Alexandre Santini

24/01/2018: que tiro foi esse?

"Não existe cordialidade no andar de cima da sociedade brasileira quando se trata da defesa de seus interesses e privilégios".

Em 24 de agosto de 1954, um tiro mudou a história. Getúlio Vargas, enfrentando a conspiração dos militares, o ódio das elites e da imprensa, acusações de corrupção e conspirações palacianas, oferece a sua morte como alternativa ao golpe. “Ao ódio, respondo com o perdão”, escreveu em sua carta-testamento. Na manhã seguinte, o povo saiu às ruas, a multidão em prantos, chorando a perda do “pai dos pobres”. Redações de jornais foram incendiadas. Carros de polícia depredados. O sacrifício de Vargas impediu – ou adiou por 10 anos – o golpe militar, que veio a ser consumado em 1964.

Vargas, assim como Lula, não era um radical. Era um reformista, um conciliador, um político habilidoso na mediação de conflitos e interesses. Tinha em seu ministério sindicalistas e banqueiros; na sua base parlamentar, comunistas e integralistas. Se equilibrando nesta balança, consolidou as Leis Trabalhistas, criou a Petrobras, fortaleceu a indústria nacional, fomentou a educação e a cultura, modernizou o país.

Juscelino Kubistchek, “o presidente bossa nova”. 50 anos em 5. Projetou Brasília e criou um ciclo de desenvolvimento e oportunidades no país após o trauma da morte de Getúlio. O “peixe vivo” não era de esquerda, estava mais pra liberal, mas a elite brasileira também não o perdoou. Acusações, cassação, perseguições foram uma constante em sua vida após deixar a presidência, até a sua morte em um “acidente” de automóvel, em circunstâncias suspeitas e pouco esclarecidas.

Getúlio, JK, e agora, Lula. A marca da tragédia acompanha aqueles que tentaram, de alguma forma, e com todas as contradições inerentes ao exercício do poder, construir possibilidades de um desenvolvimento autônomo do Brasil com caráter popular e sensibilidade social. Apesar da habilidade política e das tentativas de conciliação de classes que marcam a trajetória destes três personagens, a perseguição a eles pelas elites brasileiras foi e é implacável, cruel, até mesmo sangrenta. Não existe cordialidade no andar de cima da sociedade brasileira quando se trata da defesa de seus interesses e privilégios.

Lula está vivo, e o desfecho de sua história é ainda um capítulo a ser escrito. Seu nome já está escrito no panteão dos grandes estadistas do Brasil, junto aos que foram perseguidos, acusados e mortos por promover transformações em benefício do povo pobre do nosso país. Quem se lembrará, no futuro, do nome dos desembargadores / algozes do TRF-4? O lugar de Lula na história é inequívoco. Preso ou cassado, se torna um mártir. Solto e com plenos direitos políticos, caminha para se tornar presidente da república pela terceira vez.

A história não nos oferece consolo ou esperança. O destino daqueles que ousaram promover o mínimo de justiça social no Brasil foi banhado em sangue e chumbo. Mas homens como Lula, Getúlio e JK nos ensinaram que é preciso sonhar. E não devemos renunciar a este direito.

Zumbi, Tiradentes, Dandara, Anita Garibaldi, Pagu, Prestes, Olga, Jango, Brizola… Todos, em alguma medida, sofreram grandes derrotas, e morreram sem alcançar plenamente a razão de suas lutas. Mas, no cortejo da história, é ao lado deles que caminharemos. Seguiremos por uma estrada perigosa e acidentada, mas cheia de dignidade e com horizontes muito mais interessantes do que o de nossos vencedores nestas batalhas.

Em um dia como hoje, não há conclusão possível para esse texto. Ainda não chegamos ao final dessa história. Para nos inspirar, na dura jornada dos dias que virão, à guisa de desfecho cito o poeta Thiago de Mello:

“Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.”

*  Gestor cultural, dramaturgo e escritor, é diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina"




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