Luciano Siqueira

Meu indispensável e injustiçado smartphone

Isso mesmo, minha gente. Sem receio da crítica dos "politicamente corretos", eis que me empenho agora na defesa do smartphone, essa genial geringonça, subproduto do extraordinário avanço tecnológico dos dias que correm.

Reincindentemente recorro à crônica de Machado de Assis, no início do século passado, a propósito de um acidente com o bonde elétrico no Rio de Janeiro, que quase mata um cidadão. - É nisso que dá ter substituído os animais pela eletricidade!, protestava o grande Machado.

Um exemplo marcante de resistência à inovação, presente na alma até de gente como o genial Machado.

Uma tremenda bobagem, convenhamos. Pois desde a descoberta do fogo ou da pólvora, a relação criativa do homem com a natureza vem produzindo conquistas as mais diversas que, bem utilizadas, facilitam em muito nossa labuta cotidiana.

É certo que a valorização desta ou daquela descoberta depende do ângulo preferencial de cada um.

Recordo-me de colegas da velha Faculdade de Medicina da UFPE que às sextas feiras, no final da tarde, com alguma frequência se reuniam num bar ali por trás do Cine São Luís para uma boa rodada de chope, acompanhada de ovos cozidos.

Travamos polêmicas homéricas sobre temas absolutamente secundários, pelo puro prazer de pelejar sem nenhuma consequência.

O querido e inesquecível Zé Carlos Souto, que viria a se formar competente e requisitado psiquiatra, com verve muito própria, certa vez provocou o debate: qual invenção a mais benéfica e prazerosa para os seres humanos, o avião ou a cerveja?

Imaginem quanta tese, conforme o ângulo de análise de cada um e os efeitos das oxidrilas na cuca!

Pois bem. Todos sabemos que hoje quase tudo é possível fazer com um smartphone à mão - do simples telefonema às operações bancárias, incluindo acesso às mídias, canais de TV e tudo mais.

São verdadeiros computadores de bolso que, via internet, nos põem em contato com o mundo.

Resisti ao smartphone tanto quanto pude, igual relutei trocar a máquina de escrever pelo computador. Mas ao me render aos benefícios dessa maravilha do século 21, confesso, tornei-me usuário entusiasta.

Ora, tenho uma agenda muito intensa, mesclada de compromissos profissionais e políticos e das boas coisas da vida como as amizades, a fotografia, o cinema, a literatura e o futebol. Por que não me valer do aparelhinho que conduzo no bolso direito da calça e que me mantém conectado para o que der vier?

Mais: meu número é amplamente conhecido, tornado público faz tempo, e muita gente se vale do WhatsApp para me enviar mensagens cobrando providências do vice-prefeito para resolver problemas da cidade ou pessoais.

Atento às mensagens, mais de uma centena ao dia, as repasso imediatamente à minha equipe para que nada fique sem resposta.

A mensagem de fim de ano que gravei em vídeo, além de postá-la no Instagram, Twitter e Facebook, em poucos minutos a enviei pelo WhatsApp para muitas centenas de amigos. (Já não uso os tradicionais cartões impressos, nem os cards via e-mail e redes sociais).

Mas frequentemente ouço críticas e a queixa: - Puxa, você não solta esse celular!

E quem critica - suprema contradição! - cobra minha desatenção para com... suas mensagens pelo WhatsApp!

Ou, num instante de lazer e descontração, ouço: - Cadê as fotos, você não tirou fotos?

Em resumo, sou criticado por usar o celular e, ao mesmo tempo, por não tê-lo usado neste ou naquele momento.

No fim e ao cabo, cai tudo na definitiva e irrecusável conclusão: se com o smartphone a vida continua complicada, sem ele mais complicada ficaria.

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB




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