dia da morte, se a batalha era rápida, juntavam todos na hora, traziam de todos os lugares e cavavam uma grande fossa. Cobriam. Às vezes, só com areia seca. E se você olhasse muito tempo para essa areia, parecia que ela se mexia. Tremia. A areia sacudia. Porque lá ... Para mim, ainda havia gente viva, estavam vivos havia pouco. Eu os via, falava com eles ... Não acreditava ... Todos nós andávamos por ali e não acreditávamos que eles tinham ido para lá ... Lá onde?

Não permiti que ele fosse enterrado ali. Queria que ainda tivéssemos mais uma noite. Deitar ao lado dele. Olhar ... Afagar ...

De manhã ... Decidi que o levaria para casa. Para a Bielorrússia. E isso ficava a milhares de quilômetros. Estradas de guerra ... Uma confusão ... Todos acham que eu tinha ficado louca de tanta dor. ‘Você precisa se acalmar. Tem que dormir’. Não! Não! Eu ia de um general a outro, e assim cheguei ao comandante do front, Rokossóvski. No começo ele recusou ... Estava louca! Quantos já estavam enterrados em valas comuns, em terras estrangeiras ...

Tentei mais uma audiência com ele:

‘Quer que fique de joelhos?’

‘Eu entendo ... Mas ele já está morto ...’

‘Não tive filhos com ele. Nossa casa foi reduzida a cinzas. Até as fotografias foram perdidas. Não ficou nada. Se eu o levar para a nossa terra, restará ao menos o túmulo. E vou poder voltar para lá depois da guerra.’

Ele ficou calado. Andava pelo gabinete. Andava.

‘O senhor já amou alguma vez, camarada marechal? Eu não estou enterrando meu marido, estou enterrando meu amor.’

Silêncio.

‘Senão, também quero morrer aqui. Para que vou viver sem ele?’

Ele passou muito tempo calado. Depois, se aproximou e beijou minha mão.

Deram-me um avião especial por uma noite. Entrei no avião ... Abracei o caixão... E perdi a consciência.

Efrossínia Grigórevna Breus, capitã, médica”


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“Tantos anos vendo homens de farda militar, capote, e aquele estava de sobretudo preto com gola de pele.

‘Preciso de sua ajuda’, o homem me disse. ‘A dois quilômetros daqui, minha mulher está dando à luz. Ela está sozinha, não há mais ninguém em casa.’

O comandante retrucou:

‘É na faixa neutra. Você sabe, não é seguro.’

‘Uma mulher está parindo. Tenho que ir ajudá-la.’

Deram-me cinco atiradores de fuzil. Preparei uma bolsa com material para curativos; havia pouco tinha recebido uns panos de flanela e também os levei comigo. Saímos. Ouvíamos troca de tiros o tempo todo – ora tiros curtos, ora pelo alto. A floresta estava tão escura que nem se via a lua. Finalmente apareceu a silhueta de uma construção. Revelou-se ser um sítio. Quando entramos na casa, vi a mulher. Estava deitada no chão, em uns trapos velhos. O marido na mesma hora começou a fechar as cortinas. Dois atiradores ficaram no pátio, dois ao lado da porta, e um me iluminava com a lanterna. A mulher mal continha os gemidos, estava com muita dor.

Eu pedia a ela o tempo todo:

‘Segure, querida. Não pode gritar. Segure.’

Ali era a faixa neutra. Se o inimigo notasse alguma coisa, lançaria projéteis em cima de nós. Mas, quando os soldados escutaram que a criança tinha nascido ... ‘Viva! Viva!’ Assim baixinho, quase num sussurro. Nasceu uma criança na linha de frente!

Trouxeram água. Não tinha onde ferver, limpei a criança com água fria. Envolvi-a com meus panos. Não encontrei nada na casa, só os trapos velhos onde a mãe estava deitada.

E assim consegui, com dificuldade, ir até aquele sítio outras noites. Fui uma última vez antes do ataque e me despedi:

‘Não vou mais poder vir. Estou indo embora.’

A mulher perguntou algo em letão ao marido. Ele traduziu para mim:

‘Minha esposa está perguntando como você se chama.’

‘Anna.’

A mulher disse algo de novo. E o marido traduziu mais uma vez:

‘Ela está dizendo que é um nome muito bonito. E, em sua homenagem, vamos chamar nossa filha de Anna.’

A mulher se soergueu – ela ainda não conseguia ficar de pé – e estendeu para mim uma bela caixa de pó de arroz cor-de-rosa. Pelo visto, era seu objeto mais valioso. Abri a caixa, e aquele cheiro à noite, quando trocavam tiros à nossa volta, lançavam bombas ... Era algo ... Até agora me dá vontade de chorar ... O cheiro de pó de arroz, aquela tampa cor-de-rosa ... Um bebê pequeno ... Uma menina ... Era algo tão caseiro, de uma verdadeira vida de mulher”

Anna Nikoláievna Khrolóvitch, tenente da guarda, enfermeira

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”




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