Luciano Siqueira

Diga com quem andas que eu te direi quem és

No cenário de dispersão que ainda predomina, tanto no campo governista como na oposição, vão se formando em torno de pretendentes à candidatura presidencial núcleos de apoio formado por técnicos e economistas.

De Bolsonaro a Alckmin, visível é o intuito de produzir um rol de propostas que atenda aos ditames do Mercado e, de quebra, sinalizar ao amplo eleitorado com promessas demagógicas.

No ambiente das oposições, há como que uma dupla consciência de que lideres como Lula, Ciro, Manuela e outros necessitam, a um só tempo, afirmar posições próprias dos seus partidos e acolher a possibilidade de alianças amplas e diversificadas em torno de uma plataforma comum.

O desenho preliminar da disputa sugere uma multiplicidade de candidaturas, de ambos os lados, à semelhança do ocorrido em 1989, quando em torno de duas dezenas foram os pleiteantes à presidência, resultando num segundo turno entre Collor e Lula, vencido, como se sabe, pelo primeiro.

Ali se iniciava novo ciclo político e se buscava um pacto social que superasse as imensas sequelas dos vinte e um anos de ditadura militar.

Agora, o pleito também acontece no início de um novo ciclo, decorrente do golpe que interrompeu o mandato da presidenta Dilma Rousseff.

Natural que as forças políticas em presença ponham a cabeça de fora com candidatos próprios.

Mas é natural também que os mais taludos, como se diz aqui, pretendam formar coalizões que lhes reforcem as possibilidades de vitória.

Mas a questão de fundo — a disputa de projetos para o Brasil — requer candidaturas lastreadas em programa consistente e base social ampla.

Nas hostes governistas, nenhum um nome está consolidado. Mesmo o governador paulista Geraldo Alckmin, potencialmente preferido das elites, tem longo caminho a percorrer e o desafio de apaziguar as resistências da banda mineira do seu partido e até reticências do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, prócer influente no tucanato.

O fascistóide e histriônico deputado Jair Bolsonaro, que corre solto através de bem urdida campanha nas redes sociais, começa a ser desconstruído pela mídia hegemônica desejosa de aplainar o terreno para uma alternativa neoliberal confiável.

Na outra ponta, a resistência democrática e popular ainda se dá algo dispersa e fracionada, refletindo na gama de hipóteses possíveis.

O fator Lula terá, obviamente, importante influência — seja ou não candidato, a depender de prováveis pendengas judiciárias.

Concomitantemente, Ciro Gomes (PDT), Manuela D'Ávila (PCdoB) e outros tantos ainda não anunciados, cuidam de sua contribuição ao debate sobre os rumos do país.

Numa correlação de forças ainda adversa e diante do enorme desafio de conquistar parcelas expressivas do eleitorado para o campo oposicionista, urge o esboço de uma plataforma que dê conta da defesa da Nação ameaçada em sua soberania, do reordenamento democrático e do resgate dos direitos do povo ora solapados.

E, tal como em grandes movimentos transformadores, cabe um slogan que sintetize um programa e galvanize a emoção e o apoio das multidões — a exemplo de Terra, pão e paz, na revolução russa ou de Diretas-já, nos extertores da ditadura militar em 1984.

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB




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