Daniel Costa Lima

Quando nasce um pai?

 Não me senti pai quando descobri que a minha parceira estava grávida. Chorei copiosamente, mas não me senti pai. Tampouco após o primeiro ultrassom, quando ouvimos o seu acelerado coração. Os primeiros movimentos, que são quase imperceptíveis, como uma borboleta batendo asas, causaram euforia e os primeiros “chutes” então... mas nada do tal “sentir-se pai”.



Não é que eu estivesse preocupado com isso, mas havia sim uma certa curiosidade “Quando será que eu vou me enxergar como pai?”. Decerto, eu pensava, quando a nossa filha ou o nosso filho nascesse. Mas eis que o esperado momento chegou e eu fui tomado por um turbilhão de emoções que me impediu de sequer pensar na questão.

Mesmo extasiado com o seu nascimento e um tanto surpreso com a descoberta do sexo - já que meu palpite era que seria uma menina -, a emoção dominante foi a preocupação com a saúde dele e da minha parceira, que havia acabado de passar por uma cesariana que se mostrou necessária aos 44 minutos do segundo tempo, precisamente, após 40 semanas e quatro dias de uma gestação até então perfeitamente tranquila.

Cortei o cordão umbilical de Francisco, que na verdade só ganhou esse nome no dia seguinte e... cadê o pai? Poucos minutos depois, ele me olhou direta e profundamente nos olhos, o que por imensa sorte foi registrado pela amiga Juliana na foto que ilustra este texto. Recordo vivamente de ter pensado “Agora vai!”, mas ainda não era a hora.

Já no quarto, enquanto minha parceira ainda lidava com os efeitos da anestesia, empreendíamos, com Ludmila, a nossa doula, um esforço coletivo para que ele bebesse algumas gotas do rico colostro. Algumas horas depois estávamos sozinhos no quarto, nossos olhos fixados nele, acompanhando cada respiração. E foi nesta primeira madrugada que de repente a minha questão foi respondida.

Ele acordou chorando bastante e apesar do receio causado pela total falta de experiência com bebês recém nascidos, não pensei duas vezes, o peguei no berço, segurando-o bem próximo ao meu peito e comecei a caminhar pelo quarto, imitando movimentos que nunca havia feito, mas que estavam entalhados em minha memória. O choro foi dissipando aos poucos e de repente, tive a excepcional e deliciosa sensação de que o seu corpo fazia parte do meu, algo que até hoje acontece quando ele relaxa totalmente em meus braços e o seu peso magicamente some. Em poucos minutos ele estava dormindo e foi precisamente neste instante que eu me dei conta que havia me tornado um pai.

Desde então, o significado da paternidade ficou marcado para mim como uma ação - ou melhor, como um verbo.

Essa experiência descreve um pouco do que eu tenho vivido nos últimos cinco meses, que têm sido os mais intensos, desafiadores e prazerosos da minha vida. Como já escrevi nesta coluna e sempre defenderei, não existe um modelo ideal de paternidade, nem uma receita para ser pai. Mesmo assim, me espanta a quantidade ainda significativa de homens que abrem mão do contato físico e afetivo com suas filhas e filhos recém nascidos, em especial, aqueles que dizem que só pegarão nelas/es quando ficarem “durinhas/os”.

Seguramente você já ouviu algum homem dizer isso, ou talvez você mesmo tenha dito isso um dia. Como pai de primeira viagem, compreendo perfeitamente o medo e a insegurança advindos deste acontecimento tão radical, mas não posso deixar de pontuar um “detalhe” que passa despercebido por muitos: ao ter o primeiro filho ou filha, homens e mulheres geralmente se encontram no mesmíssimo barco, um tanto perdidos e bastante inseguros. A diferença é que apenas um dos lados pode optar por não enfrentar esses sentimentos de frente.

