Urariano Mota

Temer, sepulcro caiado

Fora Temer, no título acima o dicionário Aulete define “sepulcro caiado”: Na linguagem bíblica, os hipócritas, os fariseus.

O Dicionário Houaiss é mais preciso: “sepulcro caiado - Indivíduo hipócrita e extremamente legalista [A expressão foi us. por Jesus, ao dirigir-se aos fariseus, segundo o relato do Evangelho de Mateus.]”

E de fato, assim falou Jesus, irado:

“Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Pois são semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos mortos e de toda a imundícia”.

Os explicadores da Bíblia, bem didáticos, ensinam que Jesus falou da existência de pessoas que agem como um “sepulcro caiado”, ou seja, são podres por dentro, mas com uma aparência de belo (túmulo fétido por dentro, mas com uma bela pedra pintada de cal branco, ou pedras de mármore por fora, escondendo sua verdadeira aparência).

Já o povo, menos bíblico, alargou a expressão evangélica para todos os indivíduos que mantêm boa aparência por fora, mas que estão quebrados, doentes, velhíssimos por dentro. E zombam, e falam às costas, dos sepulcros caiados. Em um caso e outro, se juntarmos a galhofa popular à condenação moral, se aplica o caso de Michel Temer.

Pois não pode haver outra interpretação para o que lemos em toda imprensa, que por ser ética, imparcial e objetiva, nada comenta sobre o milagre da recuperação de Michel Temer. Copio do Correio do Estado: “'Recuperadíssimo', diz Temer durante caminhada no Palácio do Jaburu

O presidente Michel Temer fez uma caminhada na manhã desta quinta-feira (4) na residência oficial do Palácio do Jaburu. Questionado por repórteres e fotógrafos sobre sua saúde, Temer afirmou que está “recuperadíssimo”. A imprensa foi avisada de que Temer faria a caminhada.
‘Perfeito, recuperadíssimo, graças a Deus’, disse o presidente.

Temer saiu para caminhar de camiseta e calça de ginástica por volta das 8h22. ‘Deus ajuda a quem cedo madruga’, afirmou.

Temer, que tratou uma infecção urinária nos últimos dias, caminhou pela pista da residência oficial. Um dos assessores do presidente avisou a imprensa, na quarta à noite, que ele pretendia fazer o passeio matinal e que poderia ser fotografado e filmado durante a atividade...

‘Ontem eu vi que vocês estavam por aqui e eu não sabia que vocês tinham vindo para fazer essas imagens’, disse.

Em 13 de dezembro, Temer foi submetido à cirurgia no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para desobstruir a uretra. Ele precisou utilizar uma sonda, que já foi retirada.

Foi a segunda intervenção urológica do presidente, que em outubro, passou por um ‘procedimento de desobstrução uretal através de ressecção da próstata’. No intervalo das cirurgias, ele ainda realizou, em novembro, uma angioplastia de três artérias coronárias”.

O que dizer de semelhante ressureição? Antes, eu já havia escrito em maio do ano que passou:

Em todos os significados de fantasma devemos ver a criatura Michel Temer. Temos um presidente que para tão alta honra não foi eleito, primeiro. Temos um fantasma que se tornou a estrela-guia do inferno para os trabalhadores no Brasil, segundo. Temos uma aparição que aliena o petróleo brasileiro para as multinacionais. Temos o beneficiário número 1 da corrupção no congresso, com quem tramou a queda de uma presidenta íntegra. Temos, enfim, com tal fantasma o recuo do Brasil até as trevas dos direitos humanos. Em qual significado poderíamos enquadrar um presidente sem presidência, uma presidência sem presidente, um governo sem governo, uma autoridade cuja ilusão é o cargo vazio?

Mas agora, neste janeiro de 2018, ele caminha, quase como um Jesus Cristo sobre as águas. Milagre, depois de cirurgias e uma resistente infecção urinária. Recuperadíssimo! Ah, o povo fala, com muita razão, que vaso ruim não quebra. Ao que um diabo me sussurra:

- A exceção existe. Chegou a hora de Temer.

- Mas como, se ele está recuperadíssimo?!
Ao que o diabo me responde:

- No passo em que vai, ele morre bonzinho.

De fato, reconheço, Temer já morreu e faz de conta que anda por aí, vivinho. Mas para a visão da sua morte concordam o Diabo e o Apocalipse, que fala, o segundo: “Tens nome de que vives, e estás morto”. Ora, se a Bíblia e o Diabo concordam, quem há de ser contra?

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”




Publicidade

TEXTOS DESTE +

OUTRAS COLUNAS