Elder Vieira

Da moral e dos bons costumes

Olá, preclaro leitor, digníssima leitora. Peço licença para retomar meu assento nesta roda virtual, depois de prolongada ausência. Volto, mas não de mãos abanando. No período que passou longe destas diletas páginas, este internauta gastou muito sono debruçado sobre os porquês da confusão política reinante.

Concluiu, depois de muita meditação, que era preciso organizar o barraco, separar confusos de profusos e difusos, e classificar as diferentes correntes que transitam à esquerda do espectro. Chegou, por fim, a três grandes agrupamentos: a turma do cassino, a turma da igreja e a turma do bar.

Antes que me apedrejem, permitam-me uma defesa prévia: sou um inventor de histórias, um... escrevinhador - improvisado em colunista de portal. Por vício de ofício, acabo, mesmo involuntariamente, expressando-me por meio de metáforas e alegorias. Peço, pois, paciência.
Dado o devido esclarecimento, vamos às turmas.

A turma do cassino, o nome já diz, gosta do jogo, dos salões, dos faustos, das roletas, das apostas, dos blefes, dos conchavos, dos shows de prestidigitação e das soluções pelo alto. O povo da igreja, por outro lado, gosta de destacar os pecados que a todos nos rondam e tentam, e adora cultos (quanto mais compridos, melhor) a um povo ideal, e prenhe de ideais, que não joga, não bebe e não se macula: luta, luta e luta para construir soluções pela base e para jamais contaminar-se pelo contato com outros credos. Já a galera do bar gosta mesmo é de mesa na calçada, variado tira-gosto, bebida farta e de poder trocar, com todos os passantes, impressões sobre os mais diversificados assuntos: sobre a vida que deve ser vivida, sobre a cidade que deve ser sonhada, sobre a injustiça que deve ser banida. Não dispensa um carteado, e, não raro, recita uns versículos. Vez ou outra, sai no braço; quando é o caso, negocia. Mas não arreda pé do samba enquanto o sol não se anuncia.

Numa quadra política conturbada, golpeada, neoliberalizada, pós-multi-modernizada, como a que vivemos, o perfil de cada uma destas turmas ganha nitidez. Do fundo obscuro, incerto, imprevisível, movediço da crise, saltam, por contraste, conceitos, posturas e atitudes de cada um destes agrupamentos.

Não tem muito tempo, ouvi de mais de uma boca o seguinte 'raciocínio dialético': ao ataque à política, desferido pelo pacto firmado entre mídia, judiciário e setores mais reacionários das classes dominantes, deve-se contrapor um ‘Pacto da Política’, de amplo espectro, inclusos aí neste amplo os... tucanos. Coroa o raciocínio de nossos interlocutores a ideia de que não se deve descartar uma ampla coligação em torno da candidatura a Presidente da República de Geraldo Alckmin, cujo vice bem podia ser algum dos quadros da esquerda.

Como se vê, a água fria mal bateu nas partes, há quem depressa proponha ceder os dedos para não perder os anéis: chama logo o carrasco para um jogo de dados. E ainda usa por argumento as alianças pontuais ou transitórias firmadas com esse ou aquele peessedebista. Tenta encher nosso nariz de folha confundindo malandramente combate político central com escaramuças periféricas.

Por outro lado, há bem poucos dias, apareceu gente beata, daquelas que vê filisteu em cada parlamentar ou gestor, dedo em riste, a nos lembrar a todos da fidelidade do vice-governador de São Paulo aos compromissos com o Picolé de Chuchu dos Bandeirantes. A óbvia notícia, já de todos e há muito sabida, teve intenção clara: dar um cartão amarelo aos comunistas paulistas, que entabulam conversas sobre as eleições de 2018 com o senhor Márcio França, o mencionado vice, um dos ícones do PSB, cujas movimentações visam a viabilizá-lo como candidato competitivo ao Governo do estado mais rico da Federação e esteio do Golpe.

Os referidos comunistas têm conversado com muita e variada gente. Estiveram no lançamento da pré-candidatura a governador de Luiz Marinho, liderança petista, ex-prefeito de São Bernardo, e vêm tratando com ele e sua gente dos possíveis caminhos eleitorais em São Paulo. Têm trocado ideias com outras forças e personalidades, como o PDT. Acompanha os debates do PSOL, os movimentos do Solidariedade, do PROS. Conversa com suas bases. E promove lutas unitárias com diferentes correntes do movimento social e ações articuladas nos parlamentos com diferentes partidos. Por que não conversaria com o PSB e seu vice-governador? Por declarar ele fidelidade ao acordo feito com Alckmin? Se o vice de Flávio Dino no Maranhão declarar fidelidade aos compromissos firmados com seu governador, deve o PRB soltar um amarelo no sujeito? E se for o inverso?: Dino reafirmar seu respeito ao pacto firmado com seu vice, irá o PCdoB adverti-lo, pelo fato do PRB compor a base de Temer na Câmara Federal? Devem os comunistas ignorar a tendência a uma fissura no campo conservador paulista, fissura capaz de comprometer a hegemonia tucana no Estado? Onde, o desdouro em fechar alianças locais que embaracem o adversário e enfraqueçam nacionalmente suas forças? O PSDB, hegemonista e exclusivista como é (não, não: a sigla é essa mesmo), já avisou e sacramentou que terá candidato próprio ao Governo de São Paulo e que nada tem a ver com acordos anteriormente firmados (não!: já disse que tô falando do PSDB!). Márcio França é do PSB, que vive rearranjos internos e se reposiciona na arena. Isso não conta?

Ademais, é preciso considerar o projeto eleitoral do Partido em São Paulo: reeleger seu federal e recompor sua bancada estadual. Qual o melhor esquadro de alianças para atingir tão importante objetivo? Um leque pequeno, à sombra do velho hegemonismo? Ou um arco mais largo, capaz a um só tempo de influir no cenário nacional e robustecer a cesta de votos dos comunistas? Por fim, cabe questionar: o que melhor contribui com o fortalecimento da candidatura de Manuela D’Ávila e a composição de uma Frente verdadeiramente ampla?

O que se afigura certo é que abordagens ideologizadas ou malabarismos casuísticos não responderão a essas questões. Um trabalhador politicamente consequente não há de se pautar, nem pela moral e os costumes de uma "classe-mídia lavajatista", tampouco pela hipocrisia de uma elite amoral e eticamente dissoluta. Um partido comunista, defensor da soberania nacional e da democracia, determinado a disputar com independência a liderança da Nação, para ser coerente com sua identidade de classe e consequente em seus atos, deve fazer análise concreta da realidade concreta; considerar a correlação de forças e o nível de cada batalha em que se mete. Ou seja: deve por a política no comando.

Bóra pra calçada sambar!

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983




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