Em diversos grupos que facilitei com homens, pais ou não, sempre que o tema do distanciamento paterno surgia três argumentos eram rapidamente apresentados: 1. a existência de um “instinto materno”, algo sem paralelo entre os homens; 2. o fato de as mulheres serem mais preparadas para a maternidade, em decorrência da educação que recebem e 3. a intervenção de parceiras, avós e outras mulheres, que muitas vezes dificultariam a participação dos pais.

Sobre o suposto instinto materno, gosto de dizer que, da mesma forma que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, como escreveu Simone de Beauvoir em 1949, não se nasce mãe, torna-se mãe. Obviamente, o corpo das mulheres é preparado para engravidar, parir e amamentar, mas ser mãe é algo infinitamente mais amplo e mais complexo do que isso.

Entrando na seara das construções de gênero, é fato que as meninas são introduzidas ao universo do cuidado infantil desde cedo através das brincadeiras de boneca e de casinha e, pouco depois, do cuidado dos irmãos e irmãs mais novos (algo mais presente nas famílias menos abastadas). Porém, isso não quer dizer que estarão preparadas psicologicamente e/ou possuirão as habilidades necessárias para amamentar, para dar o primeiro banho, para lidar com um bebê que não para de chorar ou para acordar 10 vezes durante a noite.

É inegável que a maioria dos meninos é desestimulada a se aproximar deste universo dito feminino e que isso muitas vezes torna a chegada de um bebê ainda mais desafiadora para os homens, mas se a masculinidade é amplamente construída a partir da superação de desafios e da ideia de coragem, por que não aplicarmos isso justamente com este acontecimento?

Sobre a intervenção de algumas mulheres, que se mostram receosas e por vezes cerceiam os atos de cuidado dos homens, gosto de lembrar que elas também foram educadas numa sociedade patriarcal e machista, assim, também possuem visões estereotipadas dos papéis de pais e mães. No entanto, para superar tal desconfiança, há uma receita quase infalível: conversar sempre e demonstrar de forma contínua sua dedicação através de atos de cuidado e afeto, dividindo todas as tarefas da casa (de acordo com o tempo disponível para cada pessoa).

No fim, talvez mais importante do que contrapor esses argumentos seja apresentar como os atos de cuidado e de afeto exercidos por um pai (ou um padrasto, uma segunda mãe, um avô, enfim, um/a segundo/a cuidador/a) podem impactar positivamente a vida das crianças, das mães e também dos pais.

Há tempos sabemos que nos primeiros três meses de vida, o afeto representa para o desenvolvimento emocional e cognitivo do bebê o que o leite materno ou, quando necessário, a fórmula, representam para o seu desenvolvimento físico. É verdade que uma mãe “suficientemente boa”, como nomeado pelo pediatra e psicanalista Winnicott, pode suprir a demanda de afeto de seu bebê, no entanto, como diz a famosa frase espalhada Brasil afora, “Mais amor, por favor!”.

Nesse contexto, a construção precoce do vínculo de um pai com a sua filha ou filho acrescenta novas camadas às primeiras vivências do bebê, proporcionadas por um outro toque, um outro cheiro, uma outra voz, um outro ritmo... enfim, um outro objeto de afeto. Alem disso, a presença do pai pode contribuir imensamente para o bem estar físico e psicológico da mãe, algo que seguramente vai reverberar positivamente no bebê.

Por fim, mas não menos importante, o vinculo precoce entre pais e filhos/as pode ser positivo para os homens, pois terão a oportunidade de acessar emoções antes inexploradas e descobrir qualidades soterradas pela socialização que, como um mantra, repete que ser homem é não ser mulher; que ser homem é melhor do que ser mulher e que cuidar é coisa de mulher. Portanto, que homem não cuida.

Que surja em boa hora o nosso pai, que saibamos o acolher com carinho e que nos dediquemos na conjugação deste lindo e necessário verbo. Eu paterno.

* Pai de Francisco, psicólogo, mestre em saúde pública e consultor independente no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado e violência baseada em gênero.
costalima77@gmail.com

Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.



Publicidade

TEXTOS DESTE +

OUTRAS COLUNAS