14 de Fevereiro de 2018 - 9h14

Carnaval sem partido

Jaime Sautchuk *

Após o retumbante sucesso da escola Paraiso do Tuiuti, no primeiro grupo do Carnaval carioca, coxinhas incomodados aparecem com ideias brilhantes. Defendem algum tipo de censura camuflada, desses muito em uso em nossos dias, que tente calar o bico dos sambistas.


Uma sugestão já apareceu nas redes sociais da net: estender às agremiações de samba a lei da Escola sem Partido, que proíbe o debate de temas sociais no ambiente escolar. Mas não vai ser lá muito fácil porque, afinal, o Carnaval sempre foi uma festa que cumpre sua vocação de irreverente, democrática e demolidora de padrões.

É extraordinária a capacidade dos sambistas de vasculhar nossa História em busca de temas que dão samba. Ao abordar o período de escravidão oficial no país, encerrado há 130 anos, por exemplo, a Tuiuti expôs na avenida o tema, mais que atual, da exploração exacerbada do trabalho humano.

A ala da escola que mais chamou atenção foi a do retrocesso na legislação trabalhista em vigor, com mudança pra pior nas regras de aposentadoria e outros malefícios, dando nome aos bois. Um vampiro sangrando tem a cara do presidente golpista Michel Temer, usando a faixa presidencial.

Nos reporta ao trabalho em regime semiescravo em áreas rurais e urbanas. Entram em cena, então, as fazendas dos modernos ruralistas que mantêm viva a figura do coronel e as oficinas de costureiras das Lojas Riachuelo, no interior do Pernambuco, em que vigora essa escravidão camuflada. Enfim, é o jeito certeiro dos carnavalescos de apontar injustiças em meio a tanta desigualdade socioeconômica.

Poderia citar dezenas de outros exemplos, no país inteiro, mas me vem à memória um caso mais familiar. Foi assim, com crítica afiada, que nasceu, no final da década de 1970, na Capital da República, o Bloco do Pacotão, uma referência do carnaval local até hoje. Seu núcleo central era um grupo de jornalistas, entre eles os quais este locutor que vos fala.

Era plena ditadura, nas barbas do poder, e o governo do Distrito Federal, nomeado, liberava a avenida W-3 aos desfiles de escolas e blocos, no sentido Sul-Norte. Mas o Pacotão saiu no sentido contrário, na contramão, entoando marchinha que desafiava o general Ernesto Geisel, o ditador de plantão à época, e não foi contido pela polícia.

Ou seja, não tem jeito, a folia de rua é um tradicional momento de o povo dizer o que pensa, um incômodo às elites conservadoras e seus parceiros de classe média. De modo que a toda hora, também, surge um inventor de formas de sufocar esses gritos, de fazer uma Carnaval sem partido.

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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