Alexandre Santini

Conto de Ano Novo

Naquela manhã, pulou da cama bem cedo, quando pipocaram os primeiros fogos dos muitos que iriam estourar naquele dia. Desde o Natal que o povo não parava de soltar fogos, brincadeira de adultos que sempre fascinou o menino. A cachorrada latia, a mãe se assustava. Os fogos, às vezes, parecem tiro, e barulho de tiro não tem graça. Mas aqueles eram fogos, com certeza.

Foto: Lucas Landau / Reprodução Facebook

Junto com o barulho de fora, a agitação dentro de casa: movimento na cozinha, música no rádio, televisão ligada, entra e sai de vizinhos, amigos, parentes, visitas. Adorava aquela época do ano, o menino. Parecia uma festa que durava uma semana: no meio das férias, ninguém tinha hora pra dormir, e podia ficar na rua até mais tarde, a casa cheia, a comida caprichada, a família se juntava, e todo mundo ficava de bom – ou pelo menos, melhor – humor.

Lembrava-se de natais melhores. A mãe disse que, nos últimos dois anos, o Natal tinha voltado a ser de pobre. Com 9 anos, o menino já tinha noção da passagem do tempo, e se lembrava que, quando pequeno, em cada Natal surgia um item novo na casa: a TV de tela grande, a máquina de lavar, geladeira nova, fogão de seis bocas, o computador. A mãe dava duro trabalhando em casas de família, mas os irmãos estavam estudando, na faculdade. O mais velho parou – ou melhor, deu um tempo – esse ano, arrumou trabalho de vigia, turnos de 24 horas com folgas de 12, para ajudar nas despesas de casa, mas a irmã continuou a estudar. Faltavam só seis meses pra ela se formar em Pedagogia.

O caçula era ele, na escola ainda. A mãe dizia, rindo, que ele foi “acidente de percurso”. No Natal, era bom ser o “menor” da casa. Foi o único a ganhar presente! Mas a comida era boa e a mesa farta: frango, arroz de forno, maionese, farofa, rabanada, pavê de biscoito maizena, garrafão de vinho, guaraná e coca cola. A comida do Natal ia rolando a semana toda, o enterro dos ossos não acabava mais.

Agora, a expectativa era outra: o ano novo na Praia de Copacabana! Morador do Chapéu Mangueira, no Leme, conviveu sempre com o visual da praia, a água do mar, o calor,a multidão. Sonhava crescer um pouco mais, ir à praia sozinho, com a turma de amigos. Por enquanto, tinha que se contentar com as idas com a irmã em finais de semana e – raramente – mergulhos com o irmão, que, à base de jacarés e caldos, lhe ensinou a nadar. Com a mãe, nunca ia à praia. Ela não gostava de pegar sol, e agora ouvia o pastor falar que festa de Ano Novo era macumba, as pessoas de branco, batendo tambor, tudo coisa do diabo.

E no dia 31, lá estava a mãe, junto com toda a família e a vizinhança se preparando para descer para a praia, para passar a virada. Esse ano, ia ter festa na areia. Pelé, barraqueiro do Leme e cria do morro, cercou uma parte em frente à barraca e montou uma “área vip” para a comunidade do Chapéu Mangueira. Todo mundo colaborou para comprar o churrasco e a cerveja. O irmão ia atacar de DJ depois da meia-noite, e estava na lan house catando as últimas novidades no Spotify. “Vai Malandra” era uma que ia tocar a noite toda! E o menino, fascinado, vendo aquelas mulheres, parecidas com as amigas da irmã, se bronzeando na laje e brincando com o bumbum… Tu tu dum!

Na hora do pôr-do-sol, a galera batendo palma, a turma toda do morro já na praia, marcando território, botando a cerveja no gelo e as carnes pra queimar. Linguiça e asa de galinha à vontade! O menino vestia um short preto de time de futebol, seu presente de Natal. Destoava do branco onipresente, mas nada como ano novo de roupa nova. E foram vários mergulhos refrescantes naquela noite quente de verão, a última de 2017.

Foi chegando a meia-noite, e a praia cada vez mais lotada. Na barraca do Pelé, a festa rolando solta, pessoal já calibrado, alvoroço pela queima dos fogos. Muito barulho. O menino apertado, meio sufocado entre os adultos, quase não conseguia ver o céu. Dali, ele não ia ver nada. Foi, então, por debaixo das pernas, passou o cercadinho VIP, atravessou a multidão da praia e foi chegando, chegando… Até conseguir colocar os pés na água, e ver aquela explosão maravilhosa de som e cor. Nunca tinha visto tão de perto, nem se lembrava de algo parecido…

O mar tingido de vermelho, os fogos mudavam a paisagem, a cor do céu, nuvens de fumaça… Ficou ali hipnotizado, extasiado por alguns minutos, nem se importando com o frio, vidrado naquela cena. Percebeu um cara falando com ele, um fotógrafo, não dava pra ouvir nada, por gestos perguntava a idade dele, respondeu que tinha 9, veio uma onda mais forte, a água
espalhou todo mundo, não viu mais o cara. Voltou para a barraca do Pelé, e ficou ao lado do irmão, que tocou funk a noite toda. Foi o melhor ano novo da vida dele, até agora.

Na manhã seguinte, todo mundo em casa de ressaca, a irmã viu no Face aquela foto, fazendo o maior sucesso, saindo nos sites dos jornais, bombando na internet, geral compartilhando. Tinha também uma polêmica, parece que acharam a foto racista, que era denúncia da pobreza, exclusão social, essas coisas. O menino achou maneirão, todo mundo do morro viu, falaram que naquela semana ele ia ficar famoso e ser o assunto das redes. O irmão deu a ideia de eles gravarem um funk, ele fazendo a base e o menino de MC, fazer um vídeo, com a imagem da foto, e postar no Youtube. A irmã acha que vai bombar. Pelo jeito, 2018 vai ser diferente!

*  Gestor cultural, dramaturgo e escritor, é diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina"




